quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Imprudência

Minhas viagens à Franca são sempre monótonas, graças a Deus. Não aprecio grandes emoções em rodovias nem tampouco tenho paciência para trafegá-las. Na verdade, tenho adquirido certa aversão por veículos automotores, talvez pelo fato de perder boa parcela de meu tempo diário dentro de um. Esta é a forma mais dolorosa de perceber que meu pai passou os últimos 22 anos longe de casa porque precisava trabalhar, e não porque gostava, como eu achava quando era criança. Eis que durante 6 h semanais encontro-me agora na mesma condição de meu pai – a de motorista. Um de meus maiores sustos na infância deu-se na viagem de São Joaquim da Barra-SP para Quirinópolis-GO, onde moramos até os últimos meados de 1982. No início de um aclive uma pedra foi projetada involuntariamente por um caminhão carvoeiro contra o pára-brisa do carro em que estávamos mamãe, papai, minha irmã, então recém-nascida, e eu, então com 4 anos. Nem é preciso dizer que diariamente esses caminhões aparecem pelo caminho, praticamente parados. Quando não há visão, a saída é esperar pacientemente. Caminhões canavieiros aos poucos foram desaparecendo e dando lugar aos temidos treminhões. Vários destes também surgem durante o percurso. O comprimento de alguns deles chega a 30 m, sendo que a velocidade dos “danados” sempre é inversamente proporcional aos seus comprimentos. Haja paciência. Cabem aqui dois relatos de situações um tanto curiosas que se desenrolaram após ultrapassagens que fiz após o retorno das férias. Em ambas havia um caminhão carvoeiro (ou um treminhão, não me lembro com precisão...) e um carro, que aguardava a oportunidade para ultrapassar assim que tivesse uma visibilidade plena da rodovia. Pois bem. Aqueles que dirigem sabem que a visibilidade fica imensamente prejudicada quando se está atrás de um veículo, principalmente em sendo ele um caminhão longo e cuja carroceria é alta. Qualquer carro que venha “embalado” é capaz de fazer a ultrapassagem sem qualquer perigo, pois sua visibilidade geralmente é bem melhor. Já passei por isso várias vezes, e a sensação que tenho é de estar fazendo papel de bobo. A sensação, obviamente, logo desaparece. Afinal, o importante é chegar vivo, são e salvo ao trabalho Há, entretanto, alguns motoristas que não pensam desta forma. Dias atrás ultrapassei um desses carros. Era uma Parati geração 3, com placa de São José da Bela Vista. Seu interior estava lotado de pessoas, parecendo tratar-se de uma família. Após ter ultrapassado este carro e o caminhão, o motorista da Parati parece ter ficado irritado e acabou ultrapassando-me. Até aí tudo normal, não fosse o fato de um dos passageiros ter colocado uma das mãos pra fora e gesticulado, como se quisesse dizer: “Vamos, pisa fundo nessa porcaria de carro! É só isso que você consegue andar?” Ora, não demorou muito para que este motorista novamente se deparasse com um outro caminhão pesado em baixa velocidade e se posicionasse atrás dele em função da baixa visibilidade. Como eu tinha toda a visibilidade do mundo para ultrapassar, não pensei duas vezes e ultrapassei tanto a Parati como o caminhão. Aparentemente possesso, o motorista da Parati seguiu atrás de mim em alta velocidade. Sem pressa, deixei que o motorista da Parati seguisse seu caminho. Afinal, não estou em um carro de fórmula 1 nem tampouco ganho para colocar minha vida em risco. Porém, logo que passou por mim, a família inteira colocou as mãos pra fora. Uma das passageiras colocou uma canga para fora do vidro do passageiro, sendo que um dos passageiros deixou o pé para fora, como se quisesse “chamar-me para um racha”. Outro dia um Escort, curiosamente com placa da mesma cidade, fez algo muito parecido, porém suas ultrapassagens eram irresponsáveis, muitas vezes feitas pelo acostamento da outra pista. Quando estava se aproximando da entrada para São José da Bela Vista, o motorista reduziu a velocidade e começou a piscar as lanternas de seta traseiras, chamando-me para um “racha”. Ora, o próprio nome já diz o que acontece com quem entra neste tipo de desafio. Estas situações de irresponsabilidade manifestada fazem lembrar-me de uma frase que escrevi aos 11 anos e que foi premiada como uma das melhores da escola em que eu estudava: “O trânsito é diferente do brinquedo de carrinho; nas estradas só tem motorista maluquinho”. Fico pensando como é que eu pude perceber isso aos 11 anos, em meados da década de 80, quando a vida ainda andava devagar...

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Labirinto

Novamente me deparo com suas páginas deste blog e não sei por onde começar a postagem. Faz tanto tempo que não lhe deixo nenhum registro pessoal. Não são as coisas que estão acontecendo agora que me fazem ausente, e sim as que aconteceram, pois nelas estão as razões de estar passando um período tão atribulado.

Os exames mostraram que não há nada de errado acontecendo comigo. A pressão está ótima, o diabetes está normal. Apenas o colesterol está um pouco acima (mas muito muito pouco mesmo!), mas não é nada que mereça preocupação. Estou com uma gordurinha acumulada na região lateral da cintura, provavelmente em virtude do tempo que não tenho para ir à academia. Tudo isso, é claro, pode ser em virtude da idade. Afinal, meu corpo já não é mais o mesmo de 15 anos atrás. Tenho 32 anos e já estou quase na metade do caminho.

Mas há algo de errado que a tomografia e o eletroencefalograma não mostraram. Nem eu nem o neurologista sabemos a razão das minhas vertigens. Elas vêm e não sem horário marcado. A visão não consegue se fixar em um único ponto. Ao invés disso, fica oscilando e causando sensação de embriaguez. Daí em diante é só apreciar o mundo rodar e procurar um lugar pra se apoiar para evitar o tombo.

A despeito das recomendações médicas, continuo viajando para Franca. Eu preciso trabalhar para sobreviver. Não posso me dar ao luxo de ficar faltando. Caso as vertigens surjam enquanto eu estiver ao volante, pararei e esperarei passar. Por outro lado, tentarei poupar-me do stress, pois pode ser ele a causa de tudo isso.

Aos poucos estou retomando minhas atividades normais. Acho que o período de depressão oriundo do falecimento da Ana Cláudia está passando. Os artigos estão voltando a ser escritos e a sensação de estar fazendo as coisas com capricho está voltando. Estou novamente no caminho certo, mas às vezes... somente às vezes... o mundo ainda parece girar rápido demais.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O fim

Quarta-feira, 6 de agosto. São 6h da manhã. Um barulho ensurdecedor vindo do portão faz com que eu me levante, asusstado. Há alguém lá fora. A Débora ainda dorme ao meu lado, parece não ter ouvido nada. Preciso sair lá fora e verificar o que está acontecendo. Abro a porta que separa o corredor dos quartos e a sala e avisto o portão aberto. Assim que adentro a sala, um homem gordo e de cor negra cruza meu caminho. "Meu Deus, o que é isso? O que esse homem está fazendo aqui em casa?" Ele caminha pela cozinha em direção à varanda. Próximo ao tanque e com os pés descalços no chão de terra, ele começa a conversar com outro homem. De onde veio essa gente? O que estão fazendo aqui em casa? De repente, ouço um grito. É a Débora. Saio em disparada em direção ao quarto, mas identifico que o grito dela veio do banheiro social. Quando a encontro, ela está com as mãos no rosto, assustada. Olho para os armários. São de madeira rústica, e não do tal MDP que compramos. Algo me preocupa. Seriam pedreiros estes homens? O curioso é que eu não me lembro de tê-los chamado para trabalhar aqui em casa... Corro então para o outro banheiro, que agora me parece maior que antes. Há ventiladores e globos luminosos por toda parte, que tornam o ambiente parecido com uma boate. Sinto a mão da Débora tocar em um de meus ombros e o seu rosto encostando no outro. “Ficou lindo!”, diz ela, demonstrando estar satisfeita com que vê. Logo em seguida ela liga os ventiladores e as luzes e começa a dançar. Eu fico admirando a beleza e a alegria de minha esposa...
Num piscar de olhos, estamos na esquina da rua Maranhão com a rua Sergipe, próximo à escola Adolfo Alfeu Ferrero. A mamãe está conosco. Ela nos comunica a notícia da morte da Alba Marcon e da Giovana de Brito. Meu coração parece parar. “Meu Deus, mas ontem mesmo nós estávamos com elas e a minha irmã naquele barzinho na rua Sergipe, próximo à casa de vovó!” A vida então começa a parecer um filme sem um final feliz. A saliva parece secar. Fecho os olhos, levo as mãos ao rosto e já me sinto em outro lugar. Parece-me a casa do colega Fernando “Pé Sujo”. Há muitas pessoas aqui, algumas da USP de Ribeirão Preto, que não são colegas do “Pé Sujo”. É uma situação muito estranha. De repente, surge o Betão, um grande colega que muito me ajudou no doutorado. Ele me parece mais jovem com os cabelos cacheados caindo-lhe pela testa. Este fato me deixa muito curioso, pois quando o conheci, ele era quase careca... “Que dia é hoje, Betão?” Alegre, ele se dirige a um canto e pega um pedaço de jornal que está no chão. “Hoje é 08/08/2004.” Lanço então um olhar perdido para um canto da varanda, assustado. Será que voltei no tempo? Será que estou em outra época? Sigo então em direção ao portão. Na calçada, encontro o Paulão, que trabalha no Studio Vilas Boas. Ele traja um terno preto e gravata, o mesmo que vestiu no dia em que eu e a Débora nos casamos. Entretanto, ele está mais cabeludo e muito mais magro. Lembro-me então de que estou no passado. Dirijo-me a ele e o abraço. “Ei, Paulão! Você precisa se cuidar, meu velho, senão vai engordar!”, digo a ele, como se já soubesse como ele seria no futuro. Caminho então pela rua Santa Catarina, em direção ao Cascata. Bem no final da rua encontro o seu Geraldo, antigo funcionário do clube da Baixada, onde tanto me divertia quando era adolescente. Fico assustado, pois ele faleceu há algum tempo. Ele percebe que estou assustado, mas mesmo assim se aproxima e toca a mão no meu ombro. “Seu Geraldo, o que está acontecendo?” Ele sorri e passa a mão pelo bigode branco. “Tonho, você está voltando no passado”, diz ele, com tentando me passar segurança. “Mas... seu Geraldo, eu não me lembro de ter vivido este momento!” Ele toma fôlego. “Sim, você viveu, sim, e este foi um dia que mudou a sua vida. Tanto este como aquele em que as suas primas faleceram.” Ainda sem me lembrar de ter vivido esses momentos e sabendo que minhas primas estão bem e com saúde, lanço-lhe uma pergunta definitiva: “Mas por que está acontecendo isso? Por que estou voltando no passado, a esses momentos?” A resposta dele também é definitiva. “Porque você está vivendo os últimos dias de sua vida.” Saio então chorando, desesperado. Meu Deus, não terei tempo de ser pai! Não poderei envelhecer ao lado da Débora... E minha família, como contarei isso a eles? Sugo novamente a rua Santa Catarina e viro na primeira esquina à direita. Fico chorando, sentado embaixo de uma árvore. Minha irmã aparece e fica preocupada quando me vê chorando. “Meu irmão, o que está acontecendo? Por que você está chorando?” Eu me levanto e a abraço. “Minha irmã, desculpe-me por não tê-la amado como você gostaria e como você merecia. Desculpe-me, por favor!” Ela não entende o que está acontecendo. “Mas... Dado, o que foi? Me conta!” Eu me limito a abraçá-la e a chorar com a cabeça apoiada sobre seu ombro.” Eis que sinto uma mão tocando o meu rosto. “Du, tá tudo bem? O que foi?” Aquela voz aveludada me parece familiar. Abro os olhos e vejo a Débora, deitada ao meu lado. Eu a abraço, ainda com lágrimas nos olhos. Tudo não passou de um sonho.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O que está acontecendo?

Domingo, 3 de agosto. São 9h da noite. Estou no sofá de casa, ao lado da Débora. Não é o sofá de couro da casa do papai e da mamãe. É o sofá da “nossa” casa. Estamos jantando, assistindo ao Pânico da TV!, programa que outrora tanto criticávamos e que agora nos atrai a atenção. Sim, muitas coisas novas estão acontecendo. Estou casado. Tenho por esposa uma mulher linda, inteligente, simpática e por quem sou apaixonado desde o primeiro olhar. Moramos na casa que sonhamos, para a qual dedicamos os últimos cinco anos de nossas vidas. Estamos sentados no sofá que tanto cobiçamos na vitrine das lojas. Estou empregado, ela também. Nossas contas estão em dia. Nossos pais estão saudáveis. Estamos apaixonados. Tudo está perfeito. Olho para a televisão. De repente, tenho a impressão de que ela está se mexendo. Olho para os lados. Tudo está se mexendo, oscilando em torno de um ponto central. Não consigo fixar a visão. Peço que a Débora leve o prato de comida que acabei de devorar. Não quero que ela se desespere, acho que vou controlar isso. Não deve ser nada. Mas a sala toda parece que começa a girar também. Não, eu não bebi nada alcoólico. Aliás, eu nunca bebi nem fumei. Então eu me deito no sofá. Parece que estou em uma roda gigante. Sempre soube que o mundo dá voltas, mas jamais desejei dar voltas junto com ele. O que será isso, meu Deus? O que está acontecendo comigo?