domingo, 11 de julho de 2010

O caso Bruno e Eliza

-->
Nos últimos dias o caso do goleiro do Flamengo, que supostamente mandou assassinar a amante, tem sido a bola da vez da mídia brasileira. Não há noticiário da televisão ou página de notícias da internet que não tenha abordado o assunto com riqueza de detalhes. Mais uma vez a imprensa brasileira atua de forma a deixar a população bem informada – e, por que não dizer, intencionalmente chocada? Diante de tantos detalhes, é inevitável que cada brasileiro construa sua versão dos fatos. Eis aqui a minha.
Ele, o goleiro Bruno do Flamengo, parece ter vindo de família muito pobre. Dizem que em nosso país há quatro maneiras de um menino pobre melhorar de vida: estudando, jogando futebol, ganhando na loteria ou traficando drogas. O goleiro, pelo que parece, já acumulava R$150.000,00 mensais jogando como goleiro do time de maior torcida do país. É natural que com o dinheiro venham também as más companhias (que naturalmente vão explorar o “lado negro da força”) e a vontade de usufruir erroneamente do poder que ele o traz. Mesmo casado e com filhos, o tal goleiro passou a promover “festinhas”, onde ocorriam orgias com garotas de programa. Eis que numa dessas festas o goleiro conhece ela, Eliza Samudio, moça pobre que se mudou para os grandes centros em busca de riqueza. Dizem que em nosso país há quatro maneiras de uma mulher pobre melhorar de vida: estudando, ganhando na loteria, tornando-se modelo, mostrando a bunda na televisão ou aplicando o chamado “golpe do baú”. Eliza parece ter tentando ganhar a vida como modelo e como atriz pornô, e mesmo não tendo enriquecido, parece ter se tornado bastante “solicitada” entre jogadores de futebol. Eis sua grande chance de aplicar o “golpe do baú”: engravidar de um boleiro famoso e dele arrancar uma boa pensão mensal. Eliza acabou engravidando de Bruno, mas o (ex)goleiro não apenas se recusou a aceitar a paternidade, como também deu uns tapas na moça e pediu pra que ela abortasse. Raivosa, a moça foi à imprensa e denunciou o goleiro, manchando sua imagem.
O que se segue a partir daí ainda precisa ser esclarecido. De qualquer forma, há fortes evidências de que o goleiro pagou para alguém executar a moça. Bruno está detido provisoriamente e será julgado, podendo pegar até 30 anos de cadeia (o que duvido que vá acontecer, principalmente tendo ele o dinheiro que tem). Suas imagens, mostradas exaustivamente na televisão, mostram-no trajando o macacão laranja de presidiário. O rapaz mantém sua arrogância, com o queixo sempre reto e sem olhar para baixo. Deve saber que em nosso país “nada dá nada”, que vai certamente sair impune desse crime e que em quatro ou cinco, na pior das hipóteses, estará novamente em liberdade.
De tudo isso, fica uma reflexão: por que moças e rapazes não escolhem o estudo como forma de melhorarem de vida? Por que nesse país todo mundo, inclusive os jovens, escolhe o caminho mais fácil? Será que se esquecem que o caminho mais fácil é sempre o mais perigoso?

sábado, 10 de julho de 2010

Homens fortes

--> -->
Todos os dias, a caminho do trabalho, vejo pela estrada duas pessoas que sempre me chamam a atenção. Uma delas é um senhor magro, que sempre trafega de bicicleta pela rodovia. Sua aparência acusa uns 70 anos ou mais. Parece ser um senhor de origem humilde, daqueles que sempre trabalhou na roça a vida toda. Sua barba é branca e está sempre por fazer, embora não seja necessariamente grande. Seus dentes aparentemente foram abandonando sua boca ao longo da vida, e a julgar pela forma como sorri para mim quando nos cruzamos pelo caminho, me parece que não usa dentadura. Sempre alegre e trajando sempre boné, o que dá a impressão de estar indo para o trabalho na roça, este senhor sempre aparece pelo caminho, sempre nos mesmos trechos da rodovia. Ao longo do tempo deduzi que ele mora em uma cidade próxima e que todos os dias segue em direção a um altar de Nossa Senhora montado à beira da rodovia. Imagino que ele deve ter recebido um milagre e que, para cumprir a promessa, para lá se dirige todos os dias. Certo dia o via ajoelhado ao pé do altar, com as mãos levantadas para cima. Daí vem certamente seu sorriso. Para ele estar vivo e ter saúde pra ir diariamente agradecer pelo milagre já é razão mais que suficiente para alegrar-se.
Em um outro trecho da rodovia, bem mais à frente, sempre me deparo com um senhor de chapéu preto, que muito me faz lembrar meu querido tio Chiquinho. Talvez este segundo senhor seja um pouco mais velho que o primeiro,  mas a julgar pelo seu traje, dá pra ver que é um pouco mais vaidoso. Sempre com camisa e calça de linho, e com um pacote nas mãos, este senhor de pernas arqueadas como as minhas e a do Garrincha percorre pelo menos uns 5 km diariamente. A julgar pelo pacote que trás nas mãos, eu ousaria dizer que ele mora em algum sítio na beira da rodovia e que segue diariamente até alguma padaria na cidade para buscar alguma coisa, talvez pão.
Estes homens sempre me fazem lembrar de meus avôs. O vovô Crotti era um homem magro.Trabalhou até os 75 anos como motorista de caminhão, e não fosse o cigarro, acredito que teria vivido até os 100 anos. Embora não bebesse, adorava uma sanfona e um forró. Era um ótimo dançarino. Meu avô Miller, por sua vez, já passou dos 80 anos. Todas as manhãs ele coloca seu chapéu e sai com sua bicicleta pela cidade, segue até a casa da mamãe e vem subindo devagar, parando para conversar pelo caminho. Até hoje sobe em árvores e em cima da casa, coisa que com a minha idade eu nunca tive coragem de fazer por causa do medo de altura. Além da cachacinha que bebe diariamente, todos os dias ele se senta com meu tio Lazinho, seu irmão, e os dois bebem duas cervejas enquanto conversam.
Cada um destes homens fortes me passam um ensinamento diferente com seus estilos de vida diferentes. Aos 34 anos, sentado no chão da sala em frente ao notebook, eu fico me perguntando se chegarei a viver tantos anos, e se o fizer, como estará minha saúde até lá. Sinto ainda fortes dores na coluna, talvez fruto do tempo que passo diariamente sentado. Nenhum deles conheceu computadores, internet, celulares, mp3 ou ipods. Mas olhando para eles e para suas vidas, eu fico me perguntando até que ponto vale a pena viver em meio à tecnologia. Os homens que mencionei tornaram-se fortes sem precisar de e-mails ou de Google. Eles passavam todo o tempo livre junto às suas famílias, e não em frente ao monitor de um computador fazendo compras on line ou assistindo vídeos do Youtube. Mesmo assim, eu os vejo como homens fortes e tenho por eles um grande respeito. Mas será que as próximas gerações nos verão como homens fortes também? Ou será que este respeito por gerações anteriores está entrando em extinção?

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Relembrando os velhos tempos

Sábado, 24 de abril de 2010. 7h35min. Estou atrasado para as aulas. Isso não acontecia tempos atrás, quando eu era apenas um aluno. Agora que sou professor e as coisas começaram a sair do meu controle, a situação parece ser um pouco diferente. Tenho 55 min pra abastecer o carro e enfrentar 60 km de uma pista simples e perigosa, repleta de caminhões carvoeiros e canavieiros. O jeito vai ser tirar a diferença no pedal do acelerador.
8h35min. Estou, enfim, na sala de aula. Quase no horário! Os alunos estão me aguardando fora da sala de aula. Sigo até o setor de multimídia para pegar a chave e retorno rapidamente. Os alunos se acomodam e eu começo a explicar os tão temidos mecanismos de fragmentação. O assunto é complexo, eu me esforço ao máximo para simplificar, abrindo inclusive mão de alguns formalismos. Muitos alunos interrompem a aula solicitando que não haja prova. Isso acontece todos os anos; ao invés de sentar e estudar, a maioria deles prefere propor alternativas mais fáceis. Tento explicar novamente o conteúdo, mas eles parecem estar bloqueados só de saberem que vai haver prova. Tento acalmá-los, mas eles parecem decididos. O cansaço vai aos poucos minando minha paciência. Já são 12h45min e está difícil me controlar.
13h40min. Estou na estrada em que tantas vezes viajei de ônibus ao lado de minha saudosa amiga Ana Cláudia, em direção a Ribeirão Preto. Lá alguns ex-colegas de moradia irão se reunir em um churrasco. Sei que vão beber e que vamos nos lembrar dos velhos tempos de pós-graduação. Disseram-me pra ir preparado para jogar futebol, mas estou preparado para não jogar. Jogar em meio a bêbados não funciona, principalmente quando se é o único que não ingere bebidas alcoólicas.
14h45min. Estou ao portão da casa onde vão fazer o churrasco. O “Alvim” vem receber-me. Parece animado. Logo em seguida vem o “Pancinha” me abraçando, com as mãos totalmente engorduradas; ele é o churrasqueiro. Dentre os demais rostos os únicos que reconheço são do “Rondinelli”, cuja maior lembrança que tenho é de ter namorado um mês uma moça sem saber o nome dela, e da Luciane, esposa do Pancinha. Apesar dos poucos, damos boas risadas. Como nos bons tempos.
15h45min. Estou na estrada, de volta para casa. Os carros e a estrada chamam-me pouco a atenção. Meus pensamentos estão na época de pós-graduação, tão sofrida e ao mesmo tempo tão frutífera e divertida. Estou me lembrando das inúmeras experiências junto aos colegas de pós-graduação. Quantos jogos de futebol nas noites de terças-feiras. Quantas e quantas madrugadas passadas na varanda contando piadas e “tirando sarro” uns dos outros. São tantas as boas lembranças que agora tenho a impressão de que tudo era perfeito (é só impressão, pois sabemos que nada é perfeito). Sem dúvida foram os meus “anos dourados”. Hoje me dei conta de que o tempo se passou, cada um de nós seguiu sua vida e tomou seu próprio rumo. Espero que todos estejam bem e felizes. E espero que mesmo não estando hoje presentes, que se lembrem de como foram bons aqueles tempos difíceis.