domingo, 10 de abril de 2011

Quando o olho é maior que a boca


1996. Domingo, 20h. Estou cercado, não tenho para onde ir. Sob os olhares de meu pai, minha mãe e Débora, estou sentado à mesa olhando para o chão. Estão todos preocupados comigo. Na verdade, nos últimos minutos tenho ouvido tantos sermões dos três que já nem sei se estão preocupados com o meu estado ou com o pecado que cometi. Ora, que atire a primeira pedra aquele de família pobre que há tempos não come um delicioso rocambole de carne feito pela sua avó! Digo “um" por ter comido o rocambole praticamente sozinho. A situação está tensa. Como disse meu pai, “O negócio não vai nem pra baixo, nem pra cima”. Meu estômago dói muito. Após muito pensar, ele abre sua bolsa de remédios e tira o miraculoso “Gotas do Zeca”. Tomo o remédio da mão dele e leio o rótulo, de onde eu concluo que se trata de uma mistura de raízes. “Papai, eu não vou beber isso aí! Olha o cheiro desse tróço!” Ele arqueia as sobrancelhas. “Você quer melhorar ou não quer?” Minha mãe então enche uma xícara de água e pinga umas cinqüenta gotas do Zeca. Aperto o nariz com os dedos, pra não sentir o cheiro, e em um único gole acabo esvaziando a xícara. Ao contrário do que o meu pai pensava, o efeito não foi imediato. Acho que nem o Zeca vai resolver o meu problema.
23h. Acabo de deixar a Débora em sua casa. Despeço-me rapidamente. Sinto um aperto no estômago. Preciso voltar pra casa, seja lá o que for. Dirijo o mais rápido que posso pela rua mais movimentada da cidade. Meu estômago parece inquieto. Acho que vou vomitar. “Pelo amor de Deus! Vomitar no meio da rua, não!” Aperto o pé no acelerador, mas a impressão que tenho é a de que quanto mais eu piso, mais o estômago revira. De repente, vomito pedaços do rocambole que almocei saem com o carro ainda em movimento. Tento parar, mas acabo abrindo a porta com o carro ainda em movimento. A segunda remessa de rocambole acaba atingindo a porta do carro. Com o carro parado vem a terceira, a quarta e, por fim, a quinta “remessa”. É isso que acontece quando se tem o olho maior que a boca. O cheiro insuportável que toma conta do carro certamente não me deixará esquecer disso tão cedo.

Um comentário:

Rodrigo C. S. V. disse...

Bicho, Sexta-feira é dia de rocambole de carne no Veloso. Vou ter que mudar para o JK...Muito obrigado....