domingo, 5 de abril de 2009

O veterano

Houve um tempo em que a solidão tomava conta de mim. Eu tinha a idade de um pré-adolescente, mas minhas idéias não coincidiam com as da maioria dos jovens de minha idade. Enquanto meus colegas passavam o tempo brincando pelas ruas de carrinho de “rolemã”, andando de bicicleta, subindo em árvores frutíferas ou mesmo brigando, eu permanecia em casa. O papai raramente ficava em casa conosco. Ele mesmo dizia pra gente que a casa dele era a cabine do caminhão. Havia a mamãe e a minha irmãzinha, mas mesmo assim eu sentia muito sozinho. Sabe aquela sensação horrível de estar perto de outras pessoas e, mesmo assim, sentir-se sozinho? Pois é, já naquela época eu sentia isso. Meus pensamentos eram tristes. Eu não pensava no futuro ou no que ia ser e tinha um medo enorme de perder meus pais e que eu ia morrer sem me tornar adulto.

Antes de sair para viajar de madrugada, o papai se levantava, tomava café com leite e açúcar e comia um pão com manteiga. Em seguida, ligava o caminhão e o deixava ligado para encher o tanque de ar. Voltava, então, para dentro de casa e escovava os dentes. Do quarto onde eu e minha dormíamos eu ouvia quando ele abria a torneira da pia do banheiro. Aquilo já indicava que ele estava prestes a nos deixar novamente. Poucos minutos depois a luz do quarto se acendia e ele vinha nos dar um beijo de despedida. Ainda me lembro do beijo molhado que ele nos dava, com cheirinho de pasta de dente. “Filho, o papai já vai”, dizia ele, com um tom de quem realmente partia por necessidade. Eu o abraçava e dizia: “Vai com Deus, papai”. O sono demorava a voltar. Eu ficava deitado sob as cobertas ouvindo o caminhão dele virando a esquina. Quando o som sumia, eu ficava rezando pra que Deus o iluminasse, e reforçava meus pedidos quando amanhecia. Mas ruim mesmo era quando ele saía durante o dia. Eu o via pelo retrovisor acenando para mim. O pára-barro traseiro sempre arrastava no chão, lembrando-me da série “Carga pesada”. O fato é que eu me sentia muito desprotegido na ausência dele. O muro de nossa casa era fácil de ser transposto, e por várias vezes eu ouvia passos que vinham de trás da casa. Anos mais tarde eu descobriria que eram do nosso coelho de estimação...

Certa vez, quando o papai viajou com o tio Wagner e o tio Agenor para Barreiras, na Bahia, eu achei que fosse a última viagem dele, pois era uma viagem muito longa. Passei vários dias sentado na calçada, olhando para o céu cinzento. Ficava lembrando da música “Stay on these roads”, do A-ha, que tocava em uma fita que a tia Vânia tinha comprado em Ribeirão Preto para mim, e chorava. Atrás de casa havia um monte de areia onde eu e o Alessandro brincávamos antes de sua mudança para alguma cidade do Estado de Goiás. Ali eu brincava de ser um caminhoneiro como o papai. Acho que não fazia isso porque queria ser um caminhoneiro, mas porque queria ser como o papai. Ele sempre foi o meu herói.

Quando o papai retornava, era uma alegria imensa! Era como se ele tivesse ido para a guerra e retornado vitorioso. Eu agradecia a Deus por ele ter retornado são e salvo, e o abraçava muitas e muitas vezes. Ele adorava quando chegava e encontrava a gente esperando por ele. A mamãe abria o portão e ele entrava com o caminhão, buzinando. Antes de desligar o motor, o papai dava uma pisadinha de leve no acelerador. A gente corria para abraçá-lo na cabine. Era como se quisesse nos receber ainda no banco do caminhão. Meu coração então ficava confortado, pelo menos até a próxima viagem.

Quando aquelas lembranças afloram, fecho os olhos e me deixo retornar àquela época. Posso sentir o cheiro da terra molhada pelos primeiros pingos de chuva enquanto eu permanecia na calçada. Lembro-me do cheiro do coxonilho amarelo que protegia o banco da cabine. Recordo-me do cheiro da camisa suada do papai. As lágrimas, então, brotam sem se importar com a minha idade atual. São lembranças de tempos que ficaram para trás há mais de duas décadas, mas que vêm à toa a cada vez que reencontro meu pai. Hoje, graças a Deus, ele é um veterano de guerra. Hoje o guerreiro sou eu.