domingo, 18 de janeiro de 2009

No ar, 13 anos depois

Junho de 1996. 14h30min. Ao vencer a porta de vidro temperado, avisto um longo corredor. No lado esquerdo do caminho, um banco, com dois rapazes sentados, mais velhos que eu. “Devem ser candidatos como eu”, concluo sem muito brilhantismo. “Pois não, do que você precisa?” A voz feminina vem de trás de um vidro. Paro, dou uns dois passos atrás e estaciono diante de uma mulher de pele clara e cabelos escuros, aparentando ter por volta de 30 anos. “Eu vim para uma entrevista”, respondo-lhe. “Ah, sim. Pode se sentar junto com os rapazes ali e aguardar a sua vez.” Peço licença e me sento ao lado deles. Apóio os cotovelos sobre os joelhos e fixo meu olhar para um ponto perdido do azulejo marrom, enquanto meus ouvidos permanecem atentos ao conteúdo do diálogo que se desenrola entre eles. “E aí, quanto será que eles pagam?”, pergunta um. “Não sei. Deve ser na faixa de R$300,00”, supõe o outro. “Então... Locutor deve ganhar mais, né?”, responde o outro. “É, eu acho que sim. Mas não tô nem ligando. Tô precisando trabalhar. Tô parado já faz quatro meses e tenho mulher e filhos pra tratar. Se não conseguir essa vaga aqui na rádio, a coisa vai começar a ficar feia lá em casa” Ao ouvir estas palavras, giro levemente a cabeça e fixo brevemente aquele homem de pele negra. Seus óculos e cabelos grisalhos sugerem tratar-se de um pai de família, e a expressão de seu rosto acusa um certo desespero. Não deve ser nada fácil ter uma família e estar desempregado. Por um instante, meu coração me impulsiona a ir embora, pois aquele homem certamente precisa mais deste emprego que eu. Mas... e se ele estiver mentindo? E se aquela conversa for apenas pra me distrair ou pra me fazer desistir? Bem, o melhor é não pensar nisso agora. Afinal, eu também estou precisando deste emprego. As coisas lá em casa estão ficando difíceis. Tia Ângela está pagando meu curso de Química, enquanto o papai está bancando o ônibus. Eu me sinto muito mal com isso, pois tenho 20 anos e ainda dependo da minha família. Prestei um concurso para carteiro no ano passado. Passei, fui à entrevista, mas até agora não fui chamado. No início deste ano, prestei um concurso para oficial de justiça. Havia mais de 15 mil candidatos. Estudei bastante, mas fiquei na 85ª. colocação. Havia apenas 10 vagas... Esta já é a minha terceira tentativa. Quantas outras ainda virão? Certamente desta vez vão dizer que o meu problema é a falta de experiência. Meu Deus, quando conseguirei meu primeiro emprego? Quando vou poder pagar eu mesmo as minhas contas?

Janeiro de 2009, Sábado, dia 17. 9h30min. Ao vencer a porta de vidro temperado, avisto um longo corredor. No lado esquerdo do caminho, um banco. Dou alguns passos e ouço uma voz feminina, que vem de trás de um vidro. Paro, dou uns dois passos atrás e estaciono diante de uma mulher de pele clara e cabelos claros, aparentando ter aproximadamente 20 anos. “Eu vim para uma entrevista”, respondo-lhe. Aquela cena me parece familiar. “Ah, sim. Pode seguir até o final do corredor. O repórter o está esperando.” Sigo suas instruções e em poucos segundos avisto, dentro de uma sala, um jovem repórter de 23 anos. Ao me ver, ele se levanta e vem em minha direção. “Bom dia, professor! Meu nome é Estevão. Fico feliz que você tenha aceito meu convite para falar um pouco de seu projeto em nossa rádio. Sente-se, por favor”, diz ele, puxando uma cadeira para mim. “É a primeira vez que você vem à nossa rádio?” Encho o pulmão de ar. Emocionado, sinto um nó na garganta quase me deixando sem voz. “Na verdade, não. Já estive aqui, há 13 anos atrás...”

2 comentários:

b disse...

Vou te deixar frases feitas:
Cada coisa no seu tempo.
Tudo tem seu tempo certo.
E etc...
Na verdade, deve haver, com certeza, tem um valor agregado na sua história pessoal por esses 13 anos.
Legal!
Gostei do blog.

b disse...

Eu agradeço seu comentário, gostei tanto quanto gostei do seu blog.
De verdade!
Continue!
E apareça sempre!