sábado, 7 de fevereiro de 2009

O pagador de promessas - parte 2

10h45min. Enquanto Débora está de mãos dadas com Clarinha, minha irmã e eu estamos nos preparando para pagarmos nossa promessa. Posicionamos as joelheiras, as delas sobre a calça, as minhas por debaixo delas. Avistamos então uma mulher que vem descendo pelo outro lado da passarela, de joelhos, rezando. Ela parece estar sem joelheiras. Minha irmã e eu entreolhamo-nos e nos sentimos envergonhados. Os primeiros dois metros de percurso dão idéia de que será uma tarefa mais fácil do que imaginávamos. Minha irmã arrasta os joelhos, enquanto eu os levanto. Tudo segue bem, até que sinto a joelheira escorregando. Sinto como se uma enorme bolha estivesse se formando em meus joelhos. Minha irmã parece mais forte, talvez por estar arrastando os joelhos. Olho para frente. Vejo Débora segurando Clara pelas mãos, debaixo de um guarda-sol. Parece incentivar-me, ao mesmo tempo em que compartilha de minha dor. Atrás de nós, papai parece subir rezando, como se estivesse pedindo à Nossa Senhora que Deus me desse forças para continuar. Eu e minha irmã estamos de mãos dadas. Alguns fiéis que sobem pela passarela ficam nos olham, e em voz baixa parecem desejar força. “Que Deus abençoe todos os que pagam suas promessas”, diz uma senhora.

11h05min. Faz 20 minutos que estamos subindo a passarela e não estamos sequer na metade. As nuvens subiram e o sol agora nos castiga. A cada toque de meus joelhos no chão, sinto que os mesmos estão em carne viva. A impressão que tenho é de que formou-se uma enorme bolha nos joelhos, e que ela acabou de estourar. “Meu filho, suas costas não estão doendo?”, pergunta o papai. “Não, a única dor que eu sinto são dos meus joelhos”, respondo, quase na forma de gemido. “Filho, você não quer tirar a mochila?”, pergunta a mamãe. “Não, mamãe. Ela representa uma carga extra pelos meus pecados.”

11h15min. Estamos nos aproximando de uma curva. Minha irmã pára. Seus joelhos começaram a doer. Eu gostaria muito de dizer que os meus não estão doendo, mas estaria mentindo se o fizesse. A jornada começa a ficar dramática.

11h20min. Já conseguimos avistar o fim do nosso trajeto. “Vamos, minha irmã, estamos chegando”, digo a ela, já sem forças. Olho para o céu e inicio em minhas orações um diálogo com Nossa Senhora Aparecida. Peço-lhe perdão pelos meus pecados e, em silêncio, começo a repetir um canto da novena de Nossa Senhora das Graças.

Ave, cheia de graças

Ave, cheia de amor

Salve, ó mãe de Jesus

A ti nosso canto e nosso louvor

11h30min. Após longos 45min, chegamos ao fim da passarela. Nossa promessa está paga. Meu pai segura-me pelas mãos, mas não consigo ficar de pé. Meus joelhos e minhas pernas estão bambos. Digo-lhe que está tudo bem, que preciso apenas ficar sentado por uns minutos. Olho então para trás e vejo o tamanho do nosso feito. O sol azul desenha um lindo contraste com a basílica. Só então eu me dou conta de que ainda tenho fé.

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