sábado, 5 de dezembro de 2009

Fragmentos de minha infância - parte 15


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Quando me ouve dizer aquilo, o papai me olha com cara de bravo. Nunca vi ele me olhando desse jeito. Parece que está com ódio de mim. “Cala a boca, bunda suja!”. Ele nunca falou comigo desse jeito. O papai nunca falou comigo desse jeito! Mesmo assim, depois de falar isso, ele continua me olhando com cara de quem está com muita raiva. O homem continua conversando com ele ainda olha pra mim de vez em quando.
O papai e o homem que veio aqui pra ver o trator aos poucos vão se afastando. Fico parado no mesmo lugar, olhando para o chão. Acho que vou embora pra casa.
Sozinho, começo a caminhar pela estrada de terra. Ando um pouco e vejo o seu Dudu, nosso vizinho, passando de charrete. Ele ajeita seu chapéu de palha, dá uma tragada no cigarro e puxa as rédeas, fazendo a charrete parar. “Dadinho, vem cá!” Ele me chama e eu me aproximo da charrete. Então ele enfia a mão no bolso e tira dois saquinhos amarelos de fumo vazios. “Oba! Mais um pra coleção! Obrigado, seu Dudu!” Ele sabe que eu coleciono esses saquinhos. Gosto do cheiro e do barulhinho que o saquinho faz quando a gente aperta ele com as mãos. Também acho legal a foto do Luís Gonzaga que vem desenhada no meio de um quadrado amarelo do saquinho. Como o seu Dudu fuma muito, ele sempre guarda os saquinhos para mim.
O seu Dudu se ajeita na charrete, dá uma apertada na rédea e a égua começa a andar. “Seu Dudu, meu pai me chamou de bunda suja. Por quê? Eu não tenho a bunda suja!” Ele ri. “Seu pai deve ta nervoso, Dadinho. Deixa pra lá. Vai lá c’a sua mãe. Tchau!” Aos poucos a charrete dele vai ficando longe, até ele pegar a rodovia de terra e desaparecer.
Enquanto caminho pra casa, encontro um pedaço de corda de pano caído no chão. Está cheio de nós. “Nossa, uma corda! O papai gosta tanto de corda... Vou levar essa corda pra ele e deixar na frente de casa. Ele vai gostar! Aí eu digo que fui eu que achei e ele vai ficar menos bravo comigo...” Pego então a corda e vou andando arrastando ela pela estrada de terra.
Cruzo a estronca e chego em casa. Deixo a corda perto do banco, debaixo da árvore que faz sombra na porta da nossa casa. Procuro a mamãe. Ela está lavando roupa. Chego perto dela. “Ô, meu fiinho! Cê tai... E o papai, já acabou o negócio do trator?” Eu falo, triste. “Mamãe, o papai me chamou de bunda suja.” A mamãe ri. “Mas por que, fi?” Eu levanto os ombros e as mãos e faço cara de quem não sabe por quê.
Fico ali um tempão olhando a mamãe lavando roupa. A mamãe é muito corajosa. Tira água da cisterna e até tiro com a espingarda ela sabe dar. De vez em quando eu ajudo ela a tirar água da cisterna, mas tenho muito medo de cair lá dentro. Parece que é muito funda!
Ouço o barulho de um motor ligando. Não é o do trator. É o homem que está indo embora. Vejo então o homem abrindo a porteira e indo embora. Olho para o outro lado e vejo o papai vindo em minha direção com a corda nas mãos. Ele vem caminhando depressa e está com a corda enrolada na mão direita. Vou então correndo na direção dele. “Papai, o senhor viu a corda que eu achei?” Então ele me levanta pela orelha e caminha comigo em direção ao mato rasteiro perto de onde a mamãe está lavando roupa. Lá então ele me joga e eu caio deitado, chorando. “Bem do céu! O que cê vai fazê?”, grita a mamãe, agarrando no braço dele. “E você não entra no meio, não, porque senão vai sobrar pra você também!”
(continua...)

sábado, 14 de novembro de 2009

Fragmentos de minha infância - Parte 14


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Julho de 1981 É inverno aqui em Quirinópolis-GO. O quintal está cheio de folhas secas. Às vezes tenho a impressão de que todas as folhas das árvores estão espalhadas pelo chão. Mesmo aqui na roça, sinto falta da cor verde. A cor amarelada de seca só traz tristeza.
Por falar em tristeza, estou sentindo que o papai anda muito triste. Ontem, enquanto a gente almoçava, ouvi ele dizer pra mamãe algo que precisava vender o trator Valmet que a gente tem. Às vezes eu o vejo triste quando vou com ele a um lugar perto de um banco. Parece que ele vai lá pra tirar dinheiro emprestado pra poder plantar milho e pagar os “peões” que trabalham para ele. Ele sempre sai triste de lá, mas a coisa parece que é muito séria. Ouvi até ele dizendo que vamos ter que nos mudar daqui e que ele vai ter que voltar a trabalhar com caminhão de novo. O pior de tudo é que ele disse algo sobre um problema sério no motor do trator. Não entendi se ele arrumou ou se ainda vai arrumar o trator. Acho que isso só vai tornar ainda mais difícil encontrar alguém pra comprá-lo...
Estou brincando, sozinho como sempre, sob a sombra da enorme árvore que fica aqui em frente de casa. Daqui avisto uma caminhonete se aproximando. Corro e chamo o papai. “É o homem que veio comprar o trator”, diz ele, um pouco mais animado. O papai fala alguma coisa pra ele, que então desce da caminhonete. Caminhando ao lado do papai, ele segue em direção à enorme mangueira. É debaixo dela que o papai guarda o Valmet que ele quer vender. Sigo atrás dos dois, sem entender muito bem o que os dois estão falando.
Chegamos até o trator. Eu me posiciono ao lado do papai, que começa falando que está com o trator já há alguns anos e que nunca teve problema com o trator. Fico prestando atenção pra ver, pela primeira vez, o papai fazer “negócio”. O rapaz então pergunta como está o motor do trator. “O motor do trator está novo!”, diz o papai, para minha surpresa. “Espera aí: será que estou entendendo bem? O papai está mentindo pra vender o trator? Meu grande herói está mentindo pra passar o rapaz para trás? Não acredito!”, penso comigo, enquanto o rapaz balança a cabeça, aparentemente satisfeito. Então eu resolvo perguntar para o papai: “Uai, papai... Mas o senhor não tinha dito que o motor do trator estava fundido????”
(continua...)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Olhe à sua volta


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Nesta semana estive em um congresso em São Pedro, Estado de São Paulo. O congresso abordava temas diversificados relacionados à área de Química de Produtos Naturais, e contou com a presença de vários pesquisadores estrangeiros. Ficamos em um hotel fazenda, eu e mais três amigos.
Congressos geralmente são ótimas ocasiões para reflexão, porém volto abatido da maioria deles por sempre achar que jamais chegarei ao nível científico dos palestrantes. Não é uma situação muito fácil de lidar, eu confesso. Porém, em um dos intervalos das palestras, eu e um de meus amigos resolvemos jogar tênis de mesa. Ele me dissera que fora campeão, e eu também. Mas isso faz 19 anos!
Começamos então a bater bola. Não foi preciso dizer que estava muito fora de forma – ou diria que desaprendi? Comecei então a me sentir velho, e a tristeza logo me ocorreu. Mas houve um momento que muito me marcou. Em uma de minhas cortadas, a bola foi longe (e sequer bateu na mesa...). Deixei a raquete sobre a mesa, apoiei os dois braços e, cansado, lamentei estar ficando velho. Eis então que olhei para uma mesa não muito longe de onde estávamos jogando e vi uma senhora cuidando de uma moça em uma cadeira de rodas. Era uma moça bonita, maquiada, porém com um olhar triste. Para conversar com sua suposta mãe, a moça utilizada uma placa que estava sobre a mesa. Ela não conseguia falar, apenas apontava com os dedos para cada letra e ia, letra por letra, construindo as frases. Seu olhar era triste e distante. Disseram-me durante o congresso que ela não nascera daquele jeito. Imagino que deve ter ocorrido algo muito grave pra ela ficar naquela condição.
Ao vê-la, senti-me mal agradecido por achar que estar envelhecendo é ruim. O corpo, naturalmente, já não responde como antes, mas continuo saudável e com todos os cinco sentidos perfeitos. Pra falar a verdade, estou até bem para alguém da minha idade. Respirei fundo, balancei a cabeça em sinal de positivo e, cheio de confiança, gritei para o meu amigo: “Vamos lá, manda essa bolinha aqui que eu vou te mostrar como joga tênis de mesa!”

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Amizades


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A adolescência é um período repleto de dúvidas. O adolescente não sabe exatamente quem é nem tampouco quem vai ser. Fui um adolescente muito introspectivo e tímido. Vivia pra estudar e tirar as boas notas que o papai (graças a Deus) exigia, e para jogar futebol que a mamãe (graças a Deus) permitia. Conhecia muitas pessoas, a maioria elas da escola ou do clube onde brincava. Na época eu as classificava em três categorias: amigos, colegas e aqueles que “eu não ia com a cara”. Era fácil.
Hoje em dia as coisas são muito mais complexas. Hoje sou adulto e vivo entre “seres sociais”. Hoje em dia não dá mais pra distinguir quem é verdadeiramente amigo ou quem é inimigo. Digo “inimigo” porque hoje em dia algumas pessoas aproximam-se e dão o ombro pra ouvir um desabafo seu, para logo em breve usar aquilo a favor dela e contra você. Como ser “social”, hoje tenho que conviver com essas pessoas sem saber quem elas são... É como caminhar sobre ovos o tempo todo.
Hoje em dia não dá mais pra confiar em ninguém. As pessoas parecem ser mais más que antes. E se você teima em confiar nelas, por favor, seja cauteloso.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

De volta ao trabalho

Os dias que sucederam minha passagem ao hospital foram particularmente especiais. Foram momentos incríveis e intensos ao lado de minha família. Visitei minha avó quase todos os dias que pude e fui à casa de meus pais praticamente todos os dias. Visitei também meu sogro e minha sogra, por quem também tenho muito carinho. Curti todos eles com muita intensidade.

Passado o período de agradecimento, minha nova rotina de trabalho está sendo muito intensa. Há três dias tenho ido dormir às 3h da manhã, assim como eu fazia na época de graduação. A diferença é que agora sou 13 anos mais velho...

Tenho bebido muita água e procurado manter a calma diante de tudo o que tenho a fazer. O equilíbrio entre trabalhar e viver é o verdadeiro segredo de se viver bem. E não se desesperar, porque no final das contas, tudo acaba dando certo. Mesmo sabendo disso, viver é uma grande aventura, não acham?

domingo, 4 de outubro de 2009

Repensando a vida

Há quinze dias, neste mesmo horário em que escrevo este post, eu estava internado com terrível cólica renal. A dor iniciou-se às 5h30min, quando virei-me na cama. A princípio achei que fosse uma daquelas dores na coluna que tanto me incomodam de vez em quando. Levantei-me e fiz todos os alongamentos que estou acostumado a fazer, mas a dor só parecia aumentar. Senti então meu estômago revirar, então comi um pedaço de bolo. Minha esposa, ao ouvir meus gemidos, acordou preocupada e prontamente identificou que eu estava sofrendo de cólica renal. Imediatamente ela providenciou um remédio para os rins com um copo de leite. Eu os ingeri, mas o estômago recusou. Após o vômito, não tive outra alternativa: fui para o hospital, onde permaneci até as 14h da segunda-feira tomando medicamento para a dor passar e muito soro.

Um dos remédios que me receitaram para tirar a dor deixou-me completamente tonto. Entre as poucas cenas que me vêem à cabeça, a que mais me desperta a atenção é a lembrança de minha esposa pacientemente insistindo para que eu comesse. Digo “insistir” porque eu começava a mastigar a comida que ela trazia com o garfo até mim e logo em adormecia, sem mesmo ter terminado de mastigar. Uma outra lembrança marcante foi a voz de minha avó chorando ao telefone. Aquilo partiu-me o coração.

Dizem que de todo acontecimento ruim, temos que tirar um aprendizado. Pois bem. Esta passagem pelo hospital ensinou-me várias coisas. A primeira delas é que preciso ingerir mais água. Sem ela os exercícios físicos são inúteis. Aprendi também que é nos momentos difíceis que o amor verdadeiro entre homem e mulher se revela. Minha esposa esteve ao meu lado durante toda a minha “estadia” no hospital e cuidou de mim com imensos carinho e atenção. Isso apenas confirma o que eu já sabia: ela é um presente de Deus.

Percebi também que eu preciso dar mais atenção à minha família. Na verdade, tenho uma família imensa, mas quando uso a palavra “família” estou me referindo aos que verdadeiramente se preocupam comigo. Assim como nós distinguimos os amigos dos colegas, precisamos diferenciar a família dos entes familiares. Durante muito tempo isso fiquei muito incomodado com esta diferença, e às vezes ainda sofria com isso. Após minha passagem pelo hospital, aprendi que não tenho que me entristecer pelos entes familiares que não ligam para mim, mas sim alegrar-me por ter uma família que realmente se importa comigo.

Por último, e não menos importante, aprendi que o trabalho não pode ser sempre colocado à frente de tudo. Por mais que eu goste de fazer o que eu faço e por mais prazer que isto me dê, o mais importante é a família. E digo isso sabendo que minha família de verdade é bem pequena, e que em função da idade de meus avós, muito em breve irá tornar-se menor ainda. Minhas prioridades, portanto, mudaram. Acho que aprendi a lição.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Verdade nua e crua

No último domingo assisti ao filme “Verdade nua e crua”. Trata-se de uma comédia romântica sobre o relacionamento entre homens e mulheres. Um dos protagonistas, interpretado por Gerard Butler, mais conhecido por seu papel de Rei Leônidas em “300”, é um homem que diz apenas sua verdade sobre as mulheres. Ele diz que homens jamais se apaixonarão pela simpatia das mulheres, e sim pela beleza de seus corpos. Sim, pois o que importa é a beleza física. A outra protagonista, obviamente uma mulher solteira à procura de seu “príncipe encantado”, conta com uma lista de requisitos que um homem deve ter para ser seu namorado. Em se tratando de uma comédia romântica, já deu pra sentir que os dois vão ficar juntos, mesmo sabendo que o outro é imperfeito. Tenho que admitir: o filme traz realmente algumas verdades contundentes. Homem e mulher, embora tenham direitos iguais perante a lei, estão se distanciando cada vez mais em seus objetivos. Não vou me iludir e dizer que “no meu tempo as coisas eram diferentes”. A questão é que a mulher alcançou independência financeira e agora tem condições de escolher as características que quiser em seu companheiro (e quem não tem?). O pobre coitado que pisar na bolsa, que se cuide! “A fila anda”, como elas costumam dizer. Por outro lado, os homens parecem amedrontados, cada vez mais ariscos. Temem cair em um compromisso sério. Talvez isso represente para eles perder a liberdade, ou melhor, ficar sob “liberdade assistida”. Procurar em um homem uma lista de atributos e definir se ele é a pessoa ideal é uma atitude um tanto cretina, pelo menos na minha opinião. Da mesma forma, olhar para uma mulher e nela enxergar apenas uma “fonte de sexo e de prazer” é um tanto que primitiva demais. Onde fica a paixão nessa história? Onde está a cumplicidade e a vontade de construir uma vida juntos? Só para estragar o prazer dos que vão assistir ao filme: no final, a protagonista pergunta para o protagonista por que ele está apaixonado por ela. Ele simplesmente responde: “Eu não faço a mínima idéia”. Muito simples: a paixão, aquele sentimento que faz o coração acelerar, as mãos ficarem suadas e os pensamentos ficarem confusos não pode ser racionalizado como uma equação matemática. Paixão é paixão. Eu garanto que o mundo seria um lugar melhor pra se viver se a paixão fosse vivida ao invés de ser explicada.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Carteira

Domingo, 13 de setembro. 9h da manhã. Estou saindo para levar a roupa para a mamãe lavar. Ou melhor, estou tentando sair... Viro o cesto cheio de roupa suja e deixo seu conteúdo cair dentro de um enorme saco plástico branco. É mais conveniente e discreto que andar pela rua com um enorme cesto de lixo repleto de roupas sujas dentro do carro. Quando abro a porta que dá acesso à escada, percebo que esqueci que preciso aparar as costeletas do papai. E lá vou reabrindo todas as portas em busca da tal maquina, que esqueci no banheiro.

9h15min. Estou parado em frente ao portão da casa de meus pais. Coloco o celular e a carteira em um bolso e a chave do carro no outro. Em uma das mãos seguro a máquina de cortar cabelo e na outra, o saco cheio de roupas sujas. Empurro o portão. Fácil de abrir, enjoado de se fechar, principalmente depois que minha mãe esqueceu de trava-lo e ele colidiu com a carroceria do caminhão do papai enquanto ele saía. O choque foi tão forte que o muro rachou-se. Chuto então o portão com o pé e o apoio para que ele não volte. Avisto então a mamãe sentada na cadeira de cordas azuis de plástico, forrada com o coxinilho amarelo que outrora forrara o banco do caminhão. Ela tem um beija-flor nas mãos. Um lindo beija-flor azul. Ela está triste porque o gato o abocanhou. “Eu vou matar aquele desgraçado!”, grita o papai enquanto lava o pára-lama do caminhão.

9h25min. O beija-flor se mexe. Parece querer voar. Papai diz que é uma fêmea que se dispôs a enfrentar o gato por causa de seus filhotes. Ele se irrita pela atitude do “bichano”. “É o instinto, papai. Não tem jeito”, digo-lhe, na tentativa de evitar uma “matança”. Mamãe pega então o beija-flor e segue em direção à mangueira. Ele bate as asas, mas parece sem forças. Temendo que ele caia, coloco minhas mãos logo abaixo das da mamãe. Eis que ele cai em minha mão, morto, com a língua para fora. “Era a extrema unção”, diz a mamãe.

9h30min. Papai está sentado no degrau da varanda. Pego o pente, conecto a máquina de aparar na tomada e começo o serviço. Aos poucos a espessa costeleta branca vai desaparecendo e meu pai vai ganhando uma aparência mais jovial. Aproveito para cortar os pêlos brancos que nascem nas sobrancelhas, nariz e ouvido. Às vezes tenho a impressão de estar cuidando de mim mesmo, de tão parecido que somos.

9h45min. Terminado o serviço e com o “cliente” satisfeito, começo a guardar as coisas para ir embora. Eis então que coloco a mão no bolso e sinto falta de minha carteira. “Puxa vida, será que ela caiu nas pedras?” Mamãe já solta um grito. “Nossa! Corre lá na rua! E se você deixou ela cair lá?” Quando viro em direção ao portão, a campainha toca. Há um carro parado em frente ao portão, e de seu interior vem uma música sertaneja. Torço a chave, rodo a maçaneta. O portão se abre e um rapaz aparentando entre 35 e 40 anos surge com uma carteira nas mãos. “Essa carteira é sua? Ela estava caída perto do carro, então eu vi e parei. Não mexi no dinheiro, está tudo aí.” Meu coração dispara. Todos os meus documentos estão ali! E se eu os perco? E se alguém mal intencionado retira as poucas notas que ali estão e joga os documentos fora, só pelo prazer de fazer o mal? Mas o homem que tenho diante de meus olhos é um dos exemplos de honestidade cada vez mais raros hoje em dia. Abro a carteira e nem sequer confiro o dinheiro. Retiro a nota mais alta que lá encontro e coloco em seu bolso. “Muito obrigado pela sua honestidade. Que Deus o abençoe!”. Ele se recusa. Parece ser crente e isso deve ir contra seus princípios. Mesmo assim, diante de tanta insistência, ele aceita e parece estar feliz pela sua ação. Na verdade, ele merecia todo o dinheiro que estava na carteira e mais um pouco. Agradeço a Deus, ainda um pouco assustado, por ter sido aquele homem que encontrou minha carteira. Respiro, enfim, aliviado por ainda existir pessoas honestas e boas neste mundo. Minha única forma de retribuir ao que aquele homem fez por mim é fazendo o mesmo pelas outras pessoas.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Cenas inesquecíveis do cinema - parte 2

“Rocky II – a revanche” contém uma das cenas que mais mexeu comigo em todo o cinema. Tentarei resumir a história para que você entenda por quê.

Rocky Balboa é para mim um dos personagens mais marcantes do cinema. O personagem ao que me refiro é o dos quatro primeiro filmes, em especial dos dois primeiros. Ele é um boxeador do subúrbio da Filadélfia, pobre, sem perspectivas de futuro, além de ser praticamente analfabeto. Seu único amigo, Polly, possui uma irmã desengonçada, chamada Adrian. Por achar que sua irmã é encalhada e feia, Polly acaba forçando a barra para que Polly namore Rocky. Os dois acabam se dando bem e se casam. Ao longo desta trajetória amorosa, que é apenas um pano de fundo, o campeão mundial dos peso-pesados, Apolo, está à procura de algum pugilista inexpressivo para demonstrar que é benevolente e que incentiva o boxe. Ao procurar no jornal chama a atenção o nome “Garanhão italiano”, o apelido que Rocky colocou em si mesmo. Rocky então é procurado para a luta e aceita. O que se presencia é uma verdadeira batalha nos ringues, da qual Apolo vence, mas por pontos. Sua reputação sai seriamente arranhada, pois todos acham que a luta foi arranjada. Ele quer revanche (é aí que começa a história de Rocky II). Rocky, por sua vez, saiu todo machucado da luta e quase perdeu um olho no conflito. Ao ser procurado por Apolo para a revanche, Rocky aceita, sem no entanto pedir a opinião de Adrian, sua esposa e seu grande amor. Ela teme que ele se machuque mais seriamente e diz o quanto ele é importante para ela. Rocky então passa a treinar sem motivação nenhuma, pois sabe que está treinando a contragosto de sua mulher. Seu treinador se irrita e diz que Apolo irá massacrá-lo, mas Rocky não demonstra vontade de treinar. Ele está realmente sem motivação.

Eis então que Adrian, que estava grávida, tem contrações e precisa ir para o hospital. O parto acontece, porém é prematuro, fazendo com que Adrian fique em coma durante vários dias. Rocky passa o tempo todo ao seu lado, como um bom marido. A luta passa a ser a menor de suas preocupações. O que ele mais quer nesse momento é ver sua esposa viva. Eis que após vários dias ela acorda, deixando Rocky aliviado. Ela pergunta se ele viu o bebê, ele diz que ainda não, pois queria vê-lo junto com ela. Ela então pega o bebê nos braços e eles debatem qual será o nome. Então ela o chama. “Quero que você faça algo por mim”. Ele se aproxima e ela sussurra em seus ouvidos: “Vença! Vença!” Começa então a tocar a música “Going fly now”, de Bill Conti. Em seguida surge Rocky fazendo flexões de braços, aquecendo-se para o seu treinamento.

Você deve estar se perguntando por que razão essa cena marcou-me tanto. Vejo nesta cena um exemplo de esposo, dedicado à esposa e à família. Na iminência de perder sua esposa, sua profissão deixou de ser prioridade para ele. Há a questão da honra e de manter a palavra, coisas que hoje em dia quase não se ouve mais falar. Há a questão da força de vontade para superar o grande desafio que está por vir. Há a vontade de vencer. São sentimentos que só um homem pode entender. Nesta cena minha identificação com o personagem é máxima. A sintonia com a cena é tamanha que me pego rangendo os dentes, como se estivesse torcendo por ele: “Isso, vai lá e acaba com ele!” E não importa quantas vezes eu assista ao início deste vídeo: fico sempre arrepiado, como se fosse a primeira vez.

Para assistir o vídeo, clique aqui. Preste atenção nos 5 s iniciais. Reparem na expressão de alívio de Rocky. Com o apoio de sua esposa, não há limites para ele!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Cenas inesquecíveis do cinema - parte 1

Nunca tivemos aparelho de vídeo cassete ou de DVD lá em casa. Ir à locadora, portanto, era algo que eu nunca fazia. Ao cinema, então, eu só fui aos 23 anos de idade, e assim mesmo de tanto o saudoso amigo Giovani insistir. Não sei se preciso dizer, mas fiquei encantado. Senti-me como uma criança descobrindo o mundo. O filme? Bem, era um tal de “De olhos bem fechados”, protagonizados pelo então casal Tom Cruise e Nicole Kidman. Na época o filme gerou polêmica em função de algumas cenas de nudez que apresentava. No entanto, uma das cenas deixou-me completamente abalado, mas para entende-la é preciso contar um pouco do filme.

No filme, Tom Cruise interpretava um médico cuja especialidade era clínica geral e que vivia em função do trabalho. Seu sucesso contrastava com o de sua mulher, uma artista plástica que acabara de ficar desempregada em função do fechamento da galeria de arte onde trabalhava. Os dois vão a uma festa oferecida em uma mansão por um dos pacientes ricos de Tom Cruise. Os dois acabam indo para cantos opostos da festa e em pouco tempo são assediados, ela por um homem galanteador mais velho, ele por duas belas modelos. No momento em que as modelos estão quase conseguindo seduzi-lo e leva-lo para um lugar mais íntimo, o dono da festa solicita sua presença no primeiro andar da mansão. Ao adentrar o quarto, ele se depara com uma prostituta nua, que desmaiou por ter feito uma combinação inadequada de drogas e álcool. Enquanto o médico interpretado por Tom Cruise faz o que pode para acordar a prostituta, sua esposa está completamente embriagada e se esquiva como pode dos encantos do homem mais velho, que a esta altura já é sua companhia de dança.

Já de volta às suas casas, a personagem de Nicole Kidman enrola um “baseado” e começa a fumá-lo. Desenrola-se então um dos diálogos que, na minha opinião, é um dos mais fortes de todo o cinema. Ela pergunta por que ele não transou com as modelos, ele responde que não tinha motivos, pois os dois eram casados, tinham uma filha e que ele a amava. Ela retruca e o coloca contra a parede, concluindo que ele queria transar com as modelos, mas não o fez por sua causa. Ele então pergunta o que o homem mais velho queria com ela. Ela responde que ele queria sexo. Ele responde que é compreensível. Ela se irrita e, inconformada, pergunta se ele não tem ciúmes. Ele responde que não, pois sabe que ela jamais o trairia. A personagem de Nicole Kidman começa então a rir, e o faz durante uns 15 segundos. Durante o tempo em que ri o espectador vai ficando de queixo caído, pensando: “Putz, ela o traiu!” O resto do filme é igualmente intrigante, mas não vou conta-lo para que quem ainda não o assistiu, possa verificar por si mesmo. Foi essa a primeira das cenas que mais me marcaram no cinema. Foi assim que despertei para a sétima arte.

sábado, 29 de agosto de 2009

O tempo

Os leitores deste blog devem achar que sou saudosista. Afinal, a maior parte dos posts relata minhas lembranças de fatos passados – o que, aliás, desmerece o nome que dei a este blog... – e deve traçar de mim um perfil triste e infeliz com o presente. É verdade que não sou muito bom para lidar com o passar dos anos, pois até hoje tenho valorizado mais as perdas que os ganhos. Pelo menos é isso que tenho mostrado nas minhas postagens, certo? Pois bem. Vou mostrar nesta postagem o que de bom o tempo tem me mostrado.

O tempo mostrou-me que eu segui o caminho certo quando optei pelos estudos. Muitos dos colegas com quem eu jogava futebol na adolescência deixaram de estudar e hoje trabalham feitos loucos e são mal remunerados por isso. Ao que parece eu estava certo eu ser um “nerd” (ou C.D.F., se preferir), em ser aquele aluno quieto e tímido que se sentava no fundo da sala. Meus colegas envolveram-se muito cedo com as mulheres e deixaram-se seduzir pelos seus encantos na época errada. Os anos se passaram e eu me convenci de que foi ótimo que as moças por quem me apaixonei na adolescência não terem correspondido.

O tempo mostrou-me que as amizades verdadeiras são verdadeiros tesouros. Posso dizer que conheço muitas pessoas, e que tenho consideração por várias delas, e por muitas também sou benquisto. Mas amigos de verdade, eu creio que não chegam a encher os dedos de uma mão.

O tempo mostrou-me que todo o meu esforço, paciência e abdicação valeram a pena. Na adolescência eu me sentia um “ninguém” quando via os rapazes de minha idade bem vestidos e perfumados, alguns deles em seus carros e motos, cercados por belas moças. Eu olhava para eles, de longe (sim, eu jamais quis ser como eles...), e dizia pra mim mesmo enquanto retornava para casa: “Calma, minha hora vai chegar”. Talvez as lembranças que tenho do passado sejam justamente isso: vontade de trilhar novamente um caminho que agora eu sei onde vai dar...

Mais recentemente, o tempo mostrou-me que nem sempre sabemos o que é melhor pra gente. Os que acompanham este blog sabem que em 2007 prestei um concurso para ser professor na USP. Passei o ano todo estudando feito um louco, mas fiquei em segundo lugar por 0,1 de diferença! Na época fiquei extremamente revoltado, cometendo inclusive a imbecilidade de enviar um e-mail para os membros da banca... Hoje eu reconheço que o cara que foi aprovado em primeiro lugar tinha realmente melhores condições que eu e mereceu a vaga. Não importa que eu tenha tirado melhor nota na prova teórica que ele; sua experiência no exterior fez com que ele tivesse o perfil mais adequado para a vaga. Além disso, ele estava voltando do exterior com sua esposa grávida, sem perspectiva alguma de emprego. A vaga, portanto, foi preenchida pela pessoa mais preparada e que mais merecia. Demorei muito pra reconhecer isso, mas hoje desabafo que hoje estou muito feliz e tranqüilo por vê-lo bem e satisfeito onde está.

O tempo fez também com que eu reconhecesse que as coisas acontecem sempre na hora certa. Tenho minhas crenças (em Deus ou em “forças superiores”, o que preferir) de que nossa passagem por este plano é pura e simplesmente uma oportunidade de evolução. Reconhecer, de alma limpa, que o tempo tem me mostrado que às vezes estou certo e que às vezes estou equivocado talvez seja um bom sinal de que estou evoluindo.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Rotina e monotonia

O número de pessoas que confundem rotina com monotonia é maior do que se pensa. Mas uma pessoa que faz sempre a mesma coisa todos os dias não necessariamente leva uma vida monótona. Na verdade, a sensação de monotonia que às vezes tanto incomoda está na forma de se olhar a situação. Muitos têm uma rotina agitadíssima e vivem apressados o dia todo, e mesmo assim acham suas vidas monótonas. O que fazer nesses casos?

Se há algo que eu aprecio nessa vida é uma boa rotina. Entenda por “boa rotina” aquela em que a gente faz diariamente sempre as mesmas coisas... boas! O segredo está em apreciar o que se faz, em tentar extrair o que de melhor há em cada situação.

Todos os dias tenho que enfrentar a estrada para trabalhar. Trata-se de uma vicinal, com pistas simples e asfalto repleto de buracos. Há pelo caminho inúmeros caminhões canavieiros e carvoeiros trafegando em baixa velocidade. Não raramente ouve-se no rádio ou nos jornais que algum carro colidiu com a traseira desses caminhões. Há também plantações de cana por todos os lados, bem como pequenas chácaras. Dos caminhos de terra que dão acesso à rodovia, sempre me deparo com motoristas que entram na pista, sempre à minha frente, e lá permanecem lentamente, forçando-me a frear. Para finalizar, passo diariamente quase uma hora e meia dentro do carro, o que não seria problema se minha coluna não pedisse socorro. Em outras palavras, é uma rotina e tanto.

Nesses últimos dias tenho ido e retornado do trabalho muito feliz. Não que algo maravilhoso tenha tornado o caminho mais belo ou menos perigoso. A diferença foi que eu comecei a olhar mais à minha volta, a reparar as belezas que surgem pelo caminho. Há ainda algumas pequenas propriedades que sobrevivem às margens da rodovia, e muitas delas me chamaram a atenção. Fiquei tão encantado que decidi parar às margens da rodovia para tirar algumas fotos com o celular. Quando cheguei no trabalho, meu amigo Rodrigo, com quem divido sala, estranhou minha satisfação. Percebi então o quanto sou privilegiado por poder apreciar diariamente paisagens tão lindas, que muitas vezes as lentes de um celular não podem capturar.

Não procure a felicidade o tempo todo, pois isso mostra o quanto você valoriza sua infelicidade. Dê ouvidos à felicidade que grita dentro de você e aproveite para curti-la. Você verá que sua vida e sua rotina não são tão ruins quanto às vezes parece ser.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Acorde!

A pergunta é simples: qual é a primeira coisa que você faz quando acorda?

Muitas respostas podem lhe vir à cabeça, mas muitas delas serão equivocadas. Escovar os dentes? Tomar café? Olhar na agenda para ver o que está programado para o seu dia? Abrir os olhos? Não, não, nada disso! A primeira coisa que fazemos quando acordamos – e por acordar entenda “sair do estado de sono” – é dar-se conta de que estamos vivos. Damos conta de que estamos respirando, e que o ar que entra em nossos pulmões segue para as células e nos mantêm ativos. Percebemos que essa simples constatação mostra que estamos conscientes e que conseguimos pensar – acredite: esse não é um privilégio de todos. Tente mexer os dedos do pé. Se conseguir, parabéns: muitos não os possuem e dariam tudo para senti-los novamente. Ao “espreguiçar”, seu corpo tenta alongar-se, preparar-se para ficar de pé. É o instinto natural de seu corpo pedindo por mais um dia.

Ora, você deve estar se perguntando por que é que estou escrevendo isso... Eu lhe respondo: cada pequeno instante de nossas vidas merece ser agradecido, principalmente os primeiros de cada manhã. Não reclame de estar saindo da cama para trabalhar, pois há milhões de pessoas desempregadas no mundo e que dormem debaixo de pontes e viadutos. Se você está lendo essas palavras “virtuais”, certamente você não é uma delas, então você faz parte de uma pequena parcela da população mundial que tem acesso à internet. E é justamente por ser tão privilegiado que você tem quase a obrigação de ter um bom dia e de tornar bom o dia de outras pessoas também. Pense nisso quando as coisas começarem a dar errado. Eu lhe asseguro que se você o fizer, você irá flagrar-se várias vezes rindo de sua própria raiva.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A questão do dízimo

Costumam dizer que futebol, religião e política são temas que não devem ser discutidos, principalmente com amigos, pois caso as opiniões difiram, a amizade pode ser seriamente prejudicada. Opiniões sobre estes temas devem simplesmente ser respeitadas. E ponto. Mesmo assim, decidi expor aqui a minha opinião sobre igrejas, religião, crenças e tudo o que estiver relacionado. Acho que neste caso não vou causar muita polêmica (pelo menos não com muitas pessoas...), pois há tempos poucos são os que lêem esse blog.

Fui batizado na igreja católica, e lá fui crismado e me casei, mas já na época de meu casamento fazia um bom tempo que eu havia deixado de frequenta-la. O motivo é simples: cansei de ouvir o padre dando sermões para que nós comprássemos (e vendêssemos) rifas para a reforma do salão paroquial. Também não pago dízimo. Jamais paguei e espero que nunca "precise" pagar. O dinheiro que ganho é suado e muito valioso pra passar para as mãos de pessoas que não dão garantias de que ele será empregado para o bem de um grande número de pessoas. Os que discordam disso têm sempre a mesma justificativa: “O dízimo está na bíblia”. E, de fato, está mesmo. A questão é que a bíblia nada mais é que uma reunião de alguns textos, inspirados por Deus (ou não?) que foram selecionados dentre vários outros por alguma razão. Dizem que foi um rei pagão que solicitou a confecção da bíblia para redimir-se de seus pecados. Então por que acreditar que tudo o que lá está escrito é realmente vontade de Deus? Será que aqueles textos que lá estão não foram escolhidos a dedo dentre tantos outros pra refletir a vontade de um homem, escondendo-se atrás do nome de Deus? Afinal, para mim é muito estranho acreditar que Deus é o Papai Noel raivoso e mau-humorado, disposto a nos punir caso não sigamos sua vontade, que lá está descrito. Também parece contráditório o fato de Deus ter oferecido o livre arbítrio e, mesmo assim, punir-nos por algo errado. Se o errado é contra a vontade de Deus, então não temos livre arbítrio, certo?

O fato de ter deixado de freqüentar a igreja incomoda muito meus pais e meus avós. - e , às vezes, até a mim. Dizem que não acredito mais em Deus. De fato, não acredito mais no Deus que a igreja prega. A verdade é que esta situação gerou em mim sentimentos de culpa e inquietude enorme,s o que acabou me motivando a procurar bibliografias complementares para saber um pouco mais se eu realmente preciso ir à igreja para encontrar-me com Deus.

No livro “Operação Cavalo de Tróia”, há um trecho interessante que diz que não há intermediários entre Deus e o homem. Em outras palavras, não é preciso ir à igreja; basta procurar em seu coração. Diz ainda que mais vale procurar Deus em si mesmo que freqüentar cultos religiosos repetitivos, onde Deus é louvado de forma quase mecânica. Isso significa que se você que realmente encontrar-se com Deus, a igreja é praticamente desnecessária, uma vez que é uma instituição criada por homens. Por outro lado, a igreja é indispensável para aqueles que são pessoas más, desumanas, desonestas e inescrupulosas, pois lá elas se sentem “santas”, limpas de seus pecados. Após o perdão e a eucaristia, estão prontas para começar tudo errado de novo. Que hipocrisia! Qual é o sentido disso tudo? Será que Deus fica apenas na igreja? Ou será que O trazemos conosco o tempo todo?

Como disse, religião é uma questão delicada. Tenho o meu ponto de vista, e independente de estar certo ou não, ou mesmo de não ser um exemplo a ser seguido, nos últimos 10 anos tenho tido a concepção de Deus-comigo. Não sou contra ninguém freqüentar igrejas e esvaziar suas carteiras na esperança de estarem encontrando salvação ou de estarem fazendo um “acordo” com Deus para obterem sucesso. Eu simplesmente me recuso a ser manipulado desta forma. Daqui a alguns dias as igrejas vão usar máquinas de cartões de crédito na hora de coletar o dízimo. Certamente isso facilitará que os fiéis parcelem sua salvação, como se fazia na Idade Média. A tecnologia avançou muito desde lá, mas a ignorância parece ainda existir. Que Deuss perdoe aqueles que não entenderam até hoje qual é Sua verdadeira vontade.

sábado, 15 de agosto de 2009

Cinco coisas que me irritam muito

Não sei quem foi que iniciou esta brincadeira. Sei apenas que o amigo Eudes, do Rapadura Açucarada, repassou-a a mim, e para não deixar que ela morra, vou descrever aqui cinco coisas que me irritam e que me tiram do sério. Ouso dizer que é quase uma lista de cinco pecados capitais.

1 – Arrogância. Essa infeliz característica constante no comportamento de um número cada vez maior de pessoas merece encabeçar a lista de coisas que me tiram do sério. Não é fácil lidar com pessoas que se acham melhores que as outras. Meu sangue ferve quando estou diante de uma pessoa que “come chuchu e arrota peru”, que se acha melhor que outras. É claro que existem pessoas que são mais bem capacitadas em determinadas áreas que outras pessoas, e é nelas que a humildade deveria surgir. O que aparece, no entanto, são pessoas que se acham donas da situação, que se acham no direito de pisar em outras por saberem mais ou por ocuparem alguma posição de respeito. O pior é que algumas são arrogantes sem nem isso ter. São aquelas que “sobem em um sabugo pra fazer discurso”. Essas pessoas me enojam!

2 – Motorista folgado. Uma das coisas que mais odeio é motorista folgado. Acho que por detestar tanto esse tipo de motorista é que eu sou constantemente uma de suas vítimas. Às vezes estou com um pouco de pressa, atrasado ou em cima da hora. Eis que ao me aproximar da esquina surge algum veículo que a dobra e entra no meu caminho, logo à minha frente. O problema não é o fato de um veículo entrar na minha frente. O que me irrita é que o motorista filho da mãe não teve paciência de esperar eu passar por estar com pressa. Pelo contrário: sua pressa foi apenas até o momento de entrar no meu caminho. Depois sua velocidade diminui e mais parece estar dormindo ao volante. Às vezes fico imaginando se esse tipo de motorista é mais sarcástico que folgado, ou se seria uma conspiração do universo pra me tirar do sério.Basta um deles surgir e lá se vai toda a minha cota de paciência diária.

3 – Falsidade. Você já teve algum colega por quem tinha consideração, que considerava um grande amigo e depois descobriu que o filho da mãe falava mal de você pelas costas? Eu já tive vários! Essas pessoas são um perigo, pois muitas vezes aproveitam momentos oportunos para incentivar-lhe a criticar alguém, e depois acabam usando a “novidade” contra você. Eu simplesmente risco essas pessoas da minha lista, pois são muito perigosas. Por não tolerar falsidade, eu não apenas risco essas pessoas do meu círculo como apenas faço o possível para me manter distante delas.

4 – Hipocrisia. Existe um grande número de pessoas que anda por aí batendo no peito e se gabando de fazer e acontecer. Olha para o mundo e critica tudo e todos, como se estivesse acima de qualquer fraqueza. Eis que dias depois o hipócrita está fazendo o que há pouco criticava. Quer um exemplo? Há alguns anos atrás conheci uma moça que dizia que estava sozinha porque era muito seletiva. Segundo ela, pra ficar com ela o rapaz deveria ser romântico, do tipo que abre portas, faz poesia e entrega flores. Na mesma noite, ela se embrigou e dormiu com um colega meu. Pessoas deste tipo não merecem respeito.

5 – Pessoa folgada. É aquele tipo de pessoa que faz corpo mole na esperança de que você faça por elas o que é dever delas. Não é uma pessoa preguiçosa (que também é de matar!), pois a preguiçosa, cedo ou tarde, acaba fazendo ou acaba não fazendo. A folgada quer que você faça por ela! É da mesma laia daquele que fura fila.

Bônus: 6 - Pessoa que coloca nos outros a culpa pelos seus problemas. É aquele tipo de pessoa que se acha vítima da vida. A culpa por seus problemas nunca é dela, e sim dos outros. Vive se comparando aos outros pra justificar suas derrotas. Por que não assumem seus erros e correm atrás do prejuízo? “Ó vida, ó azar!”

Eudes, valeu pela indicação! Demorei, mas estou repassando a brincadeira para os colegas abaixo (quero ver se ficam irritados também...):

Ora bolas, mas que diabos!

Lesados em geral

Conhecimento dinâmico

Blog da Graziela

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O fio na tomada

Aos 13 anos eu era apenas um menino. Ainda mantinha atrás da casa, no velho monte de areia que com o tempo foi espalhado pelas chuvas, meus caminhões e tratores de brinquedo. Não pensava em meninas nem me preocupava com o que seria do meu futuro. Embora tivesse dois grandes amigos – o Gordo e o Tião – dificilmente algum deles ia brincar comigo lá em casa. Logo, quando estava em casa e não estava fazendo tarefa, eu passava a maior parte do tempo ouvindo rádio. Era um rádio toca-fitas da Phillips que a mamãe havia comprado com o um dinheiro que eu tinha na caderneta de poupança. Acho que ela deve ter se cansado de me ver deitado na cama dela ouvindo músicas em seu rádio-relógio. Com a aquisição desse rádio, passei a me interessar por músicas internacionais de vários cantores e bandas. Havia algumas delas que me despertavam a atenção de tal forma que eu passava a boa parte do tempo esperando que elas tocassem pra que eu pudesse grava-las em fitas cassete. Passava horas esperando as músicas que eu queria, e algumas vezes cheguei a ligar para a Lidersom FM 89,5 pedindo a música “The way you are”, do Secret Service. Era uma música que sempre me fazia chorar, embora eu não saiba até hoje porquê.

Atualmente as coisas são muito mais fáceis. Se quiser uma música, basta entrar na internet e baixa-la. Caso não se lembre do nome, digite uma parte dela no Google e inúmeras possibilidades irão aparecer. Mas há algo que eu ainda não consegui encontrar, e que muita saudade me traz: a turma da Maré Mansa. Era um programa humorístico que passava à noite, na Rádio Globo AM do Rio de Janeiro. Uma das frases que não consigo esquecer era a de uma personagem chamada Perigola: “Desce o prego que o martelo chama!”. Havia também os Trapalhões e vários outros. Eu deixava o rádio bem baixinho e adormecia ao som deste humorístico – que provavelmente deixou de existir há anos. Quando acordava, encontrava o rádio desligado, com o fio fora da tomada; tinha sido retirado pela mamãe, que sempre acordava durante a madrugada pra ver se estava tudo bem comigo e com a minha irmã.

Hoje em dia adormeço, às vezes, com o rádio ligado. Não é mais um rádio Phillips nem tampouco foi comprado pela mamãe, com o dinheirinho que ela depositava na caderneta de poupança. Do rádio redondo, com desenho arrojado, que ganhei de presente de um aluno, ouço “On your shore” e outras músicas da Enya. Gosto de adormecer ouvindo músicas new age, abraçado à Débora e sentindo a presença de Deus. É uma sensação maravilhosa! Após 20 anos, a única diferença é que quando acordo, o rádio ainda está ligado. Não há ninguém para desligar fio da tomada. Sinto saudades da mamãe...

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Viagem

8h40min. Estou no carro, a caminho do trabalho. O ar está seco, não há vestígios da umidade que judiou das paredes lá de casa no início deste ano. Caminhões de cana transitam sobre a terra vermelha, tornando desesperadas as donas-de-casa das cidades vizinhas. Pelo asfalto recém-reformado transitam poucos carros. Ainda é horário de pouco movimento, mas em poucos minutos aumentará bastante.

Pelo retrovisor do carro ou pelo vidro lateral, a vida passa muito rápido. Sou homem adulto, trabalhador preocupado com as contas pra pagar. Sou casado, tenho esposa para cuidar – eu dela e ela, de mim. O sonho de ser pai foi adiado, e o que me cabe fazer agora é dedicar-me ao trabalho, já que o mesmo consome a maior parte do meu tempo. As preocupações só aumentam quando se torna um adulto. É por isso que eu jamais quis ser adulto, e é por isso que com 33 anos de idade, eu ainda não aprendi a lidar com a maldade das pessoas. Ingenuidade e inocência ainda me fazem sofrer, principalmente no ambiente de trabalho. Há ocasiões em que falo demais, que digo coisas que não devia. Mas há outras situações em que eu deveria pronunciar-me, lutar por meus direitos. Nessas eu ainda me calo. Meus sonhos, aqueles poucos que ainda preciso alcançar, estão cada vez mais pertos de se realizarem, mas eu ando sem forças para lutar por eles.

8h45min. Há uma descida à minha frente, e no final dela, uma ponte. Ao lado direito avisto uma pequena cabana, de cuja chaminé sai fumaça. O cheiro de café recém-coado espalha-se pelo ar e chega até mim. Respiro fundo. Já não sou mais o homem responsável. Sou uma criança de quatro anos, sentado no degrau da cozinha olhando meu pai e minha mãe tomarem café. Sobre a mesa estão os pães que ela fez. Papai pega o pão e a faca, e em poucos segundos recheia o pão com manteiga, mergulhando-o na xícara de leite logo em seguida. Os dois conversam; parecem cúmplices em algum projeto que eu não sei qual é. A imagem que se desenha dos dois iluminados pelo lampião à gás lembra muito uma cena de filme romântico, que eu viria a assistir décadas mais tarde. O cheiro de café... O cheiro de leite... Quero ficar aqui com eles para o resto de meus dias. Quero ser sempre o pequeno filho que eles tanto amam. Quero para sempre tirar as botinas depressa e correr para o sofá, sempre que a mamãe preparar mamadeira para mim. Quero ouvir “It’s a heartache”, da Bonnie Tyler, e chorar achando que sua voz está rouca porque ela também está chorando. Quero que a mamãe sempre prepare minha mamadeira quando eu disser “Mamãe, me dá leite?” Quero subir na pequena cerejeira e ficar orgulhoso por ter conseguido subir na “árvore mais alta do mundo”. Quero fazer meus esconderijos pelo enorme “terreiro” que temos no quintal de casa. Quero camuflar-me entre as bananeiras, quero brincar sozinho de soldado no buraco que fiz no chão. Quero repousar meus caminhões de brinquedo debaixo dos pequenos pés de mato que nascem pelo quintal. Quero estar aqui neste local solitário com os dois, não quero envelhecer.

8h47min. A poeira dos caminhões que cruzam a pista abafa o cheiro de café e sou arrastado novamente para a realidade. Sou novamente um homem indo trabalhar. Sou professor. Sou um homem honesto, bom filho, bom irmão e bom neto. Meus pais talvez tenham orgulho de quem eu me tornei. Mas a minha imagem sentada no degrau que separa a sala da cozinha não me sai da cabeça...