domingo, 15 de maio de 2011

Meu querido filho - parte 1


Querido filho,
Esta é a primeira mensagem que lhe escrevo. Faz apenas 5 dias que você veio ao mundo, então eu sei que levará anos pra que você seja capaz de lê-la e de entender o amor com que essas palavras foram escritas. Quando isso acontecer, provavelmente você já estará na adolescência e eu estarei me aproximando dos cinqüenta anos. Já não terei a mesma virilidade de hoje – que, aliás, já não é a mesma de anos atrás - mas se você tiver se tornado o filho que tanto idealizei, certamente entenderá que essas palavras foram escritas nos dias mais felizes que vivi até então – os seus primeiros dias de vida.
A primeira vez que lhe peguei nos braços foi um momento mágico. Eu estava apreensivo, muito preocupado com sua mamãe. A pressão dela subira antes de ir para a sala de cirurgia. Ela sentiu muito medo de morrer e de não poder ver você. Na verdade, eu também senti. E foi após 40 minutos de espera, às 12h22min do dia 10 de maio, que a Dra. Fabiana surgiu com você nos braços. “Quem é o pai do Miguel?”, perguntou ela. Vovô Altair e vovó Carminha, que também estavam na sala de espera, mais que depressa correram para vê-lo, e o fizeram antes de mim. “Ele é lindo! Olha, ele está olhando para nós!”, disseram eles. “Vai, filho, pegue ele nos braços”. Preocupado com sua mamãe, e ao mesmo tempo emocionado com o seu olhar de anjo, eu tomei você em meus braços sem saber o que dizer. Você ficou me olhando com aqueles pequenos olhos azuis (embora eu soubesse que não estava enxergando perfeitamente...) e eu, pela primeira vez em muitos anos, fiquei sem saber o que dizer. Só não sei como tive forças para me manter de pé, tamanha a felicidade que você me trouxe naquele instante.
Sua mamãe travou uma dura batalha pra você vir ao mundo. Ela se cuidou como nunca durante as 39 semanas e 4 dias de espera. Cuidou da alimentação, evitou momentos de estresse e procurou instruir-se ao máximo pra poder cuidar bem de você. Todas as noites ela colocava uma música clássica no Ipod (quando for ler este texto você mal saberá o que terá sido um Ipod...) pra você dormir. Como você era grande e não estava na posição correta, os médicos tiveram que cortar a barriguinha de sua mamãe pra que você pudesse vir ao mundo. Sua mamãe perdeu muito sangue, sentiu muita dor, e por dias mal conseguiu sair da cama. A cicatriz da cirurgia – a que eu prefiro chamar de “marca de uma batalha vencida pelo amor” – estará com ela para sempre. Por isso, meu filho, quando você souber ler e entender essas palavras, eu espero que esses sejam motivos suficientes pra você amar e respeitar sua mãe como ela sempre mereceu.
Seu papai se preparou muito pra sua chegada. Trabalhou muito pra colocar as coisas em ordem no serviço dele pra poder curtir a semana em que você veio ao mundo. Duas semanas antes de você nascer os alunos do seu papai fizeram um chá de fraldas pra você lá na faculdade. Nós ganhamos mais de 60 pacotes de fraldas! Isso porque o papai contou a notícia pra todo mundo que conhecia e que muita gente ficou feliz com o seu nascimento.
Eu e sua mamãe sonhamos com você por mais de uma década, mesmo antes de nos casarmos. Em outras palavras, você é a concretização de um sonho antigo. Você é a prova de que os sonhos odem se tornar realidade. Na verdade, você representa para nós muito mais que um sonho; você representa a esperança de um mundo melhor no futuro. Vivemos tempos em que há falta de respeito mútuo, em que cada um só pensa em si mesmo e em tirar proveito das situações. Nosso maior desafio será tentar preparar-lhe para ser diferente e saber se defender em um mundo em que os diferentes são excluídos.
Para você, meu filho, eu escrevo um trecho da fala de Jor-El para seu filho Kal-El (ah, eu espero que você também goste de quadrinhos de super-heróis...): “Você será diferente. Muitas vezes se sentirá excluído, mas nunca estará sozinho. Você fará da minha força a tua, e eu farei da tua a minha força. Você verá o mundo pelos meus olhos, e eu verei o mundo pelos seus. Então o pai se tornará o filho, e o filho se tornará o pai”.