quarta-feira, 4 de junho de 2008

Foi assim que tudo começou... - parte 5

Março de 1995. Este ano está sendo muito diferente do que eu pensava. Eu achava que seria um ano sem grandes novidades, mas muitas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo. Há um mês estou servindo o tiro-de-guerra. Vestir esta farda camuflada faz com que eu me sinta uma pessoa de bem. Eu me sinto importante, é como se as pessoas olhassem para mim com respeito. Não tenho encontrado dificuldades em me adaptar à disciplina militar, pois o papai sempre exigiu muita educação na forma de tratar com ele. Já meus colegas dizem “você” para o sargento, e ao invés de responderem “senhor”, dizem “oi”. E lá vão eles pagando mais duas dezenas de flexões de braços... Também estou fazendo faculdade, mas estou estranhando um pouco. Para começar, estranhei minha classificação no vestibular. Fui aprovado em 2º. Lugar dentre os 2.500 vestibulandos, uma colocação inesperada para quem sequer ia prestar vestibular. Minha sala é enorme, a única pessoa que conheço de vista é o Gracioli. Não somos próximos, mas sei que estamos servindo o tiro-de-guerra. Mas o que tem mais me incomodado é andar pelos corredores da faculdade. Sinto-me estranho, como se todas as pessoas ficassem me analisando. É uma situação de desconforto enorme, e isso me deixa ainda mais tímido. Com relação ao conteúdo das disciplinas de Química, até agora não vi nada de novo. Dizem que o primeiro ano é uma espécie de nivelamento. Vamos aguardar pra ver. Na minha vida pessoal, entretanto, pouca coisa mudou. Ainda estou sem namorada e fico envergonhado quando as moças passam e o papai me diz para olhar para o “traseiro” delas. Ao me ver abaixar a cabeça, todo vermelho, ele fica raivoso. “Esse desgraçado é viado!”, esbraveja ele. Fico triste quando ele diz isso, pois ele não faz idéia do que se passa comigo. Por mais que isso pareça estranho, sei que não sou o único problema que ele tem. A “Fia” também tem o deixado preocupado. No auge de seus 15 anos, ela encontra-se muito rebelde. Além de gritar com a mamãe, ela se tranca no banheiro e diz que vai tomar remédio pra se matar. Outro dia tive que impedi-la de sair de mobilete, pois ela disse que ia se jogar debaixo de um caminhão. Com tanta rebeldia, o papai chegou a achar que ela tivesse com algum “encosto”. Após várias consultas a centros espíritas, a saída que o papai e a mamãe encontraram foi levá-la a um psicólogo. O discurso do papai para o psicólogo surpreendeu-me. “Doutor, essa menina tá dando muito trabalho. Ela responde pra mãe dela, é muito rebelde. Já o outro, de 19 anos, é totalmente o oposto. É bonzinho, quietinho e educado. Quase não fala." Mas a resposta do psicólogo foi mais surpreendente ainda. “Então traz o seu filho porque o problema está nele. Ela está na adolescência, é uma fase naturalmente rebelde.” Putz! Imagine se aqueles que me chamam de “doido” descobrirem que estou indo a um psicólogo... Minha vida, definitivamente, está indo para o buraco.

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