sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O portão

7h. O portão da garagem se levanta com um simples toque no controle remoto. Impaciente, assisto pelo retrovisor do carro ao seu lento movimento ascendente. Coloco os óculos escuros, engato a marcha à ré, e antes de soltar lentamente o pé da embreagem, aperto o botão do rádio. Enquanto manobro o carro, a velha fita cassete reproduz um som dançante, que emerge imponente dos alto-falantes da tampa traseira do carro. “Get up and dance, dance, the rythm is fresh”, diz o refrão da música, gravada por alguma banda da década de 90 cujo nome ainda não descobri. Com o carro no meio da rua, paro um instante e deixo-me levar pela música, para algum lugar do passado.

Estou vestindo camisa e calça jeans. A parte inferior da camisa está escondida por dentro da calça, assim como a Débora gosta. O cheiro de Uomini, que o papai trouxe da loja d’O Boticário de Quirinópolis-GO, toma conta do carro. Estou a caminho da casa da Débora. Quando me aproximo do centro da cidade, reduzo a velocidade e aumento o som do rádio. Ajeito os óculos e apóio o antebraço sobre a canaleta do vidro e faço cara de mau. Após três horas, a cena se repete, porém no sentido oposto. Estou voltando para casa. Mesmo sendo mais de meia noite, mamãe ouve o barulho do motor e acorda. Posso vê-la correndo por trás do enorme portão do terreno onde o papai guarda o caminhão. Em poucos segundos sua figura surge, de camisola e com o cabelo desarrumado. Estava dormindo, acordara apenas para abrir o portão para mim. Estaciono o carro debaixo da enorme mangueira, para que sua pintura não sofra com o sereno da madrugada. O quintal está escuro, como sempre, e a possibilidade de ter alguém me olhando me assusta. Espero então a mamãe e sigo abraçado a ela, para meu pequeno quarto. Em poucos instantes a porta da cozinha se fecha e eu estou a salvo. Antes de dormir, mamãe prepara um copo de leite com café, que eu tomo lentamente em minha caneca do Superman, enquanto ela se retira dizendo “Dorme com Deus, ‘fi’”.

O som de uma buzina parece-me trazer de volta ao presente. Só então dou-me conta de que estou com o carro parado no meio da rua. Faço uma manobra e o estaciono próximo à calçada, e ali fico parado por alguns instantes. A música ainda toca no rádio, mas meus ouvidos não mais parecem ouvi-la. É como se estivesse perdido em minhas lembranças. Então percebo que a cena do portão eletrônico vem se repetindo há nove meses, pelo menos duas vezes por dia, e por ter ela se tornado tão familiar, às vezes não me dou conta do seu verdadeiro significado. Já não é preciso que minha mãe saia no frio, na chuva ou no sereno para abrir o portão para mim. Hoje posso fazê-lo com um simples toque, mas sinto saudade daqueles tempos difíceis. Meu carro já não pernoita ao relento nem tampouco se suja com a poeira que caía das folhas da mangueira, mas nem por isso me esqueço das inúmeras vezes que minha mãe me ajudava a cobri-lo com a lona. Já não mais preciso retornar tarde da casa da Débora, pois hoje posso acordar ao lado dela. Cada época da vida tem o seu encanto, sua magia. Cada momento, por menor que nos pareça, deixa saudades. Então duas certezas tomam conta de mim. A primeira delas é que o tempo não volta atrás, por isso é imprescindível aproveitar cada pequeno instante de nossas vidas. A segunda é de que algum dia sentirei saudade de minha impaciência com este portão eletrônico.

Um comentário:

b disse...

Vejo aqui gratidão pelo tempo, passado ou presente.
E isso é muito bonito nas pessoas, mas, infelizmente, raro.