segunda-feira, 2 de junho de 2008

Foi assim que tudo começou... - parte 4

Janeiro de 1995. São 7h da manhã. Estou de pé, em frente ao tiro-de-guerra, com uma radiografia da coluna nas mãos. Em minha volta estão cerca de 200 rapazes, todos da minha idade. Todos aguardamos ansiosamente que o portão se abra para que possamos ser examinados pelo médico e sabermos se vamos ou não servir o exército durante este ano, a partir do mês que vem. Não há como negar que existe uma certa tensão no ar, mas é bem provável que eu seja o mais tenso. O papai quer que eu faça faculdade este ano. Ele quer que eu estude na Unifran, mas eu quero estudar em uma universidade pública, pra não pagar. Até onde sei, somente os menos inteligentes (ou mais azarados...) é que pagam pra fazer faculdade. A gente usa o termo PPP, que quer dizer “Papai Pagou Passou” pra se referir a escolas e faculdades particulares. Pois bem, agora eu faço parte deste time. Sinto-me um fracassado, mas espero que não seja por muito tempo. Quero estudar para prestar vestibular no meio do ano. Já disse para o papai que ele vai jogar dinheiro forma, mas ele disse que não se importa. O fato é que vai ser difícil conciliar a faculdade com o tiro-de-guerra. A radiografia em minhas mãos é minha chance de ser dispensado. Tenho um problema na coluna desde os 12 anos. O médico chamou o problema de “lordose e escoliose”. Não sei bem o que é isso, mas me disseram que quem tem problema de coluna tem grandes chances de dispensa. Os jovens que formam a fila à minha frente não parecem tão preocupados como eu. Muitos riem, parecem estar se divertindo. A maioria deles conta suas peripécias de bêbados ou narra suas aventuras amorosas. Fico então me perguntando por que não acho esta situação engraçada. Sou muito diferente destes jovens. Não fumo, não bebo ou tampouco fico até altas horas pela rua. Dizem que sou “sistemático” e muito sério, pois vivo com cara de bravo. Mal sabe que é por causa da fotofobia que acompanha o meu astigmatismo. A cara de “bravo” e os óculos enormes fazem com que eu pareça ter 10 anos a mais. Como se não bastasse, sou um fracasso com as mulheres. Culpa da timidez. Na verdade, não tenho nada que atraia as moças de minha idade. Não sou falante, não me visto bem, não tenho dinheiro. Dizem que sou inteligente, mas as moças da minha idade parecem não gostar muito de rapazes inteligentes. A propósito, alguns colegas acham que eu sou “doido” por viver entre os livros. Ora, os livros são um refúgio para a minha timidez. Como eu não tenho muitos amigos nem namorada, passo a maior parte do tempo estudando. Ah, ia me esquecendo: também não sou bonito. Pelo menos é isso que o papai me disse quando aos 10 anos eu fui lhe perguntar por que é que nenhuma menina se sentia atraída por mim. “Por que você é feio, uai!”. Olho para o céu. Está azul, com poucas nuvens brancas, como se fosse uma pintura. “Ô, meu Deus do céu...”. Sinto como se o mundo estivesse sobre meus ombros, como se eu carregasse um fardo muito pesado para a minha idade. Minha vida está uma bagunça., Tenho vontade de chorar. Quando penso em pedir um sinal a Deus, vejo um jovem chegando de cadeira de rodas, estacionando no final da fila. Imediatamente olho para a radiografia em minhas mãos e me envergonho. Sinto vontade de escondê-la. Observo então os jovens se divertindo com aquela situação. Um largo sorriso brota então em meu rosto. “Se é pra ser assim, então que seja! Se estou aqui e vou ter que servir o tiro-de-guerra, com certeza é porque Deus tem um plano para mim. Vamos ver no que vai dar!”

2 comentários:

Anônimo disse...

cara, essa é minha vida, sem tirar nem por... O.O

Anônimo disse...

inclusive sou daqui de sjb e tambem estudei na feam