terça-feira, 13 de janeiro de 2009

À minha grande amiga - parte 4

Novembro de 1999. 10h10min. Mesmo com o exaustor ligado em velocidade máxima, um forte cheiro de solvente orgânico toma conta do laboratório. Apesar da dor de cabeça que este cheiro me causa, a maioria dos alunos diz que não sente nada e, por isso, ninguém usa máscara de proteção. “Mas Ana, esse cheiro não faz mal?”, pergunto à Ana Cláudia, que caminha à minha frente com um enorme tudo de vidro nas mãos, que ela chama de ‘coluna’. “Ah, Miller, bem não faz, não, mas a gente acabou se acostumando e nem sente mais.” Ainda perturbado com o cheiro, sigo a Ana Cláudia até a capela de exaustão. “Miller, vamos montar a coluna aqui na capela, pois você vai usar uma grande quantidade de solvente e isso pode não apenas te intoxicar, como também pode acabar contaminando todo o laboratório.” “Vixi, será que esse cheiro pode ficar ainda pior?”, pergunto em silêncio para mim mesmo. De pé ao lado dela, presto atenção em cada detalhe e em cada movimento de suas mãos, para que eu possa fazer sozinho da próxima vez. “Ana, não sei o que seria de mim se não fosse a sua ajuda”. “Amigos são pra essas coisas, Miller”, responde ela sem se distrair, como se ajudar-me e ensinar-me fosse uma necessidade para ela.

Dezembro de 1999. 10h30min. É fascinante ver como um extrato, que se parecia com uma gororoba verde, transformou-se em lindos cristais depois de passar por aquela coluna. Demorei quase uma semana para terminar o fracionamento, mas pelo que a Ana Cláudia acabou de me explicar, aquilo foi só pontapé inicial. “Agora nós vamos ter que fazer placas para ver quais dessas frações são iguais”, diz ela enquanto segue para a estufa. “Sempre que chegar ao laboratório, verifique se a estufa está ligada. Se não estiver, ligue-a. As placas que vamos usar precisam ficar aqui por 40 minutos. Se ela já estiver ligada quando a gente chegar, basta usar.” Não sei se aquilo era uma regra do laboratório ou mais uma de suas formas de ajudar os colegas de laboratório. Com uma luva de amianto, ela coloca cuidadosamente a placa de vidro recoberta por sílica, aquecida e devidamente ativada, sobre a bancada. Em seguida, faz alguns riscos com o lápis sobre a sílica, e com um capilar, toca a amostra. Parte da amostra passa para o capilar, e após tocar a sílica, passa para a sílica, formando uma pequena mancha. “Agora é a sua vez. Faça isso para as outras”, diz ela, retirando-se em silêncio para a sua bancada, enquanto eu dizia mais um de meus “Obrigado, Ana”.

10h35min. Aplicar essas frações está sendo bastante trabalhoso, pois ainda não tenho a prática que deveria ter. O som que predomina no laboratório é o do exaustor. Não ouço uma voz sequer. Todos os alunos estão em suas bancadas, mergulhados em seus projetos e imersos em seus problemas. Até agora a única pessoa que se dispôs a ajudar-me foi a Ana Cláudia. Entediado, avisto um rádio sobre a banca à minha frente. “Alguém sabe de quem é esse rádio?”, pergunto em voz alta. Nenhuma resposta me é dada. Coloco então o rádio sobre a minha bancada e sintonizo a Difusora FM, em 91,3 MHz. No rádio está tocando “Mambo no. 5”, uma música muito legal de um tal de Lou Bega. Aumento o som, para que ele possa vencer o barulho do exaustor e chegar até os ouvidos dos colegas. Ao ouvir a música, os alunos lançam-me um olhar de repreensão. Parecem irritados com a minha iniciativa. Quando penso em desligar o rádio, ouço uma voz familiar acompanhando a música. A little bit of Monica in my life, a little bit of Erica by my side...Olho então para trás e vejo, em sua bancada, a Ana Cláudia repetindo a letra da música e ensaiando passos de twist. “Aumenta, Miller! Eu adoro essa música!”, diz ela enquanto dança. E assim presencio, pela primeira vez, uma alegria autêntica quebrando o clima cinzento deste laboratório.

Outras lembranças de minha grande amiga: parte 1, parte 2, parte 3

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