sábado, 26 de março de 2011

Caminhoneiros


O termo “caminhoneiro” que aqui utilizo refere-se àquele que  ganha  seu sustento ao volante. Minha “inspiração” para o assunto  - e coloco aqui as aspas por tratar-se mais uma vontade do que uma inspiração propriamente dita – vem do fato de que muitos de minha família são caminhoneiros, a começar pelo meu pai e meu tio. Além deles, meu avô e meu tio avô também eram caminhoneiros, e assim permaneceram até os últimos anos de suas vidas.
Conta o meu pai que ele tornou-se caminhoneiro por influência (não sei se positiva, negativa ou se por necessidade) de meu avô. Já aos 16 anos meu pai transportava mercadorias de São Joaquim da Barra para São Paulo conduzindo o caminhão de meu avô. Sem possuir carteira de habilitação, a saída que ele encontrou para poder trabalhar e, assim, tratar de seus irmãos mais novos, foi viajar com um senhor já de idade ao seu lado, que assumia a direção quando se aproximavam dos postos da polícia rodoviária. A “iniciação” de meu pai ao volante se dera uns dois anos antes, na própria cidade de São Paulo. “Preocupe-se com o que está na sua frente. Esqueça quem vem atrás!”, disse meu avô a ele naquela ocasião.
Ao casar-se, meu pai mudou-se para Quirinópolis-GO, onde deixou o volante do caminhão para tornar-se agricultor. Foram os seis melhores anos de minha vida ao lado dele! Mas a situação financeira piorou, e em 1982 ele retornou, contrariado, ao volante. Mudamo-nos para São Joaquim da Barra-SP, onde vivemos até hoje. No início ele passava a semana estradas afora, mas retornava nos fins de semana. Devido à profissão de meu pai, não pude desfrutar de sua presença a maior parte de minha adolecência. Uma pena.
Tenho lembranças de algumas viagens que fiz ao lado de meu pai na boléia de seu caminhão, um Mercedez Bens modelo 2013 amarelo (que era amarelo quando ele comprou de meu tio). Fomos algumas vezes para Passos-MG. Lembro-me das nuvens escuras daqueles dias. A boléia parecia um lugar confortável naquela época. Outra viagem marcante foi a que fizemos para Brasília-DF. Fiquei uns três ou quatro dias sem tomar banho! Lembro-me que no dia em que finalmente tomamos banho fomos jantar ele, meu tio Wágner e eu em uma churrascaria em Cristalina-GO. Por anos eu guardei a camiseta que usei naquela noite... Eis que ao retomarmos nosso caminho na estrada um dos pneus do caminhão de meu pai estourou, justamente quando ele me perguntava o que significava a palavra “dream” pra verificar se eu estava aprendendo alguma coisa na escola. Ele também levou-me pra conhecer o porto de Santos pra que eu pudesse ver o mar pela primeira vez. Mas o porto estava fechado e eu acabei conhecendo apenas a poluição da cidade de Cubatão-SP. Eu só viria a conhecer o mar quase 15 anos depois, em 2004, mesmo ano em que entrei em um avião pela primeira vez. No entanto, o que mais me marcou de todas essas viagens foi a forma como o meu pai me tratava. Ele sempre fez questão de mostrar que não era um homem satisfeito com sua profissão, e agia sempre de forma a me desestimular a segui-la. “Filho, eu quero que você estude. Depois que fizer a faculdade, se você quiser pode ser lixeiro, palhaço, o que você quiser. Eu só não quero que você seja caminhoneiro nem polícia.”, dizia ele. Anos depois eu entenderia que sua aversão à polícia devia-se às propinas que alguns policiais rodoviários exigiam dele para não multá-lo. De certa forma, meu pai sempre procurou evitar que eu passasse pelo mesmo que ele. Em nossas viagens ele me fazia dormir junto à carga do caminhão, sob o sereno. Certa vez dormi sobre uma sacaria de adubo. Quando acordei, parecia que tinha sido surrado. “Isso é pra você ver como o seu pai sofre”.
Em períodos de safra, ou desde que as lavouras de soja e milho deram lugares às inúteis lavouras de cana-de-açúcar, meu pai chegava a passar quase 70 dias longe de casa. Quando acordava, a primeira coisa que eu pedia a Deus em minhas orações era para que Ele o protegesse de todos os perigos das estradas. Eu sempre tive medo de que ele não voltasse...
No ano de 2005 meu pai teve um câncer no rim. Fez uma operação para retirada do tumor, e após esta operação deveria ficar de repouso durante três meses. No entanto, quando foi visitar meus avós, deparou-se com meu avô caído ao chão expelindo sangue pela boca. Desesperado, abaixou-se, levantou meu avô, colocou-o em seus braços e o levou para o hospital. Sua atitude louvável rendeu-lhe uma érnia nos pontos da cirurgia, que hoje o impede de dirigir o caminhão por longas distâncias.  Hoje, enfim, ele dorme em casa todas as noites, mas eu e minha irmã crescemos e já não estamos mais lá pra poder contar com ele pra nos defender.
Hoje também durmo em minha casa todos os dias e posso cuidar de minha esposa e de meu filho, que deve vir ao mundo dentro de um mês, porém em minhas viagens para o trabalho percorro quase 45000 km por ano. Meu pai conseguiu que eu estudasse, mas não conseguiu evitar que eu ganhasse as estradas todos os dias. Em outras palavras, ambém me tornei uma espécie de “caminhoneiro”. 
Hoje em dia a profissão de “caminhoneiro” está em baixa e é pouco valorizada. Os donos de caminhão sequer ganham o suficiente para a manutenção de seus veículos, o que fica evidente pelo estado sucateado em que a maioria deles se encontra. As transportadoras “engoliram” os caminhoneiros autônomos, como o meu pai e meu tio, e como foram meu avô e meu tio-avô. Não há mais espaço para caminhões pequenos, e os que possuem carretas também reclamam das despesas comparativamente maiores. Aqueles que levam o país sobre suas rodas não mais recebem da sociedade o devido reconhecimento. A eles eu dedico este post e ofereço todo o meu respeito e minha consideração.

Um comentário:

Marcelo Cruz disse...

Crotti, você escreve muito bem. As palavras ganham vida quando são usadas por você. Um abraço.