terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O pagador de promessas - parte 1

Quinta-feira, 15 de janeiro de 2009. Faz 12 anos que não percorro este caminho, e por tê-lo percorrido durante 13 anos consecutivos, as lembranças vão surgindo a cada quilômetro. Na primeira vez estávamos em um Fusca verde, fabricado em 1980. Recordo-me que eu e minha irmã brigávamos durante a viagem para ver quem ficava no pequeno espaço atrás do banco de passageiros. Eu ia dormindo praticamente a viagem inteira, e quando não o fazia, passava o tempo a admirar os morros que iam surgindo ao longo da rodovia. Desde criança admiro os morros e aquela névoa branca que geralmente cobre os seus cumes. As fotos mostram que percorremos este caminho pela primeira vez em 1985, quando o papai foi atropelado por uma Kombi e foi arremessado a metros, batendo a cabeça com força no chão. Ao deparar-se com a Kombi desgovernada e sem ter como evitar o acidente, ele gritara o nome de Nossa Senhora Aparecida. Foi realmente um milagre, não apenas por ele ter sobrevivido, mas também por jamais ter sentido qualquer dor na cabeça ou nas pernas. Foi então feita uma promessa de que nós viajaríamos todos os anos para agradecer à nossa padroeira pela proteção. E assim o fizemos, até 1997, quando o dinheiro ficou bastante escasso lá em casa.

Os anos se passaram e muitas coisas mudaram de lá pra cá. Já não sou mais um passageiro; sou o motorista. Conduzo o carro de meu avô Mila, e sob minha responsabilidade estão as vidas dele, da vovó Maria, da tia Ângela (que a todo tempo fica me alertando para não passar da velocidade máxima permitida...) e, claro, de minha querida esposa Débora. Nenhum passeio tem mais sentido se ela não estiver comigo.E é justamente por isso que não posso mais dormir. Comprei cinco sacos de amendoim “cri-cri”. Enquanto os mastigo o sono não me perturba. À nossa frente seguem papai, mamãe, minha irmã e Clarinha. Embora ele tome a dianteira, desta vez não é ele quem está viajando para pagar uma promessa...

10h25min. Estamos subindo a rampa que dá acesso à imagem de Nossa Senhora Aparecida. Dou alguns passos e sinto uma mão em meu ombro. Viro-me. Tia Ângel adeposita discretamente uma certa quantia de dinheiro em minhas mãos. “Eu fiz uma promessa para Nossa Senhora quando você foi prestar a prova de mestrado. É você que tem que pagá-la.” Mesmo desconhecendo a promessa, viro-me e sigo em direção à imagem. Enquanto caminho, um turbilhão de fatos toma conta de meus pensamentos. Quando avisto a imagem, só consigo pensar em uma única coisa: “Se não fosse Nossa Senhora, eu não teria ingressado no mestrado, não teria feito doutorado, não teria conseguido emprego, não teria construído minha casa, não teria me casado e provavelmente não estaríamos aqui hoje, pois não teríamos dinheiro”. A saliva passa roçando minha garganta, enquanto as lágrimas brotam sem que eu consiga conte-las. Realmente eu tenho muitos motivos para agradecer.

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