quinta-feira, 14 de abril de 2011

À espera de um pequeno milagre


Certa vez, anos atrás, eu sonhei com você. Eu não pude ver o seu rosto, mas sabia que era você. Na verdade, eu mais que sabia: eu sentia. Lembro-me de ter acordado de manhã com os olhos úmidos. O coração parecia ter bloqueado a garganta. Por mais estranho que possa lhe parecer, eu sorria.
Os dias que se sucederam foram maravilhosos. “Você está diferente, parece mais feliz”, diziam aqueles com quem convivo diariamente. Não havia um obstáculo sequer que eu não quisesse vencer por você. “Quero que tenha orgulho de mim por tudo o que eu fizer”, dizia para mim mesmo.
Nas semanas que se seguiram eu esperei ansiosamente por um novo sonho. Por vezes tive vontade de dormir durante o dia para que você surgisse novamente em meus sonhos. Eu achava que por ser um “bom moço” eu merecesse pelo menos isso, e acreditava que se isso acontecesse novamente, nós realmente iríamos nos encontrar algum dia. 
Os meses seguintes foram particularmente tristes. As lembranças daquele sonho foram se dissipando, e minhas esperanças de que aquele divino sonho algum dia tornasse realidade foram sendo minadas. O mundo ao meu redor nunca me pareceu tão triste. “Não se pode sonhar com algo que não se pode ter.”, tentava, em vão, convencer-me. Mesmo preenchido, eu me sentia vazio. Eu adormecia na doce esperança de sonhar com você sorrindo, correndo em minha direção com os braços abertos.
Dois anos repletos de tristeza se passaram. As vitórias em minha vida profissional foram se acumulando. Lembro-me de ter recebido homenagens das turmas de formandos daquela época. Ah, as formaturas... Eu tanto pedi a Deus para que você viesse para ouvir algum dia um de meus discursos saudosistas. Eu tanto sonhei em participar de uma formatura com você...
Uma das coisas que aprendi com você naquele sonho, cujos detalhes foram aos poucos se perdendo em minha memória cansada, foi que a felicidade não deve ser depositada em alguém ou em alguma coisa que tanto desejamos, mas que não faz parte de nossa realidade. E assim continuei vivendo, procurando fazer o meu melhor, como sempre fiz. Tentei ser um bom profissional. Tentei ser um bom filho. Tentei ser um bom amigo. Tentei ser um bom esposo. E muitas vezes eu consegui. Mas havia algo que nada nem ninguém no mundo poderia me proporcionar. Só você.
Quando a tristeza e um enorme sentimento de impotência tomavam conta de mim, você novamente surgiu em meus sonhos. “É só mais um sonho, não vou me agarrar a ele novamente”, tentava, em vão, confortar-me. Alguns meses depois eu pude sentir seu primeiro chute na barriga de sua mamãe.  No primeiro exame por ultrassom, pude ver suas pequenas mãos perfeitas, seus pequenos dedos. Em um  outro, pude ver o seu rosto. Você dormia como um anjo. O pequeno anjo que surgiu em meus sonhos estava dormindo na barriga de sua mamãe. Talvez esteja sonhando comigo, seu papai, que tanto tem esperado por você, meu pequeno Miguel...

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