sábado, 31 de dezembro de 2011

Retrospectiva 2011


2011 foi um ano muito especial. Profissionalmente, foi um ano muito intenso. Embora não tenha sido tão produtivo quanto 2010, consegui fazer de tudo um pouco e sobreviver às exigências diárias de uma instituição de ensino privada. Dei mais alguns pequenos passos em minha carreira acadêmica, mas que podem ser considerados como muito importantes. Há, obviamente, muitas coisas que eu gostaria de ter feito e algumas pessoas com as quais ainda me sinto em débito. No entanto, o sentimento de ter falhado no momento não chega a incomodar ou preocupar, principalmente porque dediquei a mim o tempo que em outras épocas eu dedicaria a realizar estas tarefas. Há 10 meses iniciei minha jornada para me fortalecer fisicamente, principalmente por causa da coluna e do joelho, e venho colhendo ótimos resultados. É óbvio que ir à academia toma-me mais de uma hora diária, que eu poderia dedicar ao trabalho, porém neste sentido, estou orgulhoso de mim mesmo por ter me mantido firme na meta que estabeleci de cuidar mais de minha saúde. De fato, as dores no joelho direito (cujos ligamentos foram rompidos em janeiro) e na coluna estão cada vez mais raras. Tenho me sentido menos cansado, e por que não dizer, mais feliz. Fiz também cirurgia para correção de miopia no início dezembro (agora você sabe, caro leitor, o motivo pelo qual nenhuma postagem nova foi escrita neste período...), e apesar das semanas sem decifrar letras pequenas, estou satisfeito com o resultado até agora.

No entanto, qualquer coisa que eu escrever sobre 2011 não terá nenhum significado se comparado com o nascimento do Miguel. Meu filho, tão aguardado e sempre querido, veio ao mundo em 10 de maio, às 12h8min, fazendo transbordar de alegria o coração deste pai “babão” e de boa parte da família (não direi todos, pois alguns ainda não o conhecem e outros preferem olhar para outro lado). Concordo com o que os mais experientes dizem: tudo em nossa vida muda após a paternidade. Não apenas a rotina, mas principalmente o sentido da vida. Em resumo, posso dizer que 2011 foi o melhor ano de minha vida.

A você, caro leitor, que acessa periodicamente este blog, ou que chegou até ele por acaso através de alguma palavra-chave digitada no Google, gostaria de agradecer pelo interesse em ler as histórias que aqui escrevo, e desejar a você e aos seus muita saúde, amor, paz, alegrias e realizações em 2012. E não se esqueça: na virada do ano, não se esqueça de agradecer pelo ano que passou.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pesadelos em série

Estou no fundo da casa da vovó Lourdes, próximo ao tanque onde ela lavava roupas. Ao meu lado estão mais duas pessoas que eu não consigo identificar. “O que estamos fazendo aqui? A vovó Lourdes não está mais entre nós”, digo a elas. Elas, no entanto, lançam-me um olhar de indignação. “Você não sabe o que está dizendo, diz uma delas”. De repente, sinto uma luz forte, talvez de algum veículo, incidir em nossas costas e projetar nossas sombras na parede do muro. Para minha surpresa, quatro sombras aparecem projetas. Um frio me percorre a coluna. “Eu não te disse? Ela ainda está entre nós”,  diz uma das pessoas. Amedrontado, eu corro em direção ao portão, mas acabo escorregando na calçada avermelhada. Na queda eu bato o pulso esquerdo no chão e arranco parte da pele. Eu me levanto, meio cambaleando, e ouço a voz da vovó Lourdes. “Não adianta você fugir. Você vai morrer em um acidente de carro na estrada que vai para Franca”. Recordo-me então de não ter passado o cartão de ponto ontem à noite, e de precisar ir hoje até o trabalho para justificar minha ausência. “Acho melhor deixar pra fazer isso um outro dia. Que se dane a minha falta!”

Estou agora em uma esquina que fica a uns 150 m aqui de casa. É aqui que eles escolheram para rodar algumas cenas do novo filme do Superman, que estreará no ano que vem. Eles estão fazendo a seleção para escolher quem interpretará o personagem de Clark Kent nestas cenas. “Action!”, diz o diretor, em inglês. Eu entro na casa velha com um vaso de flores nas mãos e o coloco sobre uma mesa. Ao meu lado esquerdo, avisto dois velhinhos interpretando Martha e Jonathan Kent, meus pais adotivos. Eu sigo em direção a eles, porém não me lembro do roteiro. Olho então para o diretor, formulo mentalmente a minha pergunta e a faço: “What am I supposed to say now?” O diretor parece nervoso. “Oh, crap! Cut, cut! Where a hell do you find this asshole?”, pergunta ele aos seus assistentes, indignado com a minha interpretação. "Listen to me, guy: there is no screenplay. You have to improvise. Come on! You are an actor, are not you?” Visivelmente intimidado, eu procure repetir a cena, mas o resultado não é muito diferente do anterior e o diretor, irritado, pede novamente pra cortar a cena. Aproximo-me então dos dois velhinhos e peço algumas dicas sobre a minha interpretação, mas eles não são muito receptivos. “OK, guys, let’s take a break”, diz o diretor. No entanto, ao invés de uma parada para o café, eles começam a desmontar o cenário e vão embora. Agora a minha timidez deu lugar ao nervosismo. Colo então os dois cotovelos junto ao corpo, com os anbraços projetados para frente, mordo os próprios dentes e sinto meu sangue ferver. “Eu vou provar a eles que eu posso ser o Superman”. De repente, dou um salto em direção ao céu e paro a uns quarenta metros do chão. Avisto vários homens vndo em minha direção trajando uniformes do Superman. Certamente são outros candidatos ao papel principal. Solto então um grito de raiva altíssimo e parto em direção a eles. Com socos e empurrões, eu os derroto graças à minha recém-adquirida super-força.

A cena é interrompida pelo grito do Miguel, que acabara de acordar. Só então dou-me conta de que eu  não tenho superpoderes e de que eu jamais serei, para alívio de todos, o Superman nas telonas. Eu me contentarei em ser apenas um super-pai para o Miguel. Isso, obviamente, se a profecia da vovó Lourdes em meu pesadelo jamais se concretizar.

E lá se foi mais um Natal...

Hoje, 28 de dezembro, abri um dos e-mails que recebi uma semana atrás desejando um feliz Natal. A sensação foi estranha, pois bateu certa tristeza. Na varanda, a árvore iluminada e o papai Noel pendurado na parede são vestígios de uma data que já passou. As lojas da cidade já não estão mais abertas e as ruas estão praticamente desertas em relação à semana passada. O Natal já passou. Ficou para trás, levando com ele algumas velhas expectativas que alimentei durante o ano. Pensando bem, a sensação de agora é a mesma de exatamente um ano atrás: a de que eu não vou mais nutrir expectativas em relação a esta data. Assim como no ano passado, o pensamento que tenho agora é o de que não haverá mais ceia aqui em casa. Há, no entanto, uma razão um pouco diferente e mais forte para eu tomar esta decisão: os familiares a quem convido sentem sono e dormem cedo. Mal chegam às 23h e já estão sonolentos, encostados pelo sofá da sala ou abrindo a boca de sono, aguardando o momento de ir embora. E a maioria, de fato, vai  embora antes da meia noite. Eu não os culpo. Na verdade, a maioria dos familiares ainda está trabalhando nesta época do ano. Não estão de férias como eu e a Débora. Há também outra parte que prefere rezar ao invés de comer. Estes talvez estejam mais próximos do sentido verdadeiro do Natal: o de celebrar o nascimento do menino Jesus.

A passagem do Natal deveria trazer uma mensagem de paz e de amor aos nossos corações. Afinal, esta data significa o nascimento da esperança. Todos os anos eu peço, em silêncio, que Deus possa nascer em meu coração e que eu possa ser uma pessoa melhor. Este pedido é, de certa forma, uma metáfora. Deus não habita em nossos corações, e sim em nosso cérebro. Sempre que nos concentramos em algo bom ou ouvimos nossa “voz interior”, estamos falando com Ele. Deus, portanto, nunca nos abandonará, pois está o tempo todo conosco. Às vezes, no entanto, deixamos outras vozes do mundo falarem mais alto que Ele. A conclusão a que chego é que, apesar dos meus pedidos de Natal, a voz de Deus parece estar abafada em mim. Não tenho reservado o devido tempo para ouvi-Lo. Eu sei que Ele está comigo o tempo todo, mas não conversar com Ele traz-me uma sensação de fraqueza, vazio e solidão indescritível. Minha alma precisa de silêncio para que eu ouça uma única voz. Eu preciso reencontrar-me com Deus. Talvez assim, com Deus vivo em meu coração durante os 365 dias do ano, o Natal deixe de ser uma data tão esperada e, por que não dizer, frustrante.  Talvez assim eu não me sinta como um menino que pediu um presente ao papai Noel e não ganhou.

A triste saga de um celular Nokia N8 - parte 1

Junho de 2011. Estou em uma das filiais da Claro, operadora que escolhi há 7 anos. Estou aguardando há quase uma hora... A maioria dos clientes que estão sendo atendidos se queixa da qualidade do serviço prestado, principalmente o de internet móvel. Por isso o atendimento é demorado. Eu quero apenas trocar o meu celular por um outro que tenha uma boa câmera, pra que eu possa tirar boas foto se filmar o Miguel. Eis que um dos clientes termina de ser atendido e eu sou chamado. O funcionário me atende com muita atenção, e ao ouvir o tipo de celular que eu quero, sugere-me o Nokia N8. O modelo não me é estranho, pois o Rodrigo tem um desses. Quando pergunto o preço, descubro que tenho que desembolsar mais de R$300,00 para adquiri-lo. Mas o rapaz, muito atencioso, me dá uma dica interessante: “Liga na Claro e pede pra dobrarem seus pontos do Clube Claro. Se você fizer isso, o celular sai de graça pra você. Eu agradeço e sigo as instruções. Dentro de cinco minutos estou novamente na fila, e em pouco menos de meia hora estou sendo atendido. Uma hora depois saio da loja com o tão desejado aparelho.
Julho de 2011. O tal Nokia N8 é realmente um arraso Tiria boas fotos e ainda filma em uma definição incrível - isso, claro, em se tratando de um celular. Estamos usando o aparelho aqui em casa como uma câmera fotográfica. Nem chip eu coloquei nele. Débora está gostando bastante de usá-lo para tirar fotos do Miguel e filmá-lo. Será ótimo para acompanharmos o seu crescimento.
17 de dezembro. 6h20min. Acordei cedo para levar o carro para lavar. Dou uma olhada rápida nos pertences que estão pelo chão, retiro os que eu consigo ver e sigo para o lavador.
10h55min. Paro com o meu carro em frente ao lavador. Desço e procuro o proprietário. "Ele deu uma saidinha mas volta logo. O senhor não quer esperar?", diz um de seus funcionários. "Amor, será que eu posso levar o carro?" pergunta Débora, preocupada com seu horário no cabeleireiro. Sigo então em direção ao carro da Débora já limpo, fecho as portas, dou partida, manobro-o e o estaciono, entregando-lhe as chaves logo em seguida. Ela procura no porta-luvas pelos seus óculos, que lá estão. Ela acena e sai. Eu arranco uma nota de R$50,00 e entrego a um dos funcionários, ambos jovens com idade entre 18 e 20 anos, e espero o troco de R$5,00. Um deles sai para trocar o dinheiro, enquanto fico conversando com o outro, um ex-aluno. Pego então o troco e saio, pedindo para que agradeçam ao proprietário em meu nome. 
19 de dezembro. 21h. Estou descarregando as fotos para o computador. Estou quase terminando. Faltam apenas as fotos do Nokia N8 para serem trasnferidas. "Amor, onde está o celular?", pergunto.  "Então... Faz um tempão que eu não o vejo", diz ela. Sem me desesperarr, continuo as cópias de segurança que estou fazendo. "Ah, não esquenta, não. Qualquer hora ele aparece.'
20 de dezembro. 19h30min. Estamos passeando de carro pela cidade. Débora, Clara, Miguel e eu. Débora coloca a mão no porta-luvas do carro para guardar o óculos e faz um comentário preocupante. "Nossa! Agora que eu percebi! Eu tinha deixado o celular aqui no porta-luvas. Você verificou se o celular estava aqui antes de levar o carro para lavar?" Um frio me percorre a espinha. De fato, eu não tinha olhado no porta-luvas pra ver se lá havia algo de valor antes de levar o carro para lavar. Desesperado, mudo o percurso e dirijo-me para casa. Em poucos minutos estou revirando as gavetas aqui de casa e procurando pelo celular em todos os cantos possíveis. E nada!
21 de dezembro. "O senhor por acaso não viu um celular no porta luvas do...?" Antes de terminar minha pergunta, o proprietário do lavador responde, sorrindo. "Sim, eu vi, sim! Eu coloquei ele no porta-luvas! Eu o vi enquanto soprava o carpete do carro, caído sobre o assoalho. Eu sempre dou uma faxina antes de lavar por fora e passar para os meninos. Pode olhar, que está lá!",  "Pois é... Acho que algo de errado aconteceu... porque no porta-luvas ele não está."
(continua...)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A árvore da vida


Eu não sei a data exata em que assisti ao trailer do filme “A árvore da vida”, do diretor Terrence Malick. Sei que o encontrei no site do Omelete, e fiquei desde o início interessado em assistir ao filme nos cinemas. Para minha surpresa, o filme foi exibido em um número reduzido de salas pelo país afora, excluindo as cidades de Ribeirão Preto e Franca, as mais próximas de onde moro. Parti então para a tentativa desesperada de baixa-lo da internet. Encontrei as versões em russo e italiano, mas não em inglês. Quando enfim consegui encontrar a versão em inglês, faltava a legenda. Resumindo: foi uma jornada desanimadora e frustrante.

No dia 12 de dezembro, às 18h16min, o DVD enfim chegou a minhas mãos Assisti ao filme já sabendo um pouco do enredo e tendo lido várias críticas negativas na internet. O fato é que o filme, como um todo, é um pouco confuso para os meus padrões intelectuais. Não sou muito crítico, gosto de cinema como entretenimento. Há um tom filosófico e metafórico no filme que às vezes confunde um expectador relativamente leigo como eu. Por exemplo: o pai, interpretado por Brad Pitt, é comparado a Deus em sua relação com seus filhos: quer o bem dos mesmos, mas às vezes é severo demais com eles, particularmente com o mais velho. De qualquer forma, há cenas marcantes que fazem valer muito a pena assistir. As imagens são simplesmente maravilhosas. A mãe, interpretada  por Jessica Chastain, com  um de seus filhos nos braços, ainda bebê, aponta para o céu e diz: “È lá que Deus mora”. Em seu sermão na igreja em que a família frequenta, o padre diz: “Deus às vezes envia moscas às nossas feridas ao invés de curá-las”. O pai tenta ensinar aos seus filhos: “Não sejam íntegros demais, caso contrário serão facilmente passados para trás”. O menino, ao rezar, questiona Deus após a morte por afogamento de um de seus amiguinhos: “Como o Senhor pode exigir que eu seja bom, se o Senhor mesmo não o é?”

Há uma cena do filme em que o pai pega o filho mais velho e vai mostrar as falhas no serviço que ele fez no jardim. Neste momento eu me recordei do papai me levando para mostrar as “rebarbas” que eu deixava quando lavava o caminhão dele.  Obviamente eu nunca desejei que o papai morresse ou disse a ele pra me expulsar de casa, como fez o tal filho no filme. Mas identifiquei muitos aspectos em que a relação entre o pai e o filho mais velho assemelha-se à minha relação com o meu pai.

Após assistir “Árvore da vida”, passei a olhar para o meu filho de outra forma. Certamente eu serei duro com ele, mas também precisarei demonstrar muito amor. Assim como o personagem de Brad Pitt, eu quero que meu filho seja um homem íntegro e independente, esforçado, leal e humilde e que saiba tratar todo mundo com muito respeito. Meu sonho é que daqui a 20 ou 30 anos eu possa ler este post e chegar à conclusão de que a semente que eu plantei tornou-se uma árvore realmente cheia de vida. Que meus filhos - se eu tiver outro, além do Miguel - sejam a árvore da minha vida.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Vendo a vida com outros olhos


Terça-feira, 6 de dezembro. 16h12min. Estou vestindo uma túnica verde e uma toca vermelha. Estou aguardando o colírio analgésico fazer efeito. Papai está sentado na sala ao lado, apreensivo. Olho para cima, para não deixar que o colírio escorra face abaixo. Subitamente, sou tomado por um monte de pensamentos aleatórios, porém todos associados a situações que me fizeram estar aqui neste momento. Faz mais de 20 anos que sou míope. Passei mais de 15 usando óculos de lentes grossas e armações pesadas. Um peso a mais para os ombros de um jovem tímido e que todos tachavam de “nerd”. Com o tempo as situações constrangedoras foram se acumulando. Foram inúmeros cumprimentos a pessoas que eu não conseguia identificar. Foram inúmeros lances em partidas de futebol em que eu errava a posição da bola. “Foi gol?”, perguntava para alguém que não tivesse o mesmo grau de miopia que eu. |Ainda assim, relutei por vezes a cirurgia. Ora, como viverei sem minha visão? Esse foi o meu pensamento durante anos. Mas um sonho me fez mudar de idéia. Neste sonho eu estava em um lugar deserto e corria de um lado para o outro sem identificar o que lá havia, até que eu chegasse bem perto. Na verdade, foi um verdadeiro pesadelo!
O momento chegou. Os médicos me chamam para uma sala. Lá estão cinco pessoas – três médicos e duas enfermeiras. A situação me parece tensa. “Pra que tanta gente se a cirurgia é tão simples?”, eu me pergunto. Um dos médicos pede pra que eu me deite e permita que a enfermeira me prepare. Ela tenta lacrar um dos meus olhos, já anestesiados, com uma espécie de fita crepe. O médico se posiciona e faz aproximar-se de mim um equipamento cheio de luzes, que mais se parece um disco voador. Ele pede pra que eu foque minha visão na luz verde. Ele coloca algo em meu olho pra me impedir de piscar. Sinto então uma espécie de bisturi se aproximando e raspando meu olho. É como se ele arrancasse uma parte do meu olho. “Estou preparando seu olho para o laser. Neste momento, estou raspando o epitélio do seu olho”, segue ele com sua narrativa. Quando ele termina a tal raspagem, minha visão fica totalmente desfocada. Eis que a luz vermelha do “disco voador” se posiciona sobre meus olhos e nele incide o laser. Um forte cheiro de queimado toma conta da sala. Após pouco mais de 20 segundos, o laser se afasta e o médico inicia um processo de higienização do meu olho “queimado”. Ele despeja um líquido desconhecido várias vezes, como se quisesse lavar meu olho. Ele disse que a cirurgia neste olho terminou, mas eu ainda não vejo praticamente nada. Após a limpeza, ele posiciona uma lente, que segundo ele é para proteger o olho. E como se fosse um milagre, tudo o que vejo ganha contornos bem definidos. Satisfeito e tentando segurar a empolgação, eu tenho a certeza de que poderei , enfim, ver a vida com outros olhos.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Minha última carta ao papai Noel

Querido papai Noel,

Estou escrevendo esta carta na esperança de que o senhor a leia algum dia. Dizem que o senhor não existe, mas mesmo após 35 anos de existência, eu espero que todos estejam enganados, caso contrário o senhor não terá o desprazer de ler estas poucas linhas.

Pois bem. Durante toda a minha vida procurei ser um “bom menino”. Nunca, em toda a minha existência, eu fiz algo com a intenção de prejudicar alguém. Da mesma forma, eu nunca desejei o mal a qualquer pessoa que fosse, por pior que tivessem sido suas atitudes para comigo. Jamais faltei com a educação com meus pais, avós, tios ou colegas. Enfim, tenho tido um bom comportamento durante todos os meus 35 anos de vida, condição que o senhor exige para nos presentear no Natal. Mesmo assim, papai Noel, eu nunca vi o senhor se manifestar. E não me refiro a não tê-lo visto descendo pela chaminé – não apenas por não termos uma aqui em casa, como também porque tal cena seria um tanto grotesca, dado o diâmetro de seu abdômen. Eu estou me referindo ao espírito natalino que o senhor diz derramar ao passar voando na noite de Natal sobre nossas casas, trazendo paz e harmonia às nossas famílias.

Em todas as cartas que escrevi para o senhor, eu jamais pedi presentes materiais. Embora eu nunca tenha sido um menino de família rica, jamais me revoltei com a falta de brinquedos ou roupas. O que eu mais pedi em minhas cartas – que, pelo visto, não chegaram até o senhor – foi que trouxesse paz à minha família. Foram anos e anos pedindo – em alguns, eu cheguei a implorar... – e nada do senhor me atender. Às vezes eu pensei ter sido atendido, mas à medida que os anos foram passando, eu fui percebendo no rosto das pessoas por mim tão queridas que se reuniam na noite de Natal que o senhor sempre falhou com o seu “espírito natalino”. Com isso, papai Noel, o número de pessoas à mesa na noite de Natal está cada vez menor a cada ano e com feições cada vez mais insatisfeitas, embora a mesa esteja cada vez mais farta – se o senhor falhou, Deus não!

Por isso, papai Noel, estou lhe escrevendo esta que será minha última carta para comunicar-lhe que de mim o senhor não receberá mais nenhum pedido. Também não espere que eu fique olhando para o céu aguardando o senhor passar com suas renas derramando espírito natalino sobre nossos lares como se fosse um pó mágico. A esta altura da vida, essa imagem me parece um tanto fantasiosa. Peço-lhe, inclusive, que não fique aparecendo em propagandas na televisão, tentando induzir todo mundo a acreditar no tal espírito natalino. A única coisa que o senhor consegue com isso é tornar-nos cada vez mais infelizes, por nos fazer acreditar em algo que não existe. É, papai Noel... Apesar da minha teimosia em escrever esta carta, eu estou chegando à conclusão de que o senhor realmente não existe nem nunca existiu. E não adianta pedir para alguns cidadãos acima do peso vestirem seus uniformes vermelho e branco e passarem de casa em casa distribuindo balas na casa que a prefeitura manda montar na praça central aqui da cidade. Eles não me convencem.

Por isso, neste Natal eu não vou pedir que o senhor apareça. Também não vou pedir a Deus que traga para a ceia de Natal as pessoas em cujo coração o senhor tem falhado em tocar com o espírito natalino, porque neste sentido até Ele parece não querer me ouvir. Pra ser sincero, eu estou cansado de depositar minha felicidade em pessoas que se importam mais em não aceitar as diferenças do que com a minha felicidade. Na verdade, com exceção de minha esposa e de meu pequeno filho (este pelo menos por enquanto...), parece que ninguém está nem aí para o que eu sinto. E se me permite dar-lhe uma sugestão, papai Noel, proponho que para os próximos natais o senhor mude essa estória de exigir que todos sejam “bons meninos” pra ganharem seus presentes de Natal. Caso contrário, o senhor estará definitivamente fracassado. E eu lhe digo por quê: ninguém se importa com os “bons meninos” - nem mesmo o senhor! - porque eles não dão trabalho. São seres translúcidos que ninguém percebe, pois não chamam a atenção. Muitas vezes os "bons meninos" como eu sofrem em silêncio pela vida toda, sem ninguém perceber que também precisam de amor e de atenção. Ainda bem que Deus nos atende de vez em quando.  Não fosse por Ele, eu juro que teria me tornado um menino mau. Aí sim o senhor teria uma boa desculpa pra não atender aos meus pedidos, não é mesmo?

Apesar de minha revolta, tentarei lhe dar um último voto de confiança. Comprei uma miniatura sua e coloquei no alto da parede aqui de casa, para que meu filho, ainda bebê, o veja. Quando ele olhar para a árvore de Natal iluminada que montamos na varanda e para o boneco vermelho e de barbas brancas subindo a  parede em direção ao telhado, ele acreditará que o senhor existe, como eu acreditei um dia. Mas vou lhe avisando: se o senhor decepcionar o meu filho como me decepcionou com relação ao espírito natalino, o senhor terá que acertar as contas comigo. Isto, é claro, se a gente se encontrar algum dia.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Adolescência: uma fase de mudanças difícil de mudar

2008. Escola Edda Cardoso de Souza Marcussi. São 21h16min. Estamos no intervalo de aulas. Estou descendo a rampa que separa as salas de aula do bloco onde fica a sala dos professores. Pelo pátio os alunos se deslocam em direção à cantina, em busca de algo para matar a fome que os incomoda. A maioria deles trabalhou o dia todo. Estão cansados. Receberam ordens de seus patrões, alguns não tão educados. Foram subjugados. Trabalharam pesado. Ao final do mês, a recompensa virá na forma de poucas centenas de reais, muito pouco pelo tanto que trabalham. Muitos deles são pais ou mães de família. Após anos afastados da escola, retornaram para terminar o que não conseguiram quando eram mais jovens. A escola, para a maioria destes alunos, sempre foi uma obrigação desagradável e sem sentido. Agora que estão trabalhando, o que lhes interessa é apenas o certificado de conclusão. É o que seus patrões lhes exigem. Para os mais jovens - pelo menos para a parcela mais ambiciosa - o sonho é conseguir um emprego na usina ou na metalúrgica aqui da cidade, para, assim, terem condições de comprar um carro. E pouco importa se em suas casas não haja garagem. Se for um trabalho no turno noturno, melhor ainda. Os poucos centavos do adicional noturno, segundo dizem, compensa as horas de sono perdidas.

      Faz quatro anos que sou professor de ensino médio nesta escola. Conheço o perfil dos alunos, e chamo a maioria deles pelo nome. Apesar da vida difícil que levam, são alegres e cheios de energia. Em troca da forma respeitosa, educada e amigável com que os trato, recebo deles um respeito inestimável e raro. Curiosamente, sou um dos poucos professores que ainda não encontrou mensagens escritas oou desenhadas nas pinturas de seus carros. Na verdade, tenho muito carinho por estes alunos. No entanto, tenho a sensação de fazer mais por eles como pessoa do que como professor. Poucos sonham em cursar uma faculdade, e um número menor ainda quer saber da tal de Química. Não há perspectivas de um futuro melhor. Aliás, eles parecem preocupados apenas em viver o presente, sem acreditar que o amanhã um dia vai se tornar o hoje. Conselhos parecem sementes lançadas em terra árida e infértil. A vida, infelizmente, cobrar-lhes-á um preço alto.

Quando chego ao corredor que dá acesso à sala dos professores, avisto uma aluna que estudava no período da manhã. Recordo-me da feição dela. É uma das poucas alunas loiras da escola e, por isso, sempre chamou a atenção dos rapazes. Tem olhos verdes e a pele bem clara. Há algo nela, no entanto, que me parece diferente. Seu rosto parece mais arredondado. Seu andar também está diferente. Ela me avista, e de longe, grita por mim “Oi, fessor!” Com as mãos nas costas, ela caminha com certa dificuldade em minha direção. Ao aproximar-se, reparo que está grávida. Ela tem apenas 16 anos. Procuro, no entanto, evitar censurá-la. Parabenizo-lhe e desejo uma gravidez tranquila. Pergunto sobre o pai da criança, se é também aluno da escola. “Ah, fessor, nem me fale! Aquele desgraçado não presta!” Ao ver sua reação, decido não entrar em detalhes. Mas ela prossegue por si mesma. “Quando eu falei pra ele que eu estava grávida, ele disse pra eu me virar, que era pra eu tirar. Aí eu disse pra ele se fuder, que se ele não assumisse, eu criaria nossa filha sozinha!” Elogio-a, digo que ela fez a coisa certa, que o bebê não deve pagar por algo que eles fizeram equivocadamente. Então ela me conta que quando nasceu, sua mãe também tinha 16 anos. “Fessor, eu vou criar a minha filha e dar pra ela tudo o que eu não tive. Ela vai ter tudo do bom e do melhor.” Balanço a cabeça, em sinal de apoio, e desejo força nesta nova fase de sua vida.

Ouço então a sirene tocar. Ela se despede e me agradece pela conversa. É hora de voltar para a sala de aula. Por um instante, eu fico ali parado, olhando para o chão, sem ter a menor idéia do que se passa pela cabeça desses jovens. Estudar seria a única oportunidade de mudarem, de maneira honesta, suas condições sociais e econômicas. Para mim, pelo menos, foi assim. Mas estudar, obviamente, requer esforço, dedicação e tempo. Tempo este que eles preferem usar para bater papo no MSN, para postar fotos e comentários no Facebook, Orkut e Twitter, para se divertir com jogos no celular. Os jovens de hoje passam a maior parte do tempo envolvidos com apetrechos tecnológicos diversos, que os fazem pensar que são mais espertos e “descolados” que a geração anterior. Como se isso não bastasse, andam em gangues que constantemente se confrontam, experimentam o sexo muito cedo e, não raramente, as drogas. Em seus vocabulários, palavras como “gostosa” e “bandida” ocupam o lugar que outrora foram eram de elogios para uma mulher,  como “bonita” e “moça de família”. Sem entender como as coisas chegaram a tal ponto, a única coisa em que consigo pensar é que aquela criança que está na barriga daquela jovem certamente seguirá o exemplo de sua mãe, que acabou seguindo o exemplo de sua avó. Uma coisa, no entanto, me parece bastante provável: a família desta jovem dificilmente mudará suas condições financeiras e sociais. A tendência é que a vida difícil vá se transferindo de geração para geração nas famílias de jovens que não estudam ou que se tornam pais e mães muito cedo. Quanto a mim, que na minha adolescência já era considerado velho demais por ser muito "sistemático" e "certinho", a tendência é que eu jamais entenda a adolescência. Isso é algo, no mínimo, assustador, pois quando meus filhos forem adolescentes, eu estarei na casa dos 50 anos...

sábado, 26 de novembro de 2011

O menino de rua do Natal

Quando eu era criança, esperava ansiosamente pelo Natal. Na verdade, eu sequer sabia que o Natal era comemorado em 25 de dezembro. Sabia apenas que era uma época de fim de ano, em que eu estava de férias e em que eu ganhava muitos presentes de meus pais, de meus avós e da tia Ângela. Mas havia alguns indícios de que o Natal estava chegando. A cidade se iluminava e o povo ficava passeando pelas lojas, que permaneciam abertas até à noite. Outro indício era quando o papai voltava para casa. Sendo ele caminhoneiro, chegava a passar até 70 dias longe da gente. Eu percebia que o Natal ia se aproximando quando ele voltava para casa e ficava mais de uma semana. Era bom tê-lo em casa, mesmo sabendo que na maioria das vezes ele ficava triste por não ter ganhado o que precisava durante o ano, e que nos próximos dois meses a gente teria que economizar ao máximo por causa da falta de trabalho. Daquela época, eu guardo uma cena – não sei se de um filme ou de uma propaganda – em que uma família enorme, feliz e com a mesa farta, ceia às vésperas do Natal, enquanto um menino de rua permanece do lado de fora, olhando, encantado, as luzes da árvore, a comida da mesa farta e a família reunida. Era uma imagem que me deixava muito triste.
Os anos foram se passando. Não ganho mais presentes – pelo contrário, hoje sou eu quem os dou. Minha esposa e meu filho é que me aguardam chegar do trabalho ao fim do dia. E ao contrário do que ocorria na casa dos meus pais, temos aqui em casa a tradição de montar uma árvore de Natal e enfeitá-la. Além disso, procuramos reunir nossos pais e alguns parentes mais próximos para a ceia e para o almoço de Natal. É uma forma de celebrar e de respeitar este momento tão especial. Passo o ano inteiro ansioso por esta época, que vai ganhando um significado cada vez mais importante a cada ano. Mas o clima natalino é sempre entrecortado ou interrompido por pequenas discussões, desentendimentos ou mal-entendidos na família, fazendo com que haja sempre um mal-estar entre os poucos que reunimos aqui em casa. Nem todos os presentes parecem estar felizes, deixando de lado, por mais católicos que sejam, o perdão, a tolerância, a aceitação, o amor e o respeito que caracterizam o verdadeiro espírito natalino. Sem querer, estas pessoas tão queridas fazem com que eu me sinta um eterno menino de rua, como aquele que de minha infância. Obviamente, não por causa da mesa farta ou da árvore de Natal...

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Super-Bonder cola tudo

2003. Estou sentado à mesa da cozinha da casa da vovó Maria, minha avó materna. A mesa de aço branco, de formato redondo, encontra-se entre a porta que dá acesso ao jardim de inverno e o acesso à sala de jantar. À minha frente estão o balcão de mármore e portas marrons, que parecem fundir-se ao piso marrom. Vovó está preparando o almoço. Aos poucos os espaços vazios da pia vão sendo preenchidos pelos utensílios de alumínio que ela acabou de usar. Sempre de vestido e avental, ela segue sua rotina caseira em um ritmo frenético. Achando-se magra, ela reclama do pouco peso. “Duardo, eu queria tanto engordar um pouco...”, lamenta ela, alheia aos problemas que alguns quilos poderiam lhe trazer. Aos poucos seus movimentos rápidos vão fazendo com que gotas de suor surjam por todo o seu rosto, conferindo brilho à sua pele quando irradiadas pela luz que penetra pela porta do jardim de inverno. Vez ou outra ela pára, abre a torneira da pia, molha as mãos e as passa pelo rosto. “Fio do céu, que calor!”, diz ela, abanando-se com o avental. Em seguida, ela abre a geladeira, em cuja porta estão pregados inúmeros adesivos e ímãs, cada um deles com uma história pra contar. Ela se posiciona cuidadosamente do lado da geladeira, para não tomar “friagem”, e levando as mãos ao seu interior, pega um dos vários potes de margarina Qualy onde ela guarda os “restinhos” de “mistura” que sobrou de outras refeições. É um costume de quem já sofreu com a falta de comida ao longo das sete décadas de vida. Enquanto isso, o “Louro”, seu papagaio verde de mais de 50 anos, começa a gritar de seu poleiro na varanda. “Ô, Antoim! Cadê o Louro?”, grita ele com uma voz rouca, muito parecida com a da vovó, chamando pelo vovô. “Quieta, louro!”, grita ela, continuando os preparativos para o almoço.
Mesmo estando concentrada nos preparativos para o almoço, a vovó segue prestando atenção nas minhas histórias da semana em Ribeirão Preto. Ela adora que eu venha aqui visitá-la, assim como eu fazia quando era adolescente. Sempre cuidadosa e prestativa, tê-la como avó é um privilégio e tanto. “Vovó, se procurar no dicionário a palavra vovó, eu vou encontrar a foto da senhora lá”, digo a ela quase todas as vezes em que venho aqui. De repente, noto que a vovó está picando almeirão enquanto conversa comigo. Eu me levanto, preocupado. “Vovó, toma cuidado com essa faca, pelo amor de Deus! Ela tá bem afiada!” Ela ri. “Non, fio, eu estou acostumada”, diz ela cheia de confiança. Agora próximo a ela, encostado ao balcão da pia, continuo a contar minhas histórias. Eis que, após uns dois minutos, sou interrompido por um grito da vovó. “Puta merda!”, grita ela, chacoalhando a mão esquerda com o dedo cheio de sangue. “Vovó, a senhora machucou?”, pergunto, afoito, tentando socorrê-la. “Não foi nada, fio. Eu só cortei um ‘tampo’ do dedo”. Quando olho o corte, reparo que o estrago fora tão grande que a ponta de seu dedo está quase reta. “Não tá doendo, mas precisa parar de sangrar”, diz ela, tranqüila e forte como uma pedra, enquanto eu me sento, já enfraquecido diante de tanto sangue. Ela então retira um pote de açúcar do armário da pia e enfia o dedo dentro do açúcar. Da cadeira eu avisto o branco do açúcar aos poucos ganhar tonalidade avermelhada. “É, não tá dando certo...”, diz ela. Ainda com a mão esquerda dentro do pote de açúcar, ela se abaixa e pega, com a mão direita, um pote de café. “Agora vai parar”, diz ela, confiante, enquanto tira o dedo do pote de açúcar e o transfere para o pote com café. O resultado, no entanto, não parece ser o que ela esperava. Ela então me pede ajuda. “Duardo, procura pra mim aí no meio do almeirão a ponta do meu dedo.” Surpreso, eu fico sem saber o que fazer. Então ela mesma, mais que depressa, começa a vasculhar o almeirão em busca da ponta do dedo cortada. “Achei!”, diz ela, levantando com a mão direita, como se fosse um troféu, a ponta do dedo que há pouco foi cortada. “Mas pra que a senhora quer esse pedaço de pele, vovó?”, pergunto-lhe, sem entender o que está acontecendo. “Então... – diz ela, séria, olhando para a ponta do dedo cortada que está em sua mão direita, como se o estivesse analisando – será que se a gente colar com Super-Bonder meu dedo não pára de sangrar?”. Sem saber o que fazer, e emocionado diante de tamanha ingenuidade, sorrio-lhe timidamente dou-lhe um abraço apertado. “Ô, vovó... Como a senhora consegue ser tão fofa?”

domingo, 20 de novembro de 2011

Presente, passado ou futuro?

Quando encosto a mão na maçaneta do portão verde de entrada da casa da vovó Lourdes, percebo que ainda é preciso empurrá-lo com força para abri-lo. Como sempre, a maçaneta parece gelada. Ao abri-lo, avisto o chão pintado com gravite vermelho. À direita, o jardim que a vovó tanto estima. Nele estão plantadas as roseiras que tantos lindos botões já produziram, muitos dos quais eu roubei durante minha adolescência – com a permissão da vovó, é claro. No pequeno alpendre, à esquerda da porta de entrada, um pequeno altar onde repousa uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Como sempre, não entro pela porta de entrada. Sigo pela estreita calçada lateral, cujo piso vermelho parece ter sido encerado. À minha direita, sobre as pedras que recobrem o chão, está o caminhão do vovô Crotti, com o qual ele trabalhou o ano todo. Esta é a época do ano em que ambos precisam descansar e curtir sua família. À frente do caminhão, protegido pela sombra da garagem de madeira, encontra-se o carro do vovô, um Gol de cor vinho, fabricado no final dos anos 80. Dentro dele, ouvindo música no rádio toca-fitas, estão meus primos Danilo e Gustavo.

Chego ao final da calçada lateral, que se separa da parte cimentada do quintal por meio de um pequeno portão de madeira. Fico ali por uma fração de segundos, parado, apenas observando. Tio Tim e meu primo Fernando estão de pé, com uma tesoura nas mãos, colhendo uvas da velha parreira para a vovó Lourdes preparar a salada de frutas, como ela sempre faz todos os fins de ano. No banco, encostado à pequena parede que separa a área cimentada da área coberta por pedras, próximos aos vasos de samambaia tão estimados pela vovó, minha irmã, meu primo Frederico e minha prima Mariana estão conversando e rindo. Na varanda, logo na primeira cadeira, tio Agenor conversa com o vovô Crotti, provavelmente sobre alguma das viagens que fizeram ou sobre algum baile a que foram juntos. Sentado de lado na cadeira de uma das extremidades da enorme mesa, papai ouve o tio Buchudo contar sobre seu novo caminhão. Com um dos pés apoiados sobre a pequena mureta lateral da pia e com o cotovelo sobre o joelho direito, tio Natal presta atenção à conversa deles. Minhas tias Ângela e Flávia preparam a mesa de madeira dos "12 apóstolos" para o almoço. Na pia, mamãe enxagua a poeira de alguns talheres e pratos que há tempos não são usados, com minha afilhada Clara abraçada à sua perna. Ao fogão, tia Vânia e tia Nilce ajudam a vovó Lourdes com a comida. São parte do cardápio o delicioso macarrão furado e a maionese que só a vovó Lourdes sabe fazer. Todos os filhos da vovó e do vovô estão reunidos e parecem felizes por estarem ali, em paz, para celebrar o início de um novo ano.

Quando o pequeno pinscher, até então no colo do vovô Crotti, me avista em frente ao pequeno portão de madeira, ele pula e corre em direção a mim, encosta suas patas dianteiras e, de pé, começa latir. É o aviso de que eu cheguei. Todos então param por um segundo o que estão fazendo e se viram para ver quem está ali. Ao avistar Débora, Miguel e eu, todos sorriem e dizem a mesma coisa: “Olha, o Miguel chegou!”

Sinto, então, a mão da Débora tocando meu ombro. “Amor, o Miguel acordou”. Quando abro os olhos, dou-me conta de que estou em minha casa, em outra época de minha vida. Jogo as pernas para fora da cama, calço os chinelos e corro até o quarto do Miguel. Quando olho para dentro do berço e seus olhos me identificam, ele sorri e começa a bater os pés de alegria. Tomo-o então nos braços e olho para ele com ternura. Um nó enorme se faz em minha garganta e meus olhos se enchem de lágrimas. Percebo então que o sonho do qual eu acabara de acordar foi uma combinação idealizada de algumas boas lembranças isoladas dos finais de ano na casa de meus avós paternos, mas que aquela situação do sonho jamais aconteceu nem nunca acontecerá, principalmente porque o tio Agenor e meus avós já faleceram e a casa deles foi vendida e demolida. Sem condições de reconstruir o passado, enxugo então minhas lágrimas e encaro minha grande responsabilidade: oferecer ao Miguel, no presente, momentos felizes e marcantes para que ele não precise, no futuro, ter que sonhar com situações que nunca existiram.
Se você tiver que escolher entre as lembranças do passado e seus planos para o futuro, escolha viver o presente. Mas não se esqueça que você só será  feliz se tiver os três em sua vida.

domingo, 13 de novembro de 2011

Amigos: não se decepcione com eles

Ao longo da vida, você vai conhecer muitas pessoas. De algumas você terá maior proximidade. De outras, nem tanto. A algumas destas pessoas próximas você chamará de amigos. Talvez pela identificação que tiver com elas, talvez pelo apoio que te oferecerem em momentos difíceis. Você também tachará de amigos aqueles com quem conviver proximamente por muito tempo, por compartilhar de sua vida com eles, da mesma forma que fará com aqueles que o ajudarem em algum ponto de sua jornada.

Amigos serão pessoas muito importantes em sua vida. Ela será vazia se você não os tiver. Encontra-los é, portanto, uma necessidade. No entanto, você falhará muitas vezes na tarefa de identifica-los. Não importa quão velho você esteja nem tampouco quanta experiência você julga ter. Você se equivocará muitas vezes, e por sucessivas vezes você se decepcionará.

Você perceberá que a amizade entre duas pessoas depende do interesse de ambas em mantê-la. Lembrar-se-á de quantas vezes empenhou-se para manter uma amizade com alguém que pouco se importava com ela. Muitas pessoas o querem como amigo, mas são egoístas demais pra se envolverem com você ou se tornarem próximas demais. Da mesma forma, você verá quão equivocado estava quando julgou serem amigos aqueles que te ajudaram. Você sentir-se-á traído quando perceber que as pessoas tinham seus próprios interesses em ajuda-lo, ou que o fizeram para manipulá-lo a terem com elas uma dívida de gratidão.

Você errará várias vezes, caro leitor, na eleição de seus amigos. Equivocadamente, você elegerá pessoas que adoram caminhar de mãos dadas enquanto estão ao seu lado, mas que não te estenderão a mão quando caminharem à sua frente – que é onde a maioria delas realmente quer estar.

Tendo se decepcionado tantas e tantas vezes, você equivocar-se-á uma última na tentativa de eleger o seu “best friend” dentre os poucos a quem ainda classificar como “amigo”. De uma forma tão triste e dolorosa que estas palavras jamais poderão te mostrar, você perceberá que seus amigos também têm amigos. Quando isso acontecer, não se chateie se você for o amigo preterido, e não o preferido. Afinal, meu caro, você pode não ter sido um amigo tão bom ou tão interessante quanto imaginava.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Fragmentos de minha infância - Parte 17



Quirinópolis-GO, 1981. Tenho 5 anos. Não há muita gente pra brincar comigo. Todo mundo que eu conheço é mais velho que o papai e a mamãe. Só o Adão, filho da dona Dica e do seu Fi Vieira, e o Missim, filho do seu Antônio Baiano é que são mais novos. Eu não sei se o Adão gosta de brincar comigo, porque ele é pequeno, mas é bem mais velho que eu. Mesmo assim, eu adoro brincar com ele. Outro dia, antes de irmos para São Joaquim da Barra visitar o vovô, a vovó e a titia, eu pedi para o papai me levar à casa do Adão pra brincar com ele. A mamãe ficou brava, acho que porque ainda era madrugada. Agora estou na casa da dona Melinha e do seu Antônio Baiano, brincando com o Missim. Ele deve ter uns 12 anos, mais ou menos. Ele está me mostrando uma flor amarela pequena e muito bonita. Eu já tinha visto essa florzinha muitas vezes nascendo no meio da grama, mas não sei o nome dela. “Missim, como é que se chama essa flor?”. Ele ri. “Essa flor, Duardo... se chama bucetinha”. Eu balanço a cabeça pra mostrar que entendi. É um nome bem engraçado, acho que não vou esquecer.

Estou na porta da varanda, tirando minhas pequenas botinas. A mamãe vem me dar um abraço. Parece estar com saudade. Resolvo então contar a ela a minha descoberta. “Mamãe, hoje o Missim me mostrou uma bucetinha”. De repente, a mamãe parece uma estátua. Fica parada, com os olhos arregalados, olhando para mim. Parece pálida. Ela faz força pra engolir o cuspe, que parece ter engrossado de uma hora para outra. “Dado, onde é que vocês foram pra ele te mostrar isso?”. Ela parece preocupada. “Mamãe, nós fomos brincar na grama. Tinha umas flores amarelas pequenininhas que eu achei bonitinhas. Ele colheu uma e me mostrou. Disse que aquela flor se chama bucetinha”. A mamãe respira fundo. Parece aliviada. “Dado, deixa eu te pedir uma coisa: você nunca mais vai repetir essa palavra, entendeu?” Eu não entendi. “Mas por quê, mamãe? A flor é bonitinha e o nome é engraçado...” Ela parece nervosa. “Eu vou te explicar porquê”. Ela aumenta a voz. “Porque esse nome é um nome muito feio, é um nome bobagento! Não fica repetindo esse nome, não, se não Deus te castiga, entendeu?” Meio triste, eu balanço a cabeça e fico olhando para o chão. Mas a mamãe parece não ter terminado. “Ai, ai, ai... Tá vendo? É isso que dá brincar com menino bobagento! Fica te ensinando coisas feias... É pecado ficar falando isso, viu? Eu vou falar pro seu pai não te levar mais lá pra brincar com o Missim”. Ela dá as costas e eu fico ali, chateado, sentado no degrau que separa a sala da cozinha.

São Joaquim da Barra-SP, 1984. Tenho 8 anos. Estou no pátio da Escola Estadual Manuel Gouveia de Lima. É horário de recreio. Eu estava acostumado a brincar sozinho, a passar as tardes na casa do seu Januário ou da dona Deolinda, lá em Goiás. Agora estou no meio de tanta gente... E eu não conheço ninguém! Acho que estou mais sozinho agora que antes. De longe, lá no meio da grama verde, eu avisto uma mancha amarela. Eu me aproximo. Quando avisto as flores, eu logo as reconheço. “Meu Deus do céu!” E faço o sinal da cruz. Há vários meninos por aqui. Estão colhendo as flores e mostrando uns para os outros. “Olha a bucetinha, olha a bucetinha!” Sem saber o que fazer, eu me aproximo deles e começo a gritar, desesperadamente: “Não, pára com isso! Não fala esse nome, é pecado! Deus vai te castigar!” Ao ouvir o que eu disse, todos começam a rir. Eu balanço a cabeça e saio. “Ainda bem que a mamãe me avisou dessa tal de bucetinha. A mãe desses meninos não deve ter avisado eles. Tadinhos...”

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Crônica 9 - A dor de quem fica



Quando Aluísio avistou a rua de acesso ao cemitério, percebeu que não seria fácil encontrar uma vaga para estacionar seu carro naquele dia de finados. Preferiu parar o carro a umas duas quadras e enfrentar a íngreme subida. Enquanto caminhava, inúmeras pessoas lhe ofereciam vasos de flores. “Tá baratinho, é só R$5,00!” Aluísio se indignou em silêncio. “Que filhos da mãe! Ganhando dinheiro à custa da tristeza dos outros!” Quando chegou à entrada, parou. Olhou para cima, e catolicamente fez o sinal da cruz. Respirou fundo, enxugou o suor da testa com o punho, projetou o pé direito à frente do esquerdo e iniciou a parte final do trajeto rumo ao túmulo de sua esposa Francisca. Foram quase 60 anos de uma união feliz,  repleta de amor e amizade. Uma vida inteira dedicada a ela. Tanta dedicação, no entanto, não foi suficiente para evitar que o câncer a levasse. Tiveram dois lindos filhos, que se casaram e se esqueceram dele. Há tempos Aluísio não tinha notícia de nenhum deles. Sabia apenas que enriqueceram e que levavam uma boa vida. Já não precisavam mais de seu velho pai.

Enquanto caminhava, Aluísio assistia o vai-e-vem de pessoas. Algumas se ajoelhavam e rezavam em silêncio. Outras lutavam contra o vento para manter suas velas acesas. Outras, ainda, preferiam lavar os túmulos de seus entes queridos antes de rezar ou acender velas. Aluísio desejava apenas acender um maço de velas e ir embora. Não pensava em lavar o túmulo de sua esposa, que fora limpo nos últimos 116 domingos. Resignado em sua caminhada, avistou um casal de jovens chorando em frente a um túmulo de mármore marrom. Pareciam ser namorados. Aluísio lembrou-se de quando  vinha visitar com Francisca, na época sua namorada, os túmulos de seus antepassados. Quando seus filhos eram adolescentes, vinham com eles para ensinar a importância de se preservar a lembrança daqueles que amamos. Em vão. Seus filhos, maravilhados com os prazeres que o dinheiro pode proporcionar, sequer se lembram dele, seu pai, que está vivo. Dirá, então, da mãe falecida.

Aluísio, enfim, avistou o túmulo de Francisca. Percebeu a presença de duas pessoas próximas a ele. Seu coração acelerou-se. Seriam seus filhos? Teria ele a oportunidade de revê-los e de preencher um pouco do grande vazio e solidão que consumiam seu espírito? Aproximou-se. Aqueles rostos não lhe eram familiares. Notou, então, que o rapaz estava com um dos pés sobre o túmulo de Francisca, e que deixara seus pertences sobre ele enquanto conversava. Aluísio pensou em pedir que o rapaz se retirasse dali e que respeitasse sua dor. Apenas pensou. Os tempos eram outros. Já não tinha mais razão para brigar. Aliás, mal tinha razões para continuar vivo. Entendeu, então, que para aquele jovem o túmulo de Francisca era apenas um retângulo revestido de azulejos que nada significava para ele. Percebeu que todos sentem falta de seus entes falecidos, mas pouco se importam ou respeitam os de outras pessoas. Aluísio para o céu ensolarado, e protegendo seus olhos cansados com a mão direita, disse em voz baixa: “Francisca, minha lindinha, a vida sem você é tão difícil... Quando é que você vem me buscar, meu anjo?”, disse em voz baixa. E dando meia volta, levou consigo o maço de velas, as inúmeras lembranças de quem partiu e a imensa dor de quem ficou.

domingo, 30 de outubro de 2011

Crônica 8 - A morte revela os hipócritas

Padilha era um homem elegante. Magro, andava sempre alinhado. Não era rico, mas possuía bens materiais suficientes para dar-se o luxo de freqüentar bailes e festas. A dança era sua paixão. Era, como costumam dizer, um verdadeiro pé de valsa. Em um desses bailes conheceu Eleonora. A atração foi imediata. Após poucos encontros, os dois se apaixonaram. Mas havia um pequeno detalhe: Padilha era casado havia mais de 30 anos. Seus filhos jamais aprovariam aquele relacionamento. Nem sua mulher, obviamente.
Em pouco tempo o namoro entre Padilha e Eleonora tornou-se um caso. A esposa de Padilha tomou conhecimento, porém, eternamente apaixonada pelo esposo, fingiu que nada acontecia. Os filhos, todavia, revoltaram-se. “Se eu encontrar aquela desgraçada na rua, vou dar um pau nela”, dizia um dos filhos. “Se ele não largar de pouca vergonha, vamos cortar o plano de saúde dele”, ameaçava uma das filhas. “Esse velho desgraçado podia tomar veneno e morrer!”, esbravejava um outro.
Os anos se passaram. Padilha aos poucos foi perdendo sua saúde, adoeceu e acabou falecendo. No velório, os filhos reuniram-se em torno do caixão. Choraram juntos e lamentaram a partida de seu patriarca. “O pai era um homem tão bom...”, dizia a filha que queria cortar seu plano de saúde. “Coitado, sofreu tanto pra morrer...”, lamentava o filho que desejou que ele se envenenasse”. Um dos netos, emocionado, decidiu descrever a tristeza daquele momento em seu site. Quase foi crucificado. “Quem ele está pensando que é? Que falta de respeito com nosso pai!” A morte de Padilha tornara sagrado o seu nome entre os filhos que deixou.
Dois anos depois, no velório da esposa de Padilha, uma cena familiar. “Coitada, sofreu tanto pra morrer...”. “Ela era uma mulher tão boa...” Os filhos novamente se reuniram em torno do caixão e choraram mais uma perda. Era a imagem de uma família unida. Padilha e sua esposa, agora nos céus, viraram santos. Seus filhos, ainda na terra, tornaram-se anjos. Dias depois estavam em pé de guerra no tribunal. Cada um dizia ter sido um filho melhor que os irmãos e que, por isso, defendia uma fatia maior dos bens que Padilha deixou. Alguns irmãos tornaram-se inimigos. E ninguém mais se lembra de Padilha, de sua esposa ou de Eleonora. Nem tampouco que um dia foram uma família.
A morte gera os mártires e revela os hipócritas.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Fragmentos de minha infância - parte 16


(Este post é continuação das partes 14 e 15)

        Ao me ver caído, jogado entre timbetes e cacos-de-vidro, a mamãe começa a chorar. "Tair, pelo amor de Deus, não faz isso!" Mas o papai está dominado pela raiva e não dá ouvidos às suas súplicas. Enquanto ele dá mais alguns nós na corda e a ajeita na mão direita, eu tento me levantar. Meu bumbum está doendo, deve ter se machucado quando eu caí. Minhas mãos estão sujas, minhas costas estão molhadas pelo sereno que ainda resta sobre o mato rasteiro. Tomo coragem e olho para o rosto do papai. O meu herói, o meu grande amigo parece ter desaparecido e dado lugar a um homem raivoso e vingativo, que me empurra novamente para a relva e começa a desferir golpes certeiros com a corda em minhas pernas. "Isso é pra você aprender a deixar de fazer gracinha quando eu estiver fazendo negócio, seu fidumaputa!" O primeiro golpe pega nas pernas. A força daquele golpe parece trazer consigo todo o peso do braço do papai. A calça não é suficiente para amortecer o golpe. Dói muito... "Não, papai!" O segundo golpe pega na coxa. O choque da corda levanta um enorme vergão vermelho. "Pára, papai, por favor!" Pode ser que o papai não seja tão forte como o Hulk, mas assim como ele, sua força parece ser maior quando está com raiva. E ele está com muita raiva de mim. Eu só não sei por quê. O terceiro golpe vem longo em seguida, acompanhado por um gemido do papai. Neste ele deve ter colocado toda a sua força. "Papai, papai!" Não adianta chamar pelo papai. Não é ele quem está com a corda na mão, a me suurrar com todo o seu ódio por um motivo que eu ainda não sei qual é. Meu Deus, a quem devo pedir ajuda? "Toma, fidumaputa! Vai, me passa vergonha de novo agora!" Em seguida vem o quarto golpe, o quinto, o sexto... Não há naquele rosto de sobrancelhas arqueadas, agora já suado de tantos golpes, nenhum vestígio do amor que o papai tanto disse que tem por mim. "Toma!" Deixo então de gritar pelo papai. Meus gritos não são apenas gritos de dor, porque eu já não consigo sentir minhas pernas. São também gritos de medo. Como eu queria que o papai pudesse me defender desse que agora me espanca... Será que ele vai voltar algum dia?
        Já não sei há quanto tempo estou apanhando. Rolando sobre o mato rasteiro, em meio a lixo e a cacos de vidro, sinto minhas mãos machucadas. Minhas pernas devem estar cheias de sangue, mas eu não as vejo por causa dos restos de calça que ainda resistem aos golpes do papai. Já quase não tenho voz de tanto chorar e de pedir para ele parar. Minhas lágrimas já estão secas sobre minhas bochechas rosadas. Não sei se vou sobreviver. Resolvo, então, tentar escapar. Enquanto o papai levanta o braço para desferir mais outro golpe, eu me projeto para trás empurrando o chão com minhas botinas e com minhas mãos. Reúno então as poucas forças que me restam e ando uns dois metros gatinhando, até colocar-me de pé e correr para o meio do mato. O papai, ofegante e raivoso, parece cansado e nem tenta correr atrás de mim. "Volta aqui, fidumaputa!" Chorando e amedrontado, eu não tenho como obedecê-lo. "Não, papai. Eu sei que se eu voltar, o senhor vai continuar me batendo". Mas o papai parece não se dar conta de que está batendo em seu próprio filho, e ao invés de acalmar-se, parece ter ficado ainda mais nervoso. "Eu não vou te bater mais. Mas não me irrite! Se você não voltar aqui, aí sim você vai ver o que é bom pra tosse!". Eu confio nas palavras dele. Na verdade, eu sempre confiei. Caminho então em sua direção, meio desconfiado, e paro a alguns passos dele. Ele me olha. Ainda está com as sobrancelhas arqueadas. Levanto então os olhos e lanço-lhe um olhar de quem está triste e com dor, precisando muito de seu abraço, mas o que recebo é um forte empurrão no peito, que me faz perder o equilíbrio e ganhar o chão novamente. Olho para o papai. Seu rosto agora é uma grande sombra, a sombra de um gigante atrás do qual o sol se esconde. Enxergo apenas a sombra de seu braço armado com a corda roçar o ar mais uma vez, dando início a uma nova sequência interminável de golpes sobre meu pequeno corpo. 
     Por mais que a corda traga dor às minhas pernas, meu maior sofrimento vem do fato de eu não entender até agora por que o papai está me batendo. Opa, espera aí! Eu acho que eu sei porque o papai está me batendo! Ele me disse uma vez que um homem tem que ser forte, que homem que é homem não chora. Deve ser isso! Ele deve estar fazendo um teste! Só pode ser isso! Se eu parar de chorar, ele vai parar de me bater. Prendo então a respiração e paro de me mexer. De repente, o papai pára de bater. Tá vendo? Era um teste mesmo! Solto então o ar e volto a respirar ofegante. O papai então arqueia novamente as sobrancelhas, o ódio se estampa novamente eu seu rosto. Então ele levanta novamente a corda e parte pra cima de mim...
        Já não sei há quantos dias eu estou na salmoura. Os vergões em minhas pernas e no meu bumbum ainda estão muito altos. Dá pra sentir com a ponta dos dedos. Depois que a raiva do papai passou, a mamãe teve uma conversa muito séria com ele. "Tair, cê tá doido? Você podia ter matado o Dado", disse ela. Por mais estranho que isso possa parecer, no dia seguinte à surra ele veio me abraçar. Eu me encolhi, ameacei chorar pra que ele ficasse longe de mim. Agora tenho medo do papai, muito medo.
        De repente, ouço alguém chamando pelo papai. É o homem que estava negociando a compra do trator com o papai no dia em que eu apanhei. Mais que depressa eu corro para debaixo da cama. "Meu Deus do céu! O papai vai bater em mim de novo!" A mamãe, então, começa a rir, com os olhos cheios de lágrimas. "Não, Dado. O homem só veio comprar o trator..."

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O som que me desperta

Todos os dias, quando os raios de sol ainda não penetraram pelas frestas da janela, eu ouço um barulho forte, como se alguém estivesse batendo contra alguma coisa. O som penetra em meu sono, fazendo com que meus batimentos se acelerem até que eu acorde, assustado. Ofegante, olho para o lado e vejo que minha esposa Débora ainda dorme, como um anjo. Vasculho o quarto com os olhos e vejo que o som não se trata de um batido na porta. Norteio-me então pela fonte de luz mais próxima, projeto as pernas para fora da cama e me coloco de pé. Rapidamente, e com a devida cautela, caminho sem o chinelo em direção à porta do quarto. Posiciono-me ao lado da porta e consigo identificar que o som vem do corredor. Ao ver que não há ninguém no corredor, começo a caminhar por ele, vagarosamente. Abro a porta do corredor, mas imediatamente identifico que o barulho não vem daquela parte da casa, e sim de um dos quartos. “Meu Deus, o Miguel!” Subitamente, meu coração se acelera novamente, e a cautela dá lugar ao desespero. Corro então em direção ao berço do Miguel. Lá está ele, de olhos abertos, olhando para os ursinhos de seu mobile. Quando me vê, abre um enorme sorriso, projeta as duas pernas para cima e as deixa cair sobre o colchão repetidas vezes. Retribuo o sorriso, emocionado com tanta ternura e inocência. Agora eu sei de onde veio o tal barulho...

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Um dia você vai me agradecer

Querido papai,
     Sei que estas palavras dificilmente chegarão ao senhor, que é avesso a internet e a computador. Na verdade, inúmeras outras pessoas as lerão ao invés do senhor, muitas das quais nós jamais chegaremos a conhecer. De qualquer forma, sinto que elas precisam ser escritas, pois carregá-las comigo tem se tornado um peso que eu não posso suportar.
    Gostaria, então, de iniciar esta carta "virtual" agradecendo-lhe por ser meu pai. Conhecendo hoje as condições em que vim ao mundo, sou capaz de reconhecer quão importante foi a sua presença ao meu lado e da mamãe durante minha criação. Nos últimos 6 meses tenho acordado todas as manhãs para buscar o Miguel em seu berço, e sempre sou recebido com um lindo sorriso inocente, um verdadeiro presente por eu estar ali. Pois bem, papai: sei que devo, quando bebê, ter distribuído vários destes sorrisos para o senhor, mas agora, 35 anos depois, quem lhe sorri é um homem maduro e com qualidades que o senhor ajudou diretamente a desenvolver. Meu sorriso é uma forma de reconhecimento e de gratidão por ter estado sempre conosco todos estes anos, mesmo que tenha estado boa parte do tempo pelas estradas deste Brasil afora lutando para ganhar o nosso sustento.
     Em segundo lugar, gostaria de agradecer-lhe pelo seu imenso amor. Há diversas formas de manifestar o amor, e eu me lembro do senhor manifestando-o de pelo menos uma dúzia delas. Cronologicamente, a primeira manifestação de amor de que tenho lembrança data daquela grande enchente que inundou o rio que passava em frente à nossa casa, lá em Quirinópolis-GO, no final da década de 70. Sei que a chuva danificou uma ponte, que acabou cedendo enquanto a gente passava por ela de trator. O senhor abraçou-me como um grande urso e deixou que suas costas amortecessem a queda, impedindo assim que eu me machucasse, provavelmente de maneira fatal. Além de ser meu protetor, o senhor foi o meu grande amigo durante meus seis primeiros anos de vida. Era com o senhor que eu passava o dia inteiro desde as primeiras horas, seja no seu colo enquanto ia buscar leite no sítio de trator, ou mesmo na roça enquanto o senhor plantava milho, arroz ou soja. Certo dia, porém, o senhor ficou nervoso por eu quase ter estragado a venda daquele trator Valmet que a gente tinha e acabou me aplicando uma surra que eu não merecia. A partir de então eu passei a vê-lo com olhos de medo. Mesmo assim, o senhor insistiu durante toda a minha adolescência que a gente não tem amigos, e que o senhor era o meu único amigo de verdade. Aquela era uma forma muito triste de ver a vida, da qual eu me recusava a compartilhá-la. Hoje eu consigo entender que o senhor só queria me proteger de todas as decepções que viriam daqueles em quem tanto confiei, mas minha tristeza de reconhecer que o senhor tinha razão não é tão grande quanto minha gratidão de saber que sempre pude contar contigo quando precisasse.
     Além de amigo e protetor, o senhor foi - e graças a Deus ainda é - o meu grande mestre. "Você precisa aprender a fazer de tudo, mesmo que nunca vá fazê-lo". Com esta frase aparentemente contraditória o senhor procurava convencer-me de que eu precisava lavar e encerar seu caminhão, lavar a sua lona, limpar o quintal de casa e a passar as férias escolares de janeiro pintando as chapas da carroceria, o chassis e os pára-barros do seu caminhão. Enquanto meus colegas passavam os sábados e os domingos jogando e se divertindo no clube, a uma esquina de casa, lá estava eu colocando a mão na massa, sob o sol quente, sem entender o porquê. "Um homem não pode ter preguiça", "Faça bem feito e fará uma única vez" e "O  nome de um homem vale mais que o seu dinheiro" são algumas das frases chatas, porém sábias que o senhor sempre disse, e que tão importantes foram para a moldagem do meu caráter e para que eu me tornasse um homem de bem.
     Por mais estranho que isso possa parecer, eu tenho que agradecê-lo por ter sido tantas e tantas vezes meu maior inimigo. Ao invés de motivar-me, o senhor sempre dizia que eu era mole e que nunca ia ser ninguém. Ao invés de paparicar-me com elogios - mesmo que, de fato, eu realmente os merecesse... - o senhor limitava-se a elogiar-me para os outros, sem que eu jamais soubesse o que realmente achava de mim. Isso fez com que eu me tornasse uma pessoa humilde, sempre disposta a melhorar. "Está bom, mas pode melhorar", era o que o senhor dizia quando assinava as minhas provas de Matemática e de Português, ignorando quando eu lhe dizia que elas eram as maiores notas da turma. Eu bem me lembro de suas palavras quando fui selecionado para servir o tiro-de-guerra: "Lerdo do jeito que você é, você não vai conseguir arranjar emprego nunca! No tiro-de-guerra o sargento vai te chutar todos os dias, quem sabe você não vira homem?". O senhor não se importava com o fato de eu ter sido o melhor aluno da turma de formandos no colégio, em 1990, ou de ter sido o orador da turma, nem tampouco de ter sido o melhor aluno dentre os formandos em contabilidade de 1993. E o fato de o senhor não se importar também fez com que eu não me importasse e procurasse sempre alcançar algo que lhe chamasse a atenção... Se não fosse pelo senhor, eu poderia ter me tornado uma criatura arrogante e cheia de si diante de tantas vitórias. Papai, as palavras do senhor, e também a falta delas, sempre mexiam comigo. Quando isso acontecia, eu dizia pra mim mesmo: "Eu vou provar para ele que eu consigo." Graças a estes desafios, eu acabei me tornando forte e determinado. E contrariando o que o senhor previu, fui homenageado na formatura do tiro-de-guerra com honra ao mérito por ser o atirador mais disciplinado, dedicado e, ainda, o mais rápido para desmontar o fuzil. Isso tudo, papai, graças ao fato do senhor ser o meu melhor (e talvez único...) inimigo.
     É claro que, como todo ser humano, o senhor demonstrou também ser imperfeito e muitas vezes me deixou muito triste. Além da surra injusta que me aplicou, o senhor deu-me uma resposta aos 8 anos que acabou mudando minha personalidade pelo resto da vida. Quando perguntei-lhe por que meus amigos de classe estavam namorando e eu não, o senhor respondeu-me, entre risos: "Uai, porque você é feio, ora!" Hoje eu entendo que aquilo foi dito em tom de brincadeira, mas eu não tinha idade suficiente para entender que se tratava de uma. Outro dia assisti na internet a uma palestra que o fundador da Apple, Stevie Jobbs, proferiu para formandos da Universidade de Stanford. Em um dos pontos mais belos da palestra, ele menciona que a gente só entende a vida olhando para trás e conectando os pontos. Pois bem. Vendo hoje o rumo que minha vida seguiu e "conectando os pontos", eu lhe sou grato também por ter dito aquilo. Sem querer, aquelas palavras me tornaram um jovem diferente e introspectivo, cuja baixa auto-estima não deixou outra alternativa que não fosse dedicar-se aos livros. Dez anos depois eu recuperaria minha auto-estima através de um tratamento em um renomado psicólogo, em sessões caríssimas que o senhor pagou com o suor de seu trabalho. Foi a redenção para qualquer exagero que o senhor tenha cometido em minha educação. Antes disso, aos 12 anos, o senhor também desembolsara um bom dinheiro pra que eu me tratasse de meu problema na coluna, pagando aulas de natação e sessões de fisioterapia.
     Devo confessar ao senhor que algumas de nossas melhores conversas têm acontecido desde que me casei. Em uma delas, o senhor disse algo que me deixou pensativo. "Você é o que eu devia ter sido". Talvez o senhor tivesse chegado mais longe se tivesse um pai tão bom e dedicado quanto o que eu tive. Por outro lado, aquelas palavras tristes, ditas enquanto o senhor olhava para o chão, serviram como elogio. A única conclusão a que chego é que se eu fosse um filho do qual o senhor não se orgulhasse, o senhor jamais teria dito aquelas palavras.
     Se algum dia o senhor ler essas palavras, vai se lembrar que eu só aprendi a escrevê-las porque o senhor decidiu mudar-se da roça para a cidade. Caso contrário, eu teria crescido entre vacas e cavalos, ordenhando vacas e as apartando, ou mesmo teria me tornado um excelente tratorista. Contrariando o que muitos pais pensam em relação a seus filhos, o senhor nunca quis que eu seguisse a mesma profissão que a sua. E foi justamente por isso que o senhor me mostrava o lado duro de ser motorista de caminhão.  "Um orgulho eu tenho: meu filho não virou motorista", diz sempre o senhor a todo mundo. Mais uma vez o senhor tem razão: não fosse pela sua insistência, eu não teria sequer prestado vestibular para Química em uma universidade privada. Eu, que tanto queria estudar em uma universidade pública, poderia ter sequer ido para uma universidade não fosse por aquela conversa em janeiro de 1995, na oficina do tio "Bichim", enquanto pintávamos as chapas da carroceria do seu caminhão.
     Dentre todas as coisas que o senhor dizia quando eu era adolescente, uma das que mais me irritava era: "Um dia você vai me agradecer." Pois é, papai, esse dia chegou. Mas ao invés de ficar irritado ou contrariado pelo fato de o senhor ter novamente razão, preferi escrever estas palavras para manifestar não apenas a minha gratidão ou o quanto sou agradecido pelo senhor, mas também para demonstrar o quanto eu o amo. Tê-lo como pai é um privilégio, é uma dádiva de Deus. O Miguel, com certeza, tem no senhor um grande avô.
     Ao escrever estas palavras, na esperança de que eu fosse eliminar um peso dos ombros como filho, dou-me conta de que, como pai, tenho um outro ainda maior: ser para o Miguel um pai tão bom quanto o senhor foi para mim...

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Quem precisa de um blue ray?

     Quinta-feira, 13 de outubro. 16h. Estamos caminhando em direção à saída do Novo Shopping Ribeirão Preto. Débora e eu estamos exaustos. Apesar de seus ombros empinados, percebo que ela não vê a hora de deitar no banco do carro e tirar um cochilo durante a viagem de volta. Quanto a mim, são minhas pernas que estão me matando. Penso então em quão equivocado eu estava ao escolher um sapato de sola baixa ao invés de um tênis confortável pra vir passear aqui. Apesar do cansaço, tenho um súbito ataque de consumismo. “Amor, vou entrar aqui na Ricardo Eletro pra comprar um Blue Ray rapidinho, tá?”. A reação dela já era esperada. “Como é que é? Mas você vai comprar um Blue Ray pra quê?” A uma pergunta esperada, dou uma resposta preparada: “Quando a gente assiste a um Blue Ray, a resolução da imagem fica perfeita.” Infelizmente para mim, ela não parece estar convencida. “Mas esse aparelho de Blue Ray é caro, não é? A gente está precisando disso agora?” Embora ela esteja com a razão, é tarde demais: o consumismo tomou conta deste pobre mortal ao ponto de me conformar em ter que utilizar o crédito para comprar o maldito/bendito aparelho. “Por favor, meu anjo, sente-se aqui neste banco e espere um minutinho. Eu não demoro É rapidinho!.” A tática de usar os diminutivos enquanto se conversa com uma mulher é infalível! E dizendo isso, sigo a passos largos em direção à loja. De longe avisto o lugar na prateleira onde ficam os reprodutores de DVD e de Blue Ray e sigo em direção a eles. No caminho, entretanto, sou abordado por um dos vendedores. “Boa tarde. Posso ajudar o senhor?”. O vendedor é extremamente solítico e atencioso. Quando digo que quero um aparelho de blue ray, ele me convida para ver no sistema os modelos disponíveis. “Vem cá um minuto, por favor.” Sento-me então à sua frente, e ele à frente de um monitor. “Nós temos modelos da LG e da Phillips. O senhor tem alguma preferência?”, pergunta o vendedor com a segurança de quem sabe o que está realmente me falando. “Eu quero um Phillips. Tem no estoque?’ Ele balança a cabeça e me pede, mais uma vez, para acompanha-lo. Sigo então por entre as mercadorias e chego até a porta do estoque. Enquanto o rapaz vai buscar o aparelho, faço-lhe a pergunta que todo mundo gostaria de saber: “Por que a loja da Ricardo Eletro lá em São Joaquim da Barra fechou?” Meio sem jeito, o vendedor diz algo que não deveria: “Bom, eu ouvi falar que é porque lá não vendia bem, que os vendedores de lá eram meio fracos...” Esboço uma cara de quem entendeu. Lembro-me então das duas ocasiões em que entrei em lojas desta rede. Na primeira delas, nesta mesma unidade, fiquei mais de 50 min em frente ao caixa aguardando o sistema voltar. Na segunda, na referida loja em São Joaquim da Barra, quando a Débora quis comprar uma sanduicheira, a vendedora não quis negociar o preço da concorrência. “Ah, se o Ricardo ficar sabendo disso...”, disse eu em alusão às propagandas que o dono da rede faz na televisão.
Em menos de um minuto o rapaz volta com uma embalagem nas mãos contendo o aparelho de Blue Ray que está próximo de ser meu. “Amigo, você divide o preço em duas vezes? Eu te pago uma à vista e a outra você coloca no crédito, pode ser?” Ele concorda. Seguimos então para o computador, onde ele precisa fechar a compra. “Bom, o preço dele é R$499,00. Dá pra te fazer R$400,00”. Assustado com o preço, peço licença, e ali mesmo em sua frente faço uma ligação para o meu amigo Necrão pedindo informações sobre um aparelho de Blue Ray que ele comprara tempos atrás. Direciono então minha conversa com ele para que o vendedor perceba que seu produto está acima do preço. Após algumas tentativas, o preço fica fechado em R$360,00.
Enquanto o vendedor segue preenchendo um sem número de campos, o celular toca. “Amor, você já está terminando?” Respondo-lhe que estou terminando. A batalha que se segue entre o vendedor e o sistema é desleal. São várias páginas que se fecham, outras que travam e, por fim, algumas que não aceitam o preço que ele colocou. Mais de 30min depois, levanto-me e dirijo-me até a Débora, que se levanta quando me vê. “Ué, cadê o aparelho?” Explico-lhe que o sistema está dando problemas, peço-lhe para esperar um pouco mais e volto para fechar o negócio com o vendedor. O que presencio, no entanto, é uma cena constrangedora: o vendedor, após mais de 20min de tentativas, chama o gerente, que tem uma explicação clássica para a situação: “O sistema travou”. O vendedor respira fundo, e na esperança de efetuar sua primeira venda da semana, reinicia o preenchimento de todos campos que havia preenchido até aquele momento. Eis que após tentar confirmar a venda, o sistema não aceita novamente os dados. Paciente, assisto à mesma cena umas quatro vezes. Após uma hora e dez minutos, levanto-me da cadeira e, desapontado, coloco a mão no ombro daquele vendedor desesperado, vítima do(s) sistema(s) e me despeço. “Meu amigo, desculpe-me, mas eu tenho que ir. Meu tempo se esgotou”. Ele balança a cabeça, derrotado, sem conseguir pronunciar nenhuma palavra. Quando a Débora me vê chegando de mãos abanando, fica curiosa. “Cadê o aparelho? Esperei tanto tempo e você não comprou?” De ombros caídos, só há uma resposta a dar-lhe: “Você tinha razão: eu não preciso de um aparelho de Blue Ray...”

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O dia em que doei meu carro


Domingo, 21 de agosto. 9h. Estamos em casa quebrando o desjejum. Débora à minha frente, Miguel ao nosso lado, acomodado em seu carrinho de bebê. Olha-nos o tempo inteiro, às vezes para mim, às vezes para a Débora. Parece encantado por estar vivo. Fixo o olhar nele e me emociono. Pego-o então no colo e o abraço fortemente contra o peito, beijando-lhe várias vezes o rostinho, cuja pele ainda não experimentou os danos causados pelos raios ultravioleta. Subitamente nosso momento pai-filho é quebrado pelo toque do telefone. É minha mãe dizendo que há um homem interessado em comprar o carro, que está lá vendo o carro mas que está com pressa. “Desce aqui, depressa!”, pede ela, com o velho tom de mãe que acha que sempre vai mandar no seu filho. Contrariado, devolvo o Miguel ao carrinho, corro para o banheiro, escovo os dentes, pego a chave do carro e parto.
Enquanto vou vencendo as esquinas em direção à casa de meus pais, vou me lembrando de minhas experiências com carro que coloquei à venda. Trata-se de um Gol CL 1.6, ano 1989, à álcool. Comprei-o do Agnaldo, um vendedor de carros amigo do papai, em 1998, meu último ano na faculdade e no almoxarifado da Usina Alta Mogiana. Como sempre, o papai fez a maior força pra eu comprá-lo, chegando inclusive a colocar a mobilete de minha irmã no negócio pra completar o dinheiro. Minha irmã, na época com 18 anos, ficou irritadíssima com ele, e de nada adiantou devolver-lhe o dinheiro naquele ano. Assim que o adquiri, fiz um baita sacrifício para comprar umas rodas de liga leve para deixá-lo com uma aparência mais arrojada. Se por um lado eu fazia de tudo para deixá-lo como eu queria, por outro o universo parecia conspirar para que as coisas sempre dessem errado. Por exemplo: em 2001 um rapaz embriagado bateu na traseira dele enquanto estava estacionado em frente à casa da vovó Maria. Ao ouvirmos um forte barulho enquanto almoçávamos, corremos em direção ao portão. Ao abri-lo, avistamos um rapaz aparentando entre 30 e 40 anos, com a testa sangrando, completamente embriagado, conduzindo uma criança no banco traseiro de um Fusca. A colisão projetara meu carro cerca de 2m à frente... O prejuízo, na época em torno de R$200,00, acabou ficando por minha conta. Quinze dias depois algum malandro arrombou-o enquanto estava estacionado em frente à casa da Débora, arrancou o tampão traseiro com os auto-falantes e os levou. A partir daquele dia eu fiquei desiludido e passei a preocupar-me apenas com a manutenção mecânica. Em 2003 eu derreti a junta do cabeçote do motor pela primeira vez em uma de minhas viagens para Franca. Na época, convidei meu primo Frederico para ir comigo. Enquanto falava com ele, que estava do outro lado do muro, fui completando a água do radiador. O fato é que eu acabei me esquecendo de colocar a tampa do reservatório quando terminei... Acabei ficando na estrada, e pra não perder a aula, deixei o carro no acostamento e cheguei ao destino de carona com um ônibus de estudante. No mês seguinte, novamente indo para Franca com a Débora, o cabeçote do radiador estourou, fazendo com que eu quase “fundisse” o motor novamente. Foi também com ele que viajamos para nossa lua-de-mel, em Poços de Caldas. Era ele que eu dirigia quando atropelei um motoqueiro a quatro esquinas de casa há 3 anos. E foi também com ele que viajei para Franca durante seis anos e no qual Débora e eu dávamos voltas e mais voltas pela cidade na época em que éramos namorados. Foram 13 anos de história e mais de 300 mil quilômetros rodados.
Quando finalmente chego à casa de meus pais, avisto um homem negro sentado no banco de madeira em frente ao meu carro. Ele sorri e me cumprimenta. Parece ser boa pessoa. Aos poucos vou sabendo sua história: assim como meu pai, é motorista e já teve um carro parecido com o que estou vendendo, mas que precisou desfazer-se dele para comprar seu caminhão. Ao que parece, sua esposa recebeu uma herança e agora quer comprar um carro para sua filha. “Vamos fazer o seguinte: eu te dou R$5.000,00 e você deixa o som e as rodas”, diz ele para começarmos a conversa. Esboço um sorriso, indignado. “Eu estava pensando em pedir R$7.000,00 e deixar só as rodas.” Agora é ele quem ri. Começo então a argumentar: “Veja só: é um carro muito conservado. Os bancos são do Gol moderno e o alternador é de 105 ampéres”, explico-lhe, tentando valorizar o produto. “É... mas a pintura do teto ta um pouco judiada...”, retruca ele. Após pensar, ele faz uma proposta: “Vamos fazer o seguinte: eu pago R$6.000,00 à vista e você deixa a fiação para o som e coloca uma bateria nova”. Fixo o olhar para um ponto qualquer do chão, procurando uma resposta. É um valor muito abaixo do que eu queria... Eis que o bom senso me abandona e eu sou tomado pela emoção. Dou-me conta de que estou vendendo um carro que não estou mais usando, que está parado debaixo da mangueira da casa de meus pais, sem bateria, e que sou privilegiado por ter dois carros. O homem que se candidatou a comprá-lo é um homem trabalhador, que provavelmente está passando pelas mesmas dificuldades que meu pai. Por um instante sinto-me o pior dos homens, como se quisesse tirar vantagem de um pai de família. Meu coração então amolece e eu aceito vender o carro por R$6.000,00.
Sábado, 27 de agosto. 9h30min. Estou saindo da casa da mamãe quando avisto o meu antigo carro, agora com seu novo proprietário ao volante. Está com sua esposa, que se dirige a mim pedindo gentilmente o xerox do documento para poderem pagar o seguro obrigatório. “Claro! Por favor, me sigam até o Xerox. Vou providenciar isso já!” Cinco minutos depois eu entrego a cópia do IPVA nas mãos do novo proprietário, com um sorriso no rosto. No entanto, o homem naquele carro parece ser outro. A expressão de homem bom parece ter desaparecido e dado lugar a um homem com humor ácido. “Se eu soubesse que o seguro venceria agora, não seria eu quem iria pagar”. Por uma fração de segundos meu sangue ferve. Ora, eu abri mão das rodas de liga leve que tanto gostava e ainda coloquei uma bateria novinha! O carro está com a mecânica impecável, com bancos novos e lataria praticamente sem podres! E eu entreguei o carro a ele por um preço muito abaixo do que eu queria, para uma pessoa que agora demonstra não apenas ingratidão, mas também um tom de quem quis realmente levar vantagem. “Pois se eu soubesse que você era assim, você não estaria sentado nesta banco, meu chapa!”, é o que meus pensamentos me impulsionam a dizer-lhe. Mas o bom senso, aquele mesmo que me abandonou quando vendi o carro, me aparece novamente. Dou então um tapa em seus ombros, ofereço-lhe um sorriso falso e dou-lhe as costas. “Boa sorte com seu carro novo.”