domingo, 22 de março de 2009

Rotina

Está cada vez mais difícil escrever para este blog, e não é por falta de assunto. Há muitas coisas que gostaria de expor aqui, mas ao longo destes quase quatro anos escrevendo neste espaço, aprendi que não devo escrever tudo o que penso ou que acontece comigo. Há, inclusive, algumas postagens que tive que apagar e deixa-las registradas apenas como rascunhos. A maioria delas continha assuntos de família, e para não polemizar ou me indispor com nenhum dos meus entes, decidi tira-las do ar. Para mim, isso é motivo de grande tristeza, pois sinto-me limitado em minhas palavras e naquilo que posso narrar aqui. Outro fator que me incomoda foi ter ouvido da boca de alguém que um pesquisador sério não deveria ter um blog. Eis aí a razão de você não encontrar o meu blog no Google. Diante de tudo isso, minha motivação para escrever é cada vez menor, e por conseqüência, o número de visitantes também.

Se ao saber disso você compartilha de minha indignação e entende a minha única forma de lidar com este blog, irei então contar algumas coisas sobre os últimos tempos.

Desde que abdiquei de meu cargo no ensino médio, minha rotina mudou muito. Tenho mais tempo para cuidar de mim, para curtir minha esposa, para ir à casa de meus pais e avós e tempo para assistir aos meus filmes. Joguei futebol uma única vez neste ano, e o fiz sem curar-me da contusão na panturilha. A aventura causou-me fortes dores na coluna e fez refletir sobre a possibilidade de abandonar de vez este esporte que tanto gosto. Confesso que já não me sinto tão empolgado como antigamente, talvez por haver uns dois ou três colegas na turma com quem eu não tenho a mínima identificação. Tenho que admitir que o problema talvez esteja em mim, talvez pela dificuldade em aceitar que não tenho mais 20 anos e que não consigo correr atrás de rapazes de 25 anos.

Sem as aulas no colégio, passei a me relacionar com um número menor de pessoas, sendo que quase todas elas estão em meu local de trabalho. Por outro lado, minha relação com elas tende a se intensificar cada vez mais, e isso pode ser muito positivo.

Apesar de toda a bagunça e do desinteresse que os alunos mostravam, sinto muita falta deles. Guardo muitas lembranças e tenho saudade de alguns momentos mágicos. Somente os bons me vêm à memória. É como se eu fizesse questão de esquecer os ruins...

Com a aprovação do meu projeto de pesquisa, vi a necessidade de me dedicar mais ao meu trabalho. Tenho trabalhado com muito afinco e estou muito otimista com relação aos resultados que posso obter. Durante os últimos dois anos as coisas andaram muito lentamente por causa do resultado do concurso de toda a crise existencial que dele se originou. Hoje tenho redefinido meus objetivos e me sinto motivado para chegar a um outro nível em minha carreira.

Após o meu casamento, tenho me aproximado mais de minha família, inclusive de minha irmã. Tenho a impressão de que o desejo de tornar-me pai fez com que eu entendesse meus pais e passasse a demonstrar mais o meu amor por eles.

Assim a vida segue. Amanhã é segunda-feira e minha rotina – cada vez mais rotineira – recomeça. Não há tédio nem monotonia, apenas rotina. E se há uma coisa que eu aprendi a admirar e que tem me tornado encantado desde o meu casamento é a rotina. E escrevo isso com a maior sinceridade que alguém pode expressar em um blog.

domingo, 15 de março de 2009

Lembranças da adolescência


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Domingo, 15 de março de 2007. Mais um dia nublado. Mais um dia repleto de recordações. Desta vez, porém, as lembranças vieram de uma forma inusitada. À noite, fui com Débora à casa de sua irmã, que é casada com Marcos, meu amigo de infância. Se não me falha a memória, foi ele a primeira pessoa a quem chamei de “amigo”. Como a casa dele fazia divisa com a da vovó Maria, era fácil encontra-lo quando eu vinha de Quirinópolis-GO. Foi ele o amigo com quem mais brinquei até os 12 ou 13 anos. Ao fechar os olhos, imagino-me sentado na “garupa” da bicicleta Gorike do vovô Milla, que coloca força nas pedaladas para chegarmos rápido à casa da vovó. Lá passava as tardes de sábado brincando com o Marquinhos (é assim que eu o chamava), e quando tudo dava certo, com Vanderlei (o “Maradona”), Claudinho, Ademar, Tiquinho e Vinicius. Sempre brincávamos de “golzinho” no meio da rua, ou de gol-de-cabeça. Neste caso, o gol sempre era o muro da casa do Claudinho, que não tinha tinta, portanto não tinha problema em receber boladas. Quando brincávamos de “betes” (uma espécie de beisebol adaptado), lembro-me da dificuldade que o Marquinho tinha de acertar a pequena bola. Logo ele rumava para dentro de sua casa e voltava com um novo “taco”, que mais parecia um tronco de árvore. Então ele não errava mais.Naquela época jamais passou pelos nossos pensamentos que nos tornaríamos concunhados. Hoje somos maduros. Amadurecemos. Estamos envelhecendo. Apesar de tudo o que mudou após estes anos, inclusive o fato de termos nos distanciado um pouco, dá pra perceber que há um mundo de lembranças que permanece vivo. Naquele mundo ainda sou um moleque querendo brincar, louco para chutar uma bola ou para bater com um cabo de vassoura em uma pequena bolinha. Naquele mundo sou apenas uma criança querendo brincar, que jamais imaginaria que amanhã é dia de trabalhar, de dar aulas em universidade e de escrever mais um artigo científico. Aquele mundo não é melhor que o que eu vivo hoje. É apenas diferente. E olhando as nuvens escuras que escondem as estrelas, tenho a certeza de que esta época de minha vida também será eterna em minhas lembranças.

domingo, 8 de março de 2009

Desenfreado

Quinta-feira, 5 de março. 8h35min. Estou ao volante, indo para o trabalho. À minha frente avisto a entrada para a rodovia que dá acesso à Franca. Com a mão esquerda, toco a haste próxima ao volante, fazendo as lanternas de seta sinalizarem para o lado esquerdo. A entrada não é reta, mas sim uma curva. Deixo então o carro ir para o dentro da pista e então vou virando lentamente a direção para o lado esquerdo. Com este movimento o carro parece puxado para o centro da curva; deve ser a tal força centrípeta. É assim que o papai fazia quando íamos de Quirinópolis-GO para o sítio Douradinho.

Ao entrar na curva, noto alguém à beira da estrada. É uma senhora com mais de 50 anos, acompanhada por uma criança de uns 3 ou 4 anos. Baixo então a guarda, e a despeito de tudo o que todos me dizem, decido parar e oferecer uma carona. “Posso fazer isso, mas não devo”, penso comigo, tentando encontrar uma justificativa para o que estou fazendo. Enquanto fico decidindo se paro ou se sigo em frente, vejo a senhora vindo em direção ao carro, puxando a menina pela mão. Ela vem sorrindo, aparentemente contente pela carona. “Eu e meu coração mole”, penso, esmurrando a direção. A senhora entra no carro, deixa a mala na parte da frente e se acomoda no banco de trás. Durante a viagem a senhora vai me contando que estava visitando seu filho, que sofreu acidente de moto. Ela diz que ele sofreu apenas ferimentos leves. Conta que um de seus filhos está nos Estados Unidos e que aquela neta é de uma de suas filhas, que é mãe solteira. Com os olhos na estrada e os ouvidos nas palavras daquela senhora, mal percebo que estou chegando ao meu destino. Sigo um pouco à frente, para que a senhora pudesse desembarcar próxima à sua casa. “Vá com Deus, meu filho. Que Deus o abençoe”. Eu agradeço e sigo para mais um dia de trabalho.

17h. Acabo de entrar na rodovia. Estou ansioso para chegar à academia e aliviar o estresse nadando e pegando alguns pesos. Há uma enorme descida à minha frente e um Corsa de cor vinho trafegando lentamente logo no final da descida. Sigo embalado com o carro, mas o maldito Corsa não acelera. Percebo então que há uma carreta vindo do outro lado da pista. “Putz, não vai dar pra ultrapassar”. Minha única alternativa é brecar. Pressiono então o pé no pedal do freio e, para meu desespero, sinto-o tocando o assoalho, sem que a velocidade tenha se reduzido. “Deus do céu!”, exclamo, já pisando na embreagem e reduzindo para a quarta marcha e, em seguida, para a terceira. E assim sigo a viagem, com muita cautela e na esperança de que nada de ruim aconteça no caminho para casa.

17h45min. O portão da garagem se fecha e eu desligo o carro. Lembro-me então das palavras da senhora a quem eu dei carona. “Vá com Deus, meu filho. Que Deus o abençoe”. De fato, hoje eu realmente não retornei sozinho p