sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Crônica 5 - Como destruir uma amizade em 5 segundos

Quando Almir ingressou no novo emprego, sua primeira iniciativa foi cultivar os colegas. Não era uma boa trabalhar em um lugar onde a harmonia não predominasse. Não foi difícil. Em pouco tempo o seu bom humor o tornara muito querido entre os funcionários do setor. Sempre sorridente, Almir recebeu de seus colegas a ajuda de que precisava para superar a inexperiência que tinha em suas novas atividades. Ninguém desconfiava que Almir só havia conseguido a vaga graças a um parente próximo que já trabalhava na empresa. Após três testes e um desempenho impecável nas provas teóricas, ele estava cansado de ver outras pessoas conseguindo a vaga que era sua por direito, então decidiu lutar com as mesmas armas.
Mas aquilo havia ficado para trás. Graças ao apoio dos colegas, Almir já sabia desempenhar quase todas as funções do setor. Durante o seu período de experiência, um dos colegas do setor dedicou-lhe especial atenção. Seu nome era Fausto. Mesmo sendo o encarregado do setor, Fausto via em Almir um grande potencial e aos poucos começou a admirar a sua força de vontade.
Após três anos na empresa, Almir passou a ser o funcionário mais requisitado. Já sabia fazer todas as atividades com muita competência e tinha a admiração de todos dentro do setor. Não raramente as pessoas que vinham ao setor chamavam diretamente por ele. Foi justamente isso que começou a despertar a inveja de Fausto. Embora ele fosse o superior imediato de Almir, este último passou a ser o símbolo do setor dentro da empresa. Aquilo feriu imensamente o ego de Fausto. A criatura tornara-se maior que o criador.
Fausto então começou a investir em seu marketing pessoal. Ele passou a fazer questão de recepcionar ele mesmo todas as pessoas que solicitavam os serviços do setor. “Pode deixar que EU faço”, dizia ele. Entretanto, todas as tarefas que ele prometia cumprir eram repassadas para Almir, que na condição de subordinado, cumpria todas elas sem pestanejar. “Almir, hoje você terá oportunidade de fazer algo novo. Será algo muito importante para a sua carreira aqui no setor. Escolhi você porque você é o melhor. Mas, claro, se você não quiser...” Muito humilde, Almir sempre dizia “sim”. Fausto agradecia e dizia a Almir que os outros setores ficariam sabendo que aquilo tinha sido feito por Almir. Este, obviamente, sentia-se todo motivado e parecia ter seu fôlego renovado a cada tarefa que Fausto lhe dava. “Deste jeito logo serei promovido. Pôxa vida, o Fausto é muito gente boa. Não dá nem pra acreditar...”
Certo dia, Almir entregou a Fausto a papelada referente a algumas questões delicadas que eram difíceis de serem resolverem. Estava tudo pronto e em ordem. Fausto colocou as mãos no ombro direito de Almir e emocionou-se. “Almir, você é o funcionário mais eficiente do setor. Todo mundo na empresa já sabe disso, inclusive até já pedi um aumento pra você.” Almir abraçou fervorosamente Fausto e saiu, sorridente. No meio do caminho, entretanto, lembrou-se de que deveria expor a Fausto toda a gratidão que tinha por ele. Quando deu meia volta, notou que Fausto estava repassando os papéis que ele havia lhe entregado para o encarregado do outro setor. Admirado com a qualidade e a eficiência do serviço, o encarregado estendeu a mão a Fausto e o cumprimentou. “Obrigado, senhor. Fui eu mesmo que fiz. Aliás, se tiver algum outro problema deste tipo, pode trazer pra mim que eu resolvo pra você bem rápido”. Escondido atrás da porta, Almir não conseguia acreditar no que acabara de ouvir. Revoltado, Almir decidiu colocar em prato limpo a situação que acabara de presenciar. Aproximou-se de Fausto e com expressão fechada, respirou fundo e preparou-se para falar. Foi então que Fausto lhe interrompeu: “Que bom que você apareceu! Eu acabei de entregar para o Nelson o trabalho que você fez. Ele ficou admirado com a sua eficiência. Ele pediu pra dar-lhe os parabéns.” Explodindo de ódio e decepção, Almir respirou fundo, engoliu seco, suou frio, pensou e no final disse, derrotado: “Obrigado. Você é mesmo um grande amigo”.
O ego e a inveja são os maiores inimigos de uma amizade verdadeira.

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