segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Como se fosse a primeira vez

Sábado, 21 de fevereiro. 18h. Estou em frente ao computador lendo os e-mails do dia. Débora está tomando banho. O único som que ouço é o das pás do ventilador de teto cortando o ar quente do escritório. Ouço então o som do interfone. Levanto-me rapidamente para abrir o portão. Viro a cadeira, projeto meu corpo e o coloco de pé rapidamente. Pego a chave, depositada sobre o braço do sofá da sala, e corro para o portão. Trata-se de uma visita muito aguardada, e por mais que eu tenha esperado por este momento, sei que minha visita não pode aguardar.

Abro o portão, e antes que ele faça todo o seu percurso, abraço e beijo a figura que me esperava de pé, com as mãos apoiadas no muro. Chamo-o para entrar, e enquanto caminhamos pela escada que nos separa da sala, eu o saúdo. Passo a mão pelo seu cabelo, ainda parcialmente molhado do banho, e o cheiro do xampu propaga-se pelo ar. Sua camisa conserva a maior parte dos botões fora de suas casas, deixando à mostra o peitoral peludo, já parcialmente esbranquiçado. As barras de suas calças chacoalham enquanto seus pés, calçados por chinelas Havaianas, vencem um a um os poucos e baixos degraus da escada. “Que bom que o senhor veio”, digo a ele, que sorri timidamente, olhando para o chão, mas seu esconder sua alegria e curiosidade de ver o que tenho para mostrar-lhe.

Ele se senta. Ligo o ventilador e peço que ele se sente enquanto eu corro para a cozinha para verificar a torta que está no forno, que a Débora preparou especialmente para ele. Ao constatar a cor amarela da torta, giro o botão do fogão e desligo o forno, dou meia-volta e retorno rapidamente à sala. Lá o encontro sentado, com as pernas cruzadas e com o antebraço atrás da nuca, mostrando estar se sentindo à vontade. “Aqui está bem fresco”, diz ele, olhando o ventilador de teto. Pego então os vários DVDs de western que comprei nas Lojas Americanas e peço que ele escolha. “Quero assistir ‘O dólar furado’. Esse filme é bom!”. Em poucos segundos um assobio típico de faroeste toma conta da sala. “Ah, essa música no cinema...” Olho para ele. Seus olhos estão brilhando. “Mas quando assisti a esse filme, era em preto e branco! Como é que eles coloriram?”. “Digitalmente”, respondo, na tentativa de evitar que a curiosidade o mate. Na tela, um tal de Giuliano Gemma mostra sua agilidade com um revólver, atirando em alvos distantes, como a caneca nas mãos de um oficial e uma frigideira nas mãos de outro. Ele ri. “Eita! Isso é que é filme!”, desabafa ele, encantado com o gênero spaghetti dos anos 60 que tanto o cativou na adolescência. Eis que surge Débora, perfumada, trajando calça jeans e blusa e brinco roxos “Que bom que o senhor veio. Tudo bem?”, diz Débora, oferecendo-lhe as mãos. “Oi”, responde ele, com um sorriso no rosto. Sem esticar a conversa, porém sem ser indelicado, ele devolve sua atenção para o filme. Em poucos minutos Débora retorna da cozinha com a torta de calabresa que preparou especialmente para ele. “Não posso, acabei de jantar”. “Experimente, só um pedacinho”, retruca ela. Como era de se esperar, os pedaços vão pouco a pouco sumindo do prato. "Hum... ficou bom, hein?" É sua forma de mostrar que gostou da torta e da hospitalidade.

19h40min. Na tela da televisão aparecem os créditos finais. “Coloca a cena do Django no cemitério, só um pouquinho”. Troco então o DVD e seleciono a cena a que ele está se referindo. Ao ver o personagem de Franco Nero com as mãos machucadas, atrás da lápide de sua esposa, tentando posicionar seu revólver para defender-se dos inimigos que vão pega-lo, ele posiciona seus cotovelos sobre seus joelhos, como se estivesse assistindo uma final de campeonato. A alegria parece ter retornado aos olhos daquele homem que tanto tem sofrido com problemas de saúde e com a desvalorização de seu serviço de caminhoneiro. Por alguns instantes, tenho a impressão de que ele retornou no tempo. Se não o conhecesse, diria, pelo seu entusiasmo, que estava assistindo ao filme pela primeira vez.

19h55min. A cena do cemitério termina com Django matando seus inimigos, mesmo com as mãos machucadas. Ele se levanta, despede-se de mim e da Débora. Sigo-o até o portão, novamente abraçado a ele. “Volte depois para assistir aos outros”. “Obrigado, meu filho”. Eu é que lhe sou grato pela visita, meu querido papai...

Um comentário:

b disse...

Que momento você proporcionou ao seu pai.
Muito bonito, isso de vc se ocupar em escolher filmes, e a Débora fazer a torta e tudo o mais - me emocionou.
Tive um pai e também acho que soube ser filha.
Digo a vc: aproveite a presença dele, dê mais momentos como esse e certamente vc estará com isso, enriquecendo a sua própria história.
Parabéns.