domingo, 8 de junho de 2008

Foi assim que tudo começou... - parte 7

Abril de 2005. Hoje o papai e a mamãe realmente me levaram ao psicólogo. Quando foi me apresentar a ele, o papai foi logo dizendo: “Doutor, dá um jeito nesse moleque aí. Vê se arranja uma namorada pra ele. Esse filho da puta tem medo de mulher!” A resposta do psicólogo foi imediata: “O seu filho tem outros problemas mais complicados a serem resolvidos”. Aquele homem de baixa estatura, com barriga de cerveja e com uma barba preta cerrada conduziu-me a uma sala mal iluminada. Sentou-se à minha frente, tirou os óculos redondos, apoiou os ombros sobre a mesa redonda envernizada e se apresentou. “Meu nome é Guilherme Davoli. Estou aqui para ajudá-lo.” Inicialmente constrangido por estar me submetendo àquela situação, e acreditando que estava perdendo o meu tempo, limitei-me a balançar a cabeça. Com uma voz que transmitia confiança, o Guilherme iniciou então o seu trabalho. “Pelo que pude perceber, você tem sérios problemas com o seu pai. Fale-me um pouco da relação de vocês.” Os 50 min que se seguiram foram talvez os mais tortuosos que já havia vivido. Foram momentos de pranto intenso. A pedido dele, comecei a mexer em feridas do passado que não haviam sido totalmente cicatrizadas, e que segundo suas palavras são as grandes responsáveis pela minha personalidade e pela situação em que me encontro. Descobri que a surra que eu havia levado aos 5 anos tornou-me um adolescente tímido e introspectivo, e fez com que eu deixasse de ver o papai como o meu grande amigo e passasse a vê-lo como um patrão autoritário. Descobri que a minha timidez com relação às mulheres vinha do fato dele ter me chamado de “feio” aos 10 anos e que por eu nunca ter conseguido um elogio sequer dele, acabei anulando a minha auto-estima. Ao apontar essas razões, o Guilherme explicou-me: “Seu pai sequer sabe que cometeu esses equívocos. Ele acha, inclusive, que está fazendo a coisa certa. Não o culpe por isso, ele o ama muito. Todos cometemos erros. Mas não espere que o seu pai assuma esses erros nem tampouco cobre o perdão dele. Perdoe-o desde já. E não se esqueça: quando você sair pela aquela porta, uma nova vida se iniciará. As mudanças no seu mundo dependerão das mudanças em você. Nos vemos semana que vem.” Quando me viu saindo pela porta, o papai levantou-se do sofá. "E aí, filho, como foi?" Corri em sua direção e o abracei com força. Ele achou estranho, mas sorriu. No meu íntimo, eu também sorri. “Papai, a partir de agora o senhor tem um novo filho...”

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