domingo, 13 de fevereiro de 2011

Lembranças da vovó Lourdes


Foi bastante doloroso escrever as palavras que você está lendo. Afinal, é muito complicado lidar com lembranças e reconhecer que não se pode alterar o roteiro de um filme depois que ele se acaba.
Minha avó Lourdes partiu no dia 25 de janeiro de 2011, por volta das 8h da manhã. Por mais que ela tenha lutado, não conseguiu vencer sua luta contra o câncer. Assim como aconteceu com o meu avô Valter, ela sofreu muito nos seus últimos momentos de vida.
Quando a visitei no hospital pela última vez, ela estava inconsciente e respirando com dificuldade, mesmo com o auxílio de aparelhos. Estávamos no quarto apenas ela, eu e a Val, moça que ficava cuidando dela. Faltava pouco para o término do horário de visitas e o sol já havia se posto. Na penumbra daquele quarto, eu olhei para minha avó e passei as mãos pelos seus cabelos pela última vez. Beije-lhe a testa e ao seu ouvido pedi perdão por não ter sido um neto melhor, por não ter ido visitá-la mais vezes, não importam quais tenham sido os motivos. Entre lágrimas, abracei-a pela primeira vez em meus quase 35 anos de vida. É muito triste pensar que meu primeiro abraço foi na última vez em que a vi...
Em meio a tanta dor, veio a dúvida: por que não fui mais próximo dela? Há várias teorias, mas algumas delas envolvem questões familiares que se originaram antes mesmo do casamento dos meus pais. Vou, portanto, evitar de listá-las aqui e limitar-me a registrar apenas as boas lembranças que dela guardarei.
Minha avó Lourdes sempre foi uma mulher vaidosa. Lembro-me que quando era criança ela usava o que meu pai chamava de “bobs” no cabelo. Alguns chamavam de “permanente”. Quando ia com o papai na casa dela, o papai dizia: “Ah, não, dona Lourdes, a senhora fez desanima-marido de novo?” Eu achava aquilo engraçado. Fisicamente, ela tinha mais ou menos a mesma estatura de minha mãe. Quase sempre estava usando óculos e tinha um forte aperto de mãos, mesmo nos seus últimos dias. Na maioria das vezes em que me abraçava, dava um tapinha (muito dolorido, por sinal...), o que me assustava um pouco quando eu era criança. Lembro com carinho de suas pernas levemente arqueadas, que me faziam reconhecê-la de longe quando virava a esquina de casa.
Vovó Lourdes não tinha um hobbie, como tricotar ou qualquer outra coisa que lhe preenchesse o tempo. Quase sempre estava preocupada com os filhos, com o vovô Valter Crotti ou com o tio Antônio. Como cozinheira, os pratos que mais me deliciavam eram o macarrão, a abobrinha refogada e a maionese (essa era imbatível). Nas festas de fim de ano, fazia questão de preparar uma enorme salada de frutas e distribuir para os filhos. Nesta salada ela usava as uvas de sua parreira, e justamente por isso não gostava que ficássemos cortando os cachos de uva antes da hora. Lá havia também uma jaboticabeira cujas jaboticabas eram deliciosas e em cuja sombra eu, Frederico, minha irmã e o Fernando jogávamos Banco Imobiliário na época em que a tia Vânia ainda morava lá.
Uma das coisas que a vovó mais gostava era reunir seus filhos no fim de ano. Para isso, comprou uma enorme mesa (diz ela que era uma mesa de 12 apóstolos), onde os filhos e suas famílias poderiam se sentar. Infelizmente, por desavenças entre eles, nunca os cinco filhos estiveram sentados à mesa juntos. Tanto ela quanto meu avô partiram sem ter o prazer de vê-los todos reunidos. E como é natural em famílias em que os pais partem, a probabilidade disso acontecer agora é praticamente nula.
Quando fui comunicar-lhe que ia me casar, ela me disse: “Casar para quê? Deixa disso, fica ajudando o seu pai.” Eu ri e disse-lhe que mesmo após o casamento eu não deixaria de ajudar o papai. Infelizmente ela não compareceu ao meu casamento, pois na época meu avô estava muito adoecido. Por outro lado, tenho muitas lembranças dela no sítio da família em Quirinópolis. O papai diz que sua vontade era se mudar para lá com o meu avô e viver ao lado dele e do tio Antônio. Por ironia do destino, os dois partiram antes dela... No curral, adorava andar por entre suas vacas, ou mesmo pelos pastos de sua propriedade.
Minhas melhores e mais longas conversas com ela aconteceram no ano passado, nos meses que antecederam sua partida. Na última, em especial, recordo-me de ter dito a ela que éramos como carros cujas peças começam a falhar, mas que não podem ser substituídas. Foi assim que consegui dela seu último sorriso.
A partida de minha avó representou uma perda inestimável para todos da família, especialmente seus filhos. O papai, por exemplo, tão acostumado a ligar para ela, já discou várias vezes o seu número... Desde então ele vive triste, olhando para o céu e dizendo todas as vezes que o vejo: “Estou com saudade da minha mãe...”. Para mim a partida de minha avó o fim de muita coisa, menos das lembranças dos momentos que tenho dela. Espero que em outras vidas (ou reencarnações) nós possamos nos reencontrar e sermos mais próximos do que fomos nesta.

Um comentário:

Adriana Pucci disse...

Lindo Texto! chorei ao ler inclusive ;)