sexta-feira, 29 de maio de 2009

Como um anjo

Havia algo estranho naquele lugar. Era como se ele, em outras ocasiões, já tivesse passado por ali. “Impossível”, pensou ele, tentando manter fixo o seu pensamento. Era uma linda manhã de primavera. Embora os raios de sol tentassem, em vão, sobrepujar as pesadas nuvens que cobriam o céu, ainda assim era uma manhã iluminada. Não havia ninguém naquela praça, a não ser ele. Imaginou já ter se sentado naquele banco outras vezes, mas novamente a possibilidade pareceu-lhe ridícula.

Mas o que estava ele fazendo ali? Estaria esperando por alguém? Mas como poderia ter marcado um encontro com uma pessoa sem lembrar-se quem era? Olhou para os lados, e por um instante sentiu a solidão tomando conta de seu espírito. Os únicos movimentos que ele conseguia distinguir eram os das asas das borboletas pousando nas flores coloridas do jardim. A grama, bem aparada, transmitia uma sensação de limpeza e de tranqüilidade. Mas seu espírito não estava tranqüilo. Afinal, ele mal se lembrava de como fora parar ali. Lembrava-se apenas de ter adormecido ao lado de sua amada, exausto após um longo dia de trabalho. Ocorreu-lhe que pudesse estar sonhando. Beliscou-se um milhão de vezes. Em vão.

Decidiu então sair daquele lugar. Projetou seu corpo à frente e levantou-se. Neste instante uma brisa suave acariciou-lhe o rosto. As copas verdes das árvores começaram a balançar. “Vai chover. Preciso ir embora”, pensou ele. Mas para onde ir se ele sequer sabia onde estava? Por mais que aquele lugar lhe parecesse familiar, ele sabia que estava perdido. Então para onde ir?

De repente, uma voz suave chegou aos seus ouvidos. Uma voz feminina. Era uma voz inicialmente fraca, que aos poucos foi se tornando mais intensa. Era como se alguém estivesse se aproximando. Virou-se e olhou para trás. “Deve ser minha imaginação”, recriminou-se pela terceira vez. Deu alguns passos em direção à calçada. Foi quando ouviu alguém gritando seu nome. Aquela voz lhe parecia familiar. Virou-se novamente para certificar-se, mas sua visão foi imediatamente ofuscada pela intensidade daquela luz. Conseguiu identificar apenas um contorno feminino, andando a passos largos em sua direção, com os braços abertos. “Amo você...”, dizia a voz. Subitamente a paz preencheu seu coração, e a tristeza e a solidão foram substituídos por felicidade. Abriu então seus braços e caminhou em direção à figura feminina. À medida que se aproximava dela, o perfume ia se tornando mais intenso. Em meio àquela luz, ele pôde visualizar quando os braços dela enlaçaram seu pescoço. A respiração de ambos estava ofegante. “Meu amor...”, sussurrou ela em seus ouvidos. Suas mãos então tocaram o rosto dela, trazendo-o para perto do seu. “Amo você. Eu sempre a amei”, disse ele, enquanto aproximava seus lábios dos dela. Quando os lábios, enfim, se encontraram, seus olhos se abriram. Ele estava deitado e a figura feminina estava ao seu lado, olhando-o. “O que foi, meu querido? Você estava sonhando?” Ele sorri e acaricia seu rosto. “Sim, eu estava sonhando com um anjo. O que você acha de me levar de volta para o paraíso?”

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