quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O fim

Quarta-feira, 6 de agosto. São 6h da manhã. Um barulho ensurdecedor vindo do portão faz com que eu me levante, asusstado. Há alguém lá fora. A Débora ainda dorme ao meu lado, parece não ter ouvido nada. Preciso sair lá fora e verificar o que está acontecendo. Abro a porta que separa o corredor dos quartos e a sala e avisto o portão aberto. Assim que adentro a sala, um homem gordo e de cor negra cruza meu caminho. "Meu Deus, o que é isso? O que esse homem está fazendo aqui em casa?" Ele caminha pela cozinha em direção à varanda. Próximo ao tanque e com os pés descalços no chão de terra, ele começa a conversar com outro homem. De onde veio essa gente? O que estão fazendo aqui em casa? De repente, ouço um grito. É a Débora. Saio em disparada em direção ao quarto, mas identifico que o grito dela veio do banheiro social. Quando a encontro, ela está com as mãos no rosto, assustada. Olho para os armários. São de madeira rústica, e não do tal MDP que compramos. Algo me preocupa. Seriam pedreiros estes homens? O curioso é que eu não me lembro de tê-los chamado para trabalhar aqui em casa... Corro então para o outro banheiro, que agora me parece maior que antes. Há ventiladores e globos luminosos por toda parte, que tornam o ambiente parecido com uma boate. Sinto a mão da Débora tocar em um de meus ombros e o seu rosto encostando no outro. “Ficou lindo!”, diz ela, demonstrando estar satisfeita com que vê. Logo em seguida ela liga os ventiladores e as luzes e começa a dançar. Eu fico admirando a beleza e a alegria de minha esposa...
Num piscar de olhos, estamos na esquina da rua Maranhão com a rua Sergipe, próximo à escola Adolfo Alfeu Ferrero. A mamãe está conosco. Ela nos comunica a notícia da morte da Alba Marcon e da Giovana de Brito. Meu coração parece parar. “Meu Deus, mas ontem mesmo nós estávamos com elas e a minha irmã naquele barzinho na rua Sergipe, próximo à casa de vovó!” A vida então começa a parecer um filme sem um final feliz. A saliva parece secar. Fecho os olhos, levo as mãos ao rosto e já me sinto em outro lugar. Parece-me a casa do colega Fernando “Pé Sujo”. Há muitas pessoas aqui, algumas da USP de Ribeirão Preto, que não são colegas do “Pé Sujo”. É uma situação muito estranha. De repente, surge o Betão, um grande colega que muito me ajudou no doutorado. Ele me parece mais jovem com os cabelos cacheados caindo-lhe pela testa. Este fato me deixa muito curioso, pois quando o conheci, ele era quase careca... “Que dia é hoje, Betão?” Alegre, ele se dirige a um canto e pega um pedaço de jornal que está no chão. “Hoje é 08/08/2004.” Lanço então um olhar perdido para um canto da varanda, assustado. Será que voltei no tempo? Será que estou em outra época? Sigo então em direção ao portão. Na calçada, encontro o Paulão, que trabalha no Studio Vilas Boas. Ele traja um terno preto e gravata, o mesmo que vestiu no dia em que eu e a Débora nos casamos. Entretanto, ele está mais cabeludo e muito mais magro. Lembro-me então de que estou no passado. Dirijo-me a ele e o abraço. “Ei, Paulão! Você precisa se cuidar, meu velho, senão vai engordar!”, digo a ele, como se já soubesse como ele seria no futuro. Caminho então pela rua Santa Catarina, em direção ao Cascata. Bem no final da rua encontro o seu Geraldo, antigo funcionário do clube da Baixada, onde tanto me divertia quando era adolescente. Fico assustado, pois ele faleceu há algum tempo. Ele percebe que estou assustado, mas mesmo assim se aproxima e toca a mão no meu ombro. “Seu Geraldo, o que está acontecendo?” Ele sorri e passa a mão pelo bigode branco. “Tonho, você está voltando no passado”, diz ele, com tentando me passar segurança. “Mas... seu Geraldo, eu não me lembro de ter vivido este momento!” Ele toma fôlego. “Sim, você viveu, sim, e este foi um dia que mudou a sua vida. Tanto este como aquele em que as suas primas faleceram.” Ainda sem me lembrar de ter vivido esses momentos e sabendo que minhas primas estão bem e com saúde, lanço-lhe uma pergunta definitiva: “Mas por que está acontecendo isso? Por que estou voltando no passado, a esses momentos?” A resposta dele também é definitiva. “Porque você está vivendo os últimos dias de sua vida.” Saio então chorando, desesperado. Meu Deus, não terei tempo de ser pai! Não poderei envelhecer ao lado da Débora... E minha família, como contarei isso a eles? Sugo novamente a rua Santa Catarina e viro na primeira esquina à direita. Fico chorando, sentado embaixo de uma árvore. Minha irmã aparece e fica preocupada quando me vê chorando. “Meu irmão, o que está acontecendo? Por que você está chorando?” Eu me levanto e a abraço. “Minha irmã, desculpe-me por não tê-la amado como você gostaria e como você merecia. Desculpe-me, por favor!” Ela não entende o que está acontecendo. “Mas... Dado, o que foi? Me conta!” Eu me limito a abraçá-la e a chorar com a cabeça apoiada sobre seu ombro.” Eis que sinto uma mão tocando o meu rosto. “Du, tá tudo bem? O que foi?” Aquela voz aveludada me parece familiar. Abro os olhos e vejo a Débora, deitada ao meu lado. Eu a abraço, ainda com lágrimas nos olhos. Tudo não passou de um sonho.

Um comentário:

Alba Helena disse...

Oi Eduardo,

Estava pesquisando algumas coisas na internet e uma página leva à outra fazendo assim que eu chegasse à esta narrativa onde você cita meu nome numa triste (mas com final feliz) história. Primeiramente, felizmente foi só um sonho e comigo está tudo bem.

Não sabia que você escreve. Fiquei muito admirada com seu blog e de como você consegue se abrir e expor todos seus sentimentos para amigos e estranhos. Parabéns!

Por fim, quero de todo coração desejar meus sentimentos à você e toda sua família pelo falecimento do tio W. Crotti, seu avô. Meus pais me deram a notícia e desde então preciso muito ligar para Hérica para saber como ela está e matar um pouco a saudade.

No mais, espero que esteja tudo bem com você.
A gente se vê em alguma futura oportunidade que a vida proporcionar.
Beijos para a Débora.

Abs,
Albinha