terça-feira, 1 de julho de 2008

Carta à minha grande amiga

Querida amiga Ana Cláudia, Sei que no momento em que escrevo estas palavras os seus olhos não podem mais lê-las, mas sinto necessidade de escrevê-las. Talvez ao digitá-las eu tenha a minha última esperança de esvaziar esta angústia que tem me abatido desde que você partiu. É como se a nossa conversa tivesse sido interrompida sem que eu tenha lhe dito tudo o que eu queria dizer. Na verdade, acho que eu jamais conseguiria traduzir em palavras toda a amizade, a gratidão e a admiração que sempre tive por você. Mesmo assim, há uma força que me impele a escrever. Nos últimos anos tenho refletido bastante sobre a vida e como somos pouco evoluídos para entender o rumo que Deus dá aos nossos destinos. Quando fazemos uma análise detalhada de cada pequeno instante que se passou, percebemos que cada um deles foi importante para nos tornarmos quem somos agora. Cada suspiro nos torna pessoas diferentes das que érmos um segundo atrás, e nada disso acontece por acaso. Obviamente não foi por acaso que você surgiu em um momento tão difícil de minha vida. Eu era um estudante de pós-graduação sem qualquer traquejo de laboratório, em um lugar em que todos me eram completamente estranhos. Eis que você surgiu como um anjo e ofereceu-me a ajuda que eu precisava sem eu sequer ter pedido. Olhando agora com outros olhos, não me resta qualquer dúvida de que foi Deus quem a enviou naquele momento. Foi você quem me ajudou a dar os primeiros passos na parte experimental, tendo inclusive preparado o experimento que foi definitivo para obter os resultados que eu defenderia dois anos depois. Tamanha gratidão transformou-se em amizade. Éramos praticamente vizinhos de banca e conversávamos praticamente o tempo todo. Você ria das histórias e das piadas que eu contava. “Credo, que horrível, Miller!” Era sempre essa a sua reação, e no final das contas era você quem me fazia rir. Ter você como companheira de laboratório era um privilégio para todos. Você sempre estava cercada de pessoas que sempre vinham desabafar com você, e mesmo com todos os experimentos que precisavam ser feitos, lá estava você com o coração aberto para ouvir as nossas queixas. Eu passei a chamá-la de “amiiiiiiiga” e você me chamava de “amiiiiiiigo!” para ironizar a forma como a Ednéia se referia aos colegas de laboratório. Você era a que mais entendia de ressonância magnética nuclear, era a mais competente de nós todos. Em suas mãos um espectro de RMN tornava-se algo tão simples como um jogo de dominó. Lembro-me da sua letra, da forma como você pegava na caneta... Jamais vou me esquecer que você pedia pra aumentar o volume do rádio do Sakamoto quando tocava “Mambo no. 5”. Você começava ensaiar alguns passos atrás da sua bancada e acompanhava a letra da música em inglês. Eu achava o máximo, principalmente porque nunca soube dançar nem tampouco consegui dominar a língua inglesa. Quando você terminou o doutorado, eu herdei aquelas miniaturas dos Flinstones, aqueles que você tinha ganhado em uma promoção de não sei o que. Então você foi viajar para a Espanha, e quando voltou trouxe inúmeras fotos pra gente ver. “Gente, não há nada que pague a realização de um sonho”. Essas palavras nunca me saíram da memória. Voltamos a nos encontrar em 2004, agora como professores dividindo a disciplina de Química Orgânica na Unifran. Que orgulho! Eu me lembro de você trazendo as cadernetas e me entregando-as no laboratório, todas preenchidas. Sua humildade estava à altura do seu conhecimento, e isso aos poucos tornou-a, merecidamente, uma das professoras mais queridas do curso de Química. Não foi à toa que você foi eleita “nome de turma” dos formandos de 2006. Os alunos adoravam o apito que você usava para chamar-lhes a atenção durante as aulas de Química Orgânica expeirmental! Lembro-me das viagens de quarta-feira, quando íamos conversando no ônibus de Ribeirão Preto para Franca. Parece que ainda a vejo entrando no ônibus... Como o ônibus sempre chegava em cima da hora, você sempre chegava na sala de professores e sempre ia passar o cartão de ponto. Sempre chegava com os óculos de armação fina e dourada, de jaleco e com sua enorme bolsa no ombro. Mesmo na correria, você ainda teve tempo para me ouvir contar-lhe que eu estava com sapatos de pares diferentes nos pés. De nada adiantou pedir sua discrição... “Miiiiiler!! Você está de sapatos trocados!!!” Você quase teve um acesso de risos! Veio então a segunda gravidez e então você pediu afastamento. Fomos nos reencontrar na formatura de 2006, quando você foi nome de uma das turmas e eu fui nome da outra. Sim, nós formávamos uma dupla e tanto! Você estava com um chapeuzinho para esconder a ausência de cabelos. Era a única evidência de que você estava se tratando. Seu sorriso continuava o mesmo, sua bondade continuava a despertar a admiração de todos. Voltei a vê-la quando fui entregar-lhe o convite para o meu casamento. Foi tão emocionante reencontrar minha grande amiga após tanto tempo... Tive que conter as lágrimas, mas você não conseguiu conter as suas quando lhe contei que todos lá da Unifran te mandaram lembranças e que estavam com saudade. Você mencionou os posts do blog que escrevi sobre você (“à minha grande amiga...”). Ainda me lembro de você dando “tchau” quando a porta do elevador se fechou. Mal sabia que aquela seria a última vez que a veria com vida. Passados mais de 30 dias do meu casamento – como lamentei sua ausência... – recebi uma ligação sua. Como foi bom ouvir sua voz! Você me ofereceu alguns livros – eu adoro aquela coleção do Solomons que você usou na época de graduação e que me deu de presente! – e eu os aceitei. Disse que ia buscá-los na sua casa quando pudesse. Perguntei como você estava. As notícias não eram boas: o câncer havia se alastrado para o crânio e para a medula. Duas semanas depois eu liguei para a sua casa, preocupado, com o pretexto de marcar uma data para buscar os livros. Sua mãe atendeu, disse que você estava internada. A notícia trágica veio como uma bomba às 9h53min do dia 26 de junho de 2008. Você partira às 5h da manhã. Refiz então o mesmo percurso que fizemos tantas vezes de ônibus. As lembranças foram brotando, as lágrimas também. Elas ainda brotam quando eu me lembro. Havia muitas pessoas no seu velório e muita tristeza. Olhei para o João. Havia muita dor no seu semblante. Quando nossos olhares se cruzaram, ele apontou para você, como quem queria dizer: “Olha só, Miller... ela se foi!” Quando o abracei, ele me disse: “Obrigado por você ter vindo. Você não faz idéia do quanto a Ana Cláudia gostava de você.” Ah, Ana, ele é que não faz idéia do quanto eu gostava de você, minha grande amiga... Sempre que me lembro de você, querida amiga, meus olhos ficam úmidos de lágrimas. Não sei te explicar por que elas surgem, mas não tenho conseguido evitá-las. Talvez seja saudade de você e dos momentos que jamais me esquecerei. Talvez seja a necessidade de viver, a mesma que você manteve até o último minuto. Talvez seja o peso da responsabilidade de ter que fazer pelos meus semelhantes aquilo que você fazia pelos seus. Talvez seja a alegria de ter tido o privilégio de compartilhar alguns instantes desta nossa breve existência ao lado de uma pessoa tão grandiosa como você. Quero que você saiba que seguirei todos os seus ensinamentos e tentarei seguir os seus passos, sendo um bom esposo, um bom amigo, um bom professor, um bom filho. Seja qual for o motivo, saiba que você está mais viva e mais presente do que nunca em minhas lembranças. E seja qual for o caminho que Deus der para minha vida, tenho uma grande certeza: “Qualquer dia, amiga, a gente vai se encontrar...”

Nenhum comentário: