segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Perdas


Os dois últimos meses que se passaram desde que postei as últimas atualizações deste blog foram particularmente difíceis. Um de meus amigos, com quem divido sala no trabalho, perdeu o pai. O mesmo aconteceu com um outro grande amigo dos tempos de pós-graduação. O primeiro destes amigos era muito próximo de seu pai e tinha com ele uma relação parecida com a que tenho com o meu. Eram cúmplices, iam à sauna, faziam churrascos e ficavam bêbados juntos. Embora eu não seja fã de velórios, principalmente por nunca saber ao certo o que dizer, compareci ao dele para demonstrar meus sentimentos ao meu amigo. Presenciei, assim, o seu sofrimento e compartilhei de sua dor. Houve um momento em que ele disse a um dos amigos de seu pai: “Puxa vida, na semana passada a gente ficou bêbado. A gente se abraçou e disse um pro outro: ‘Como eu amo esse cara’... Era a despedida e eu nem me dei conta.”
O meu segundo amigo deu-me a notícia por telefone ontem. Em meio a muitas mudanças, inclusive de trabalho e de endereço, ele recebeu a notícia de que seu pai estava com câncer em estágio terminal. Ao contrário do amigo que mencionei logo acima, este mantinha uma certa distância de seu pai, não porque quisesse, mas pela forma como ele agia. Pelo que me lembro de nossas conversas no quarto em que dividíamos na casa de pós-graduação em que morávamos, esse meu amigo dizia que seu pai, assim como o meu, era caminhoneiro. Tratava-se de um homem embrutecido pela vida, que dificilmente manifestava carinho. Mesmo assim, a frase que ouvi de meu amigo ao telefone deixou-me com o coração partido: “Eu imaginei que por não sermos tão próximos, eu não sentiria a falta dele. Enganei-me”.
Pois bem. Estou com 34 anos. Já não sou mais nenhum rapaz. As rugas começam a tomar conta de meu rosto, meus cabelos – os que ainda sobrevivem em meu couro – começam a perder a cor. Meus joelhos já não são os mesmos e já não tenho aquela disposição para praticar esportes ou cuidar de minha coluna. O trabalho consome a melhor parte de mim. Envelhecer é um processo natural. Nossas forças vão se exaurindo aos poucos até não restar nada, mas nem sempre não nos damos conta disso. Olho para meu sobrinho e lembro de quando eu ia buscar a Débora em sua casa e tinha, antes de sair, que dar uma volta no quarteirão com ele de pé, entre minhas pernas, buzinando. Hoje ele está mais alto que eu, só pensa internet, em sair e “ficar” com as meninas. O cheiro de bebê deu lugar ao chulé, fruto do costume adolescente de não gostar de tomar banho.
Sim, eu estou envelhecendo. Mas não é isso que me preocupa, e não é por isso que escrevo este post. Ao ver a dor desses meus dois amigos por terem perdido seus pais, eu fico imaginando quão terrível serão perder meus pais e meus avós. Nos últimos anos perdi dois tios-avôs, Francisco e Agenor, e meu avô paterno Valter. Mesmo não sendo tão próximo de meu avô Valter, e tendo me mantido calmo durante todo o velório, entrei em desespero quando jogaram a primeira pá de terra sobre seu caixão. Era o fim de tudo. Como sobreviverei à perda de meu pai e de meu avô paterno? Eu os vejo fracos, cheios de problemas de saúde. Meu pai tem 58 anos, é hipertenso e diabético, tem problemas nos rins e esporão. Lembro-me de quão forte ele era. Aos 40 anos, levantava sobre a cabeça um peso de 60 quilos com o braço esquerdo, com uma força que eu jamais terei. Segurava a tampa lateral do caminhão sozinho, trabalhava o dia todo em cima do trator. Um gigante! Meu avô, por sua vez, está com 83 anos, sofre com dores em seu joelho e tem problemas de audição. Dizem que ele trabalhou na pedreira – baita serviço pesado! Eu sei que um dia eles vão partir. Cada dia que se passa é um dia a menos, como se fosse uma contagem regressiva.
Infelizmente não há como se preparar para isso. Como disse o técnico Dunga após a derrota para a Holanda na copa deste ano: “Ninguém treina para perder. Não há como se preparar para a derrota”. A única coisa a fazer é aproveitar o máximo de cada instante ao lado deles, dar-lhes toda a atenção que eu tiver. Não há como evitar as lágrimas e as perdas. Há apenas como evitar o remorso, a sensação de que podia ter feito e não fez. E conviver com a sensação de que não se deu tudo de si, eu imagino, deve ser a pior do mundo, pois não há uma segunda chance.