terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Um atrasado saudosista

Ainda me recordo do celular insistente tentando tirar-me da cama. De oito em oito minutos ele disparava, rompendo o silêncio do início das manhãs, e a cada oito minutos eu o abria, fazendo-o calar-se momentaneamente. Para sua sorte, eu não podia vencer. Precisava acordar-me, e o fazia após meu quarto duelo com ele. Fazia o sinal da cruz, ensaiava uma prece rápida, pedindo a Deus que me desse um bom dia. Em seguida, jogava os pés para fora da cama e me colocava cuidadosamente de pé. Com a coluna invariavelmente doendo, deslocava-me até o banheiro, em busca de um banho quente para aliviar as dores no dorso. Cerca de dez minutos depois eu me encontrava com a barba raspada, perfumado e devidamente vestido.

Atrasado como sempre, via-me forçado a tomar rapidamente uma xícara de leite com chocolate e a engolir dois pedaços do bolo que a Débora carinhosamente preparava para mim. Às vezes tinha tempo para degustar um ou dois pedaços de mortadela defumada, dobrada e recheada com requeijão. Obviamente estes dois pedaços me custavam um atraso ainda maior.

Mal o portão basculante se abria e eu já me encontrava na esquina, vencendo a enorme subida que me separava de meu destino. Embora tenha feito incontáveis vezes aquele trajeto, jamais tive a curiosidade de medir a distância que eu percorria. Sei apenas que gastava não mais que cinco minutos.

Já no meu destino, estacionava o carro sempre no mesmo lugar, à sombra de uma árvore. Em ritmo acelerado, fechava o carro e dirigia-me ao porta-malas, onde estavam minha maleta e meu jaleco branco, que ia vestindo enquanto corria em direção ao pequeno portão azul. Lembro-me do cheiro da grama alta, da caixa d’água vazando e da porta fechada. Mal ela se abria, por boa vontade de alguém, e eu entrava correndo por aquelas lajotas vermelhas. Sempre havia alguém me esperando à porta, mas a frase que eu ouvia era sempre a mesma: “Ei professor Eduardo, o senhor está atrasado!”

Deslocava-me, então, pelo enorme “pavilhão” de concreto cinza escuro, sem tempo para apreciar as ferragens pintadas de amarelo ou as paredes azuis. Não era preciso lembrar-me de qual sala eu deveria entrar, pois todas as outras estavam com as portas fechadas. Após reunir todos os alunos dentro da sala, a porta se fechava. Desejava “bom dia” aos alunos, puxava a cadeira, deixava a bolsa e o apagador sobre a mesa e me sentava. Em seguida, oferecia o apagador para quem quisesse apagar a lousa, enquanto minha voz ia se enrouquecendo de tanto gritar os nomes de cada um dos alunos durante a chamada.

Há quatro meses não me atraso mais. Meu jaleco e minha bolsa estão abandonados no porão, ainda guardando as lembranças de minhas últimas aulas no ensino médio. Sinto saudade daqueles jovens que sempre aguardavam por mim, muitas vezes esperando uma piada ou uma história. Eram tantos alunos... Eu os conhecia, um a um, e os chamava pelo nome. “Puxa, professor, o senhor sabe meu nome!”, diziam alguns, como se eu os fizesse sentir especiais. Talvez eles jamais saibam o quão especial eles faziam sentir-me.

Algumas de minhas lembranças como professor de ensino médio: 1 / 2 / 3 / 4 / 5 / 6 / 7 / 8 / 9 / 10 / 11 / 12 / 13 / 14 / 15 / 16 / 17

2 comentários:

Barbara disse...

migo blogueiro,
Estou passando aqui pra lhe avisar que seu blog foi contemplado com o selo do Prêmio Dardos, que é fraternalmente distribuído entre blogueiros do país.
Dê uma passada em meu blog para saber quais os procedimentos necessários para a retirada do selo.
Boa semana.

b disse...

Sua vida é rica.
Agradeça à vida por isso.