sábado, 14 de novembro de 2009

Fragmentos de minha infância - Parte 14


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Julho de 1981 É inverno aqui em Quirinópolis-GO. O quintal está cheio de folhas secas. Às vezes tenho a impressão de que todas as folhas das árvores estão espalhadas pelo chão. Mesmo aqui na roça, sinto falta da cor verde. A cor amarelada de seca só traz tristeza.
Por falar em tristeza, estou sentindo que o papai anda muito triste. Ontem, enquanto a gente almoçava, ouvi ele dizer pra mamãe algo que precisava vender o trator Valmet que a gente tem. Às vezes eu o vejo triste quando vou com ele a um lugar perto de um banco. Parece que ele vai lá pra tirar dinheiro emprestado pra poder plantar milho e pagar os “peões” que trabalham para ele. Ele sempre sai triste de lá, mas a coisa parece que é muito séria. Ouvi até ele dizendo que vamos ter que nos mudar daqui e que ele vai ter que voltar a trabalhar com caminhão de novo. O pior de tudo é que ele disse algo sobre um problema sério no motor do trator. Não entendi se ele arrumou ou se ainda vai arrumar o trator. Acho que isso só vai tornar ainda mais difícil encontrar alguém pra comprá-lo...
Estou brincando, sozinho como sempre, sob a sombra da enorme árvore que fica aqui em frente de casa. Daqui avisto uma caminhonete se aproximando. Corro e chamo o papai. “É o homem que veio comprar o trator”, diz ele, um pouco mais animado. O papai fala alguma coisa pra ele, que então desce da caminhonete. Caminhando ao lado do papai, ele segue em direção à enorme mangueira. É debaixo dela que o papai guarda o Valmet que ele quer vender. Sigo atrás dos dois, sem entender muito bem o que os dois estão falando.
Chegamos até o trator. Eu me posiciono ao lado do papai, que começa falando que está com o trator já há alguns anos e que nunca teve problema com o trator. Fico prestando atenção pra ver, pela primeira vez, o papai fazer “negócio”. O rapaz então pergunta como está o motor do trator. “O motor do trator está novo!”, diz o papai, para minha surpresa. “Espera aí: será que estou entendendo bem? O papai está mentindo pra vender o trator? Meu grande herói está mentindo pra passar o rapaz para trás? Não acredito!”, penso comigo, enquanto o rapaz balança a cabeça, aparentemente satisfeito. Então eu resolvo perguntar para o papai: “Uai, papai... Mas o senhor não tinha dito que o motor do trator estava fundido????”
(continua...)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Olhe à sua volta


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Nesta semana estive em um congresso em São Pedro, Estado de São Paulo. O congresso abordava temas diversificados relacionados à área de Química de Produtos Naturais, e contou com a presença de vários pesquisadores estrangeiros. Ficamos em um hotel fazenda, eu e mais três amigos.
Congressos geralmente são ótimas ocasiões para reflexão, porém volto abatido da maioria deles por sempre achar que jamais chegarei ao nível científico dos palestrantes. Não é uma situação muito fácil de lidar, eu confesso. Porém, em um dos intervalos das palestras, eu e um de meus amigos resolvemos jogar tênis de mesa. Ele me dissera que fora campeão, e eu também. Mas isso faz 19 anos!
Começamos então a bater bola. Não foi preciso dizer que estava muito fora de forma – ou diria que desaprendi? Comecei então a me sentir velho, e a tristeza logo me ocorreu. Mas houve um momento que muito me marcou. Em uma de minhas cortadas, a bola foi longe (e sequer bateu na mesa...). Deixei a raquete sobre a mesa, apoiei os dois braços e, cansado, lamentei estar ficando velho. Eis então que olhei para uma mesa não muito longe de onde estávamos jogando e vi uma senhora cuidando de uma moça em uma cadeira de rodas. Era uma moça bonita, maquiada, porém com um olhar triste. Para conversar com sua suposta mãe, a moça utilizada uma placa que estava sobre a mesa. Ela não conseguia falar, apenas apontava com os dedos para cada letra e ia, letra por letra, construindo as frases. Seu olhar era triste e distante. Disseram-me durante o congresso que ela não nascera daquele jeito. Imagino que deve ter ocorrido algo muito grave pra ela ficar naquela condição.
Ao vê-la, senti-me mal agradecido por achar que estar envelhecendo é ruim. O corpo, naturalmente, já não responde como antes, mas continuo saudável e com todos os cinco sentidos perfeitos. Pra falar a verdade, estou até bem para alguém da minha idade. Respirei fundo, balancei a cabeça em sinal de positivo e, cheio de confiança, gritei para o meu amigo: “Vamos lá, manda essa bolinha aqui que eu vou te mostrar como joga tênis de mesa!”