segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Fragmentos de minha infância - parte 13


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Às vezes eu me sinto muito sozinho, mesmo depois que minha irmã nasceu. Ela ainda é muito pequena, por isso não dá pra brincar com ela. O jeito é me virar. Enquanto a mamãe cuida da casa, lava roupa, tira água da cisterna ou troca as fraldas da “Fia”, eu fico passeando pelo quintal procurando alguma coisa pra me distrair. Às vezes brinco de “caminhãozinho”. É sempre divertido, pois sempre há matinhos espalhados pelo quintal e que podem fazer sombra nos meus carrinhos. Às vezes brinco com minha coleção de maços de cigarro e pacotes de fumo vazios que o seu Januário e o seu Dudu me dão de presente. Mas o que eu mais gosto de fazer é de esconder-me. Outro dia eu fiz um enorme buraco no meio das bananeiras. Ficou parecendo uma trincheira! Certa vez fiz um ‘cômodo’ entre quatro bananeiras que nasceram muito perto umas das outras. A mamãe não gostou muito, não. Ela me falou que a ‘nódea’ da bananeira mancha a roupa e depois não tem como tirar a mancha.
Pedi então para o papai fazer uma barraca de verdade pra mim. Uma barraca de lona preta! Ficou parecendo uma barraca de índio! Neste momento estou ajeitando as coisas aqui dentro para não molhar com a chuva. Papai está gritando pra eu ir para dentro de casa. Ele disse que a chuva está forte e que minha barraca não vai agüentar. Eu fico tranqüilo, pois sei que minha barraca é forte e não há nenhum buraco na lona. De repente, percebo a enxurrada forçando a lona acima dos pedaços de madeira que o papai usou para não deixar a lona presa ao chão. A enxurrada vai arrastando os pedaços de madeira e a lona. O chão da barraca, que estava seco agora há pouco, transforma-se em lama pura. “Vixi, minha barraca já era!” Abro a porta da barraca e saio correndo sob a chuva forte e gelada. Papai está me esperando na varanda, rindo. “Eu não te falei?”, diz ele, mais uma vez com razão. Eu espero, sinceramente, que ele se engane algum dia.

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