domingo, 21 de setembro de 2008

Recebendo uma visita muito especial

Junho de 2001. Estou em minha bancada tentando re-isolar algumas substâncias para realizar os experimentos que foram propostos no meu projeto de doutorado. Há poucas pessoas no laboratório, tudo está quieto. O silêncio só é quebrado pela música que toca no rádio do Sakamoto, que repousa na parte superior de minha bancada. Apesar de concentrado, posso perceber que há um rapaz próximo à porta do laboratório, com uma pasta na mão. Eu me lembro de tê-lo visto passando por ali umas duas ou três vezes. Deve estar esperando alguém. Percebo que o Diógenes, técnico aqui do laboratório, aproxima-se dele e o cumprimenta. “E aí, Vladimir, beleza?” Vladimir... Eu ouvira o professor João mencionar este nome outro dia. Disse-me que ele irá fazer doutorado com ele na área de ressonância magnética nuclear. Decido então levantar-me e ir dar-lhe as boas vindas, da mesma forma que a Ana Cláudia fez comigo quando cheguei aqui. “E aí, beleza? Meu nome é Miller. Sou aluno do prof. João. Você o está esperando?” A resposta, no entanto, não é a que eu esperava. Ele me olha com cara de quem está achando “E daí? O que é que eu tenho com isso?” Sem abrir nenhum sorriso, limita-se a dizer: “É, estou esperando o professor João pra falar com ele.” Mesmo sem sentir nenhuma receptividade nele, resolvo continuar a conversa. “Pois é... Acho que ele não está.” A resposta veio como duas pedras em uma vidraça. “É, eu já percebi.” Puta merda! Já percebi que não vou me dar muito bem com esse cara...

Outubro de 2003. O “Vlad” teve uma idéia brilhante: vamos entrar na sala do Tomaz e leva-lo para um canto, como se fôssemos dar uma surra nele. Essas brincadeiras se tornaram constantes desde que o Vlad veio para o laboratório. Sakamoto, Vlad e eu entramos silenciosamente na sala do Tomaz. Como sempre, ele está lendo um jornal, na parte de classificados. Caminhamos em linha na direção dele. Estamos com expressão séria. Ao nos ver, ele arregala os olhos. Quando chegamos a uns 20 cm dele, ele recolhe os braços e se protege com o jornal. “Olha que eu grito, hein?”, diz ele, acuado. Ouço apenas o Vlad recusar e sua gargalhada contagiante rompendo o silêncio. Já em um outro canto da sala, apoiado na bancada para não cair, sem forças de tanto rir, ouço o Vlad falando, quase sem fôlego: “Puta que pariu, Tomaz! Um negão desse tamanho falando que vai gritar? Pó, fala sério!”

10 de outubro de 2005. Débora e eu recebemos um convite para irmos almoçar na casa do Vladimir. Conhecemos sua família e ficamos maravilhados de vermos como são felizes. Percebi que ele ficou feliz com a visita. Disse a ele que quando tivermos nossa casa (sabe lá quando isso vai acontecer...), será um prazer enorme recebê-los.

21 de setembro de 2008. Após quase três anos de nossa visita à casa do Vlad, Débora e eu tivemos o prazer de receber ele e sua família em nossa casa. Eu não imaginava que era tão bom receber um amigo de verdade em casa. Assistimos ao DVD do casamento (afinal, ele e sua esposa foram nossos padrinhos) enquanto suas crianças brincavam de pique-esconde pela casa com meu sobrinho Gustavo. Hoje foi realmente um dia muito feliz, que merece ficar registrado para lembrar daqui a alguns anos.

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