quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Viagem

8h40min. Estou no carro, a caminho do trabalho. O ar está seco, não há vestígios da umidade que judiou das paredes lá de casa no início deste ano. Caminhões de cana transitam sobre a terra vermelha, tornando desesperadas as donas-de-casa das cidades vizinhas. Pelo asfalto recém-reformado transitam poucos carros. Ainda é horário de pouco movimento, mas em poucos minutos aumentará bastante.

Pelo retrovisor do carro ou pelo vidro lateral, a vida passa muito rápido. Sou homem adulto, trabalhador preocupado com as contas pra pagar. Sou casado, tenho esposa para cuidar – eu dela e ela, de mim. O sonho de ser pai foi adiado, e o que me cabe fazer agora é dedicar-me ao trabalho, já que o mesmo consome a maior parte do meu tempo. As preocupações só aumentam quando se torna um adulto. É por isso que eu jamais quis ser adulto, e é por isso que com 33 anos de idade, eu ainda não aprendi a lidar com a maldade das pessoas. Ingenuidade e inocência ainda me fazem sofrer, principalmente no ambiente de trabalho. Há ocasiões em que falo demais, que digo coisas que não devia. Mas há outras situações em que eu deveria pronunciar-me, lutar por meus direitos. Nessas eu ainda me calo. Meus sonhos, aqueles poucos que ainda preciso alcançar, estão cada vez mais pertos de se realizarem, mas eu ando sem forças para lutar por eles.

8h45min. Há uma descida à minha frente, e no final dela, uma ponte. Ao lado direito avisto uma pequena cabana, de cuja chaminé sai fumaça. O cheiro de café recém-coado espalha-se pelo ar e chega até mim. Respiro fundo. Já não sou mais o homem responsável. Sou uma criança de quatro anos, sentado no degrau da cozinha olhando meu pai e minha mãe tomarem café. Sobre a mesa estão os pães que ela fez. Papai pega o pão e a faca, e em poucos segundos recheia o pão com manteiga, mergulhando-o na xícara de leite logo em seguida. Os dois conversam; parecem cúmplices em algum projeto que eu não sei qual é. A imagem que se desenha dos dois iluminados pelo lampião à gás lembra muito uma cena de filme romântico, que eu viria a assistir décadas mais tarde. O cheiro de café... O cheiro de leite... Quero ficar aqui com eles para o resto de meus dias. Quero ser sempre o pequeno filho que eles tanto amam. Quero para sempre tirar as botinas depressa e correr para o sofá, sempre que a mamãe preparar mamadeira para mim. Quero ouvir “It’s a heartache”, da Bonnie Tyler, e chorar achando que sua voz está rouca porque ela também está chorando. Quero que a mamãe sempre prepare minha mamadeira quando eu disser “Mamãe, me dá leite?” Quero subir na pequena cerejeira e ficar orgulhoso por ter conseguido subir na “árvore mais alta do mundo”. Quero fazer meus esconderijos pelo enorme “terreiro” que temos no quintal de casa. Quero camuflar-me entre as bananeiras, quero brincar sozinho de soldado no buraco que fiz no chão. Quero repousar meus caminhões de brinquedo debaixo dos pequenos pés de mato que nascem pelo quintal. Quero estar aqui neste local solitário com os dois, não quero envelhecer.

8h47min. A poeira dos caminhões que cruzam a pista abafa o cheiro de café e sou arrastado novamente para a realidade. Sou novamente um homem indo trabalhar. Sou professor. Sou um homem honesto, bom filho, bom irmão e bom neto. Meus pais talvez tenham orgulho de quem eu me tornei. Mas a minha imagem sentada no degrau que separa a sala da cozinha não me sai da cabeça...

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