domingo, 10 de maio de 2009

Memórias de um almoxarife - parte 9


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1997. Quando eu fiz teste aqui pela primeira vez para uma vaga aqui no almoxarifado, fiquei muito otimista, pois o ambiente de trabalho aqui era muito bom. Naquele dia o Edvaldo não estava presente, mas havia um outro cara que hoje não trabalha mais conosco. Seu nome era Alex, que era o encarregado responsável pelos almoxarifados. Ouvi dizer que ele foi dispensado por ter chamado de “cabaço” o genro do dono da Usina. Realmente é um motivo forte pra alguém perder o emprego... Desde então o nosso setor tem passado de mãos em mãos. Até parece um avião em chamas que ninguém quer pilotar. Primeiro tentaram colocar o João como responsável, depois a responsabilidade ficou diretamente nas mãos do Alceu, que agora passou o setor para o Ricardo, o gerente de compras. Como todos sabem, onde não tem quem manda, todo mundo quer mandar. Dá então pra imaginar como nós trabalhamos sob pressão. Qualquer encarregado que vem ao balcão de atendimento começa a querer falar alto com a gente. Infelizmente, com a falta de um encarregado, não temos a quem recorrer para defender nossos direitos.
Há alguns dias tenho observado um rapaz bem vestido andando pelos corredores do almoxarifado. Aparenta ter mais ou menos a minha idade. Perguntei para o Caio quem era o dito cujo. “Esse aí é o Otavinho, o filho do doutor Luís”, disse ele na forma de cochicho. “Puta merda, Caio! É o filho do dono da Usina! Mas o que é que ele está fazendo por aqui?”. “Acho que ele está estagiando aqui pra ser o nosso encarregado”. Em outras palavras, teremos um encarregado para cobrar-nos e para lutar pelos direitos do nosso setor.
Agora deve ser umas três horas da tarde. A esta hora o sol não consegue vencer as árvores que ficam na parte do almoxarifado onde ficam as peças dos guinchos Santal. Caminho em direção à prateleira de letra R com uma requisição nas mãos. Estou em busca de uma peça chamada “pistão do giro”. É uma peça pesada, mas mesmo sendo pesada, fica na parte superior da prateleira. O mecânico que está pedindo o tal pistão disse-me mais ou menos qual é o seu comprimento. É a única referência que tenho para diferencia-lo dos outros pistões, pois os malditos são todos parecidos.
Paro em frente a alguns pistões, retiro a trena do jaleco azul e começo a realizar as medidas. Assim que começo minha tarefa, alguém se aproxima por trás da prateleira. Pela velocidade com que caminha e pela camisa que traja, deve ser o Danilo. É impressionante como o Danilo é relapso no trabalho. Quando está atendendo, parece arrastar-se entre as prateleiras. Quando o José Luís ficou sabendo de umas histórias a respeito da Flávia, sua namorada, apelidou de “chifrudo” o Danilo. O apelido pegou, ganhando inclusive algumas variáveis, como “boi” e “garrote”, por exemplo.
Ao ver-me tentando realizar as medidas, o rapaz se aproxima por trás da prateleira, pega a ponta da trena, e com o objetivo de ajudar-me, posiciona a trena na ponta do pistão. A ponta da trena escorrega, e ao tentar repetir a medida, novamente uma mão novamente a puta. Eis que pela segunda vez a maldita escorrega, e em minha terceira tentativa, lá está novamente a mão para segurar a ponta da trena. Já ligeiramente irritado, decido desabafar minha raiva no Danilo. “Larga isso aí, chifrudo!”, grito. Ao ouvir a resposta, um gelo percorre-me a coluna. “Mas você não quer que eu te ajude?” Deus do céu! Não é o Danilo quem eu acabei de chamar de chifrudo... é o Otavinho!
(to be continued...)
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