quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Carteira

Domingo, 13 de setembro. 9h da manhã. Estou saindo para levar a roupa para a mamãe lavar. Ou melhor, estou tentando sair... Viro o cesto cheio de roupa suja e deixo seu conteúdo cair dentro de um enorme saco plástico branco. É mais conveniente e discreto que andar pela rua com um enorme cesto de lixo repleto de roupas sujas dentro do carro. Quando abro a porta que dá acesso à escada, percebo que esqueci que preciso aparar as costeletas do papai. E lá vou reabrindo todas as portas em busca da tal maquina, que esqueci no banheiro.

9h15min. Estou parado em frente ao portão da casa de meus pais. Coloco o celular e a carteira em um bolso e a chave do carro no outro. Em uma das mãos seguro a máquina de cortar cabelo e na outra, o saco cheio de roupas sujas. Empurro o portão. Fácil de abrir, enjoado de se fechar, principalmente depois que minha mãe esqueceu de trava-lo e ele colidiu com a carroceria do caminhão do papai enquanto ele saía. O choque foi tão forte que o muro rachou-se. Chuto então o portão com o pé e o apoio para que ele não volte. Avisto então a mamãe sentada na cadeira de cordas azuis de plástico, forrada com o coxinilho amarelo que outrora forrara o banco do caminhão. Ela tem um beija-flor nas mãos. Um lindo beija-flor azul. Ela está triste porque o gato o abocanhou. “Eu vou matar aquele desgraçado!”, grita o papai enquanto lava o pára-lama do caminhão.

9h25min. O beija-flor se mexe. Parece querer voar. Papai diz que é uma fêmea que se dispôs a enfrentar o gato por causa de seus filhotes. Ele se irrita pela atitude do “bichano”. “É o instinto, papai. Não tem jeito”, digo-lhe, na tentativa de evitar uma “matança”. Mamãe pega então o beija-flor e segue em direção à mangueira. Ele bate as asas, mas parece sem forças. Temendo que ele caia, coloco minhas mãos logo abaixo das da mamãe. Eis que ele cai em minha mão, morto, com a língua para fora. “Era a extrema unção”, diz a mamãe.

9h30min. Papai está sentado no degrau da varanda. Pego o pente, conecto a máquina de aparar na tomada e começo o serviço. Aos poucos a espessa costeleta branca vai desaparecendo e meu pai vai ganhando uma aparência mais jovial. Aproveito para cortar os pêlos brancos que nascem nas sobrancelhas, nariz e ouvido. Às vezes tenho a impressão de estar cuidando de mim mesmo, de tão parecido que somos.

9h45min. Terminado o serviço e com o “cliente” satisfeito, começo a guardar as coisas para ir embora. Eis então que coloco a mão no bolso e sinto falta de minha carteira. “Puxa vida, será que ela caiu nas pedras?” Mamãe já solta um grito. “Nossa! Corre lá na rua! E se você deixou ela cair lá?” Quando viro em direção ao portão, a campainha toca. Há um carro parado em frente ao portão, e de seu interior vem uma música sertaneja. Torço a chave, rodo a maçaneta. O portão se abre e um rapaz aparentando entre 35 e 40 anos surge com uma carteira nas mãos. “Essa carteira é sua? Ela estava caída perto do carro, então eu vi e parei. Não mexi no dinheiro, está tudo aí.” Meu coração dispara. Todos os meus documentos estão ali! E se eu os perco? E se alguém mal intencionado retira as poucas notas que ali estão e joga os documentos fora, só pelo prazer de fazer o mal? Mas o homem que tenho diante de meus olhos é um dos exemplos de honestidade cada vez mais raros hoje em dia. Abro a carteira e nem sequer confiro o dinheiro. Retiro a nota mais alta que lá encontro e coloco em seu bolso. “Muito obrigado pela sua honestidade. Que Deus o abençoe!”. Ele se recusa. Parece ser crente e isso deve ir contra seus princípios. Mesmo assim, diante de tanta insistência, ele aceita e parece estar feliz pela sua ação. Na verdade, ele merecia todo o dinheiro que estava na carteira e mais um pouco. Agradeço a Deus, ainda um pouco assustado, por ter sido aquele homem que encontrou minha carteira. Respiro, enfim, aliviado por ainda existir pessoas honestas e boas neste mundo. Minha única forma de retribuir ao que aquele homem fez por mim é fazendo o mesmo pelas outras pessoas.

2 comentários:

Barbara disse...

Louvável a atitude do rapaz, que é assim por ter alma e não por ter religião.
Já levei trambique de crente.
Mas também sou crente.
Crente-viajante.
Nada me tira da idéia que o beija-flor virou gente e se fez rapaz prá te devolver a carteira intacta....

Barbara disse...

Voltando prá dar uma dica.
Carinhosamente, sugiro:
mary-assuntosdiversos.blogspot.com
Vais viajar por mares estranhos por lá.
Podes gostar ou não mas certamente não sentirás nenhum tédio.
Abraços.