quinta-feira, 28 de julho de 2011

História sem final feliz


1979. Estou na casa da vovó Maria e do vovô Miller. A casa está cheia de gente. Estão comemorando meu aniversário. É neste mês que completo três anos. Todos querem me pegar nos braços para posar para uma foto, inclusive o tio Tim, de quem eu gosto muito. Ele é irmão do papai, mais jovem e muito forte. 

1989. Estou na casa da vovó Lourdes e do vovô Crotti, sob a sombra de uma grande parreira. Os cachos de uva estão começando a surgir. A salada de frutas do Natal, que a vovó tanto gosta de fazer e distribuir para seus filhos está garantida. Estou sentado no sofá, olhando o papai conversar com a vovó e o vovô. Fico olhando o Fusca branco, o famoso “8018” que o papai vendeu para o tio Tim. Esse nome, obviamente, vem da placa. Outro dia o tio Tim estava me contando que ele e o “Dirlam” encostaram os pára-choques dianteiros de seus fuscas e aceleraram fundo pra ver qual dois dois motores era mais potente e capaz de empurrar o outro. O tio Tim é bastante namorador. Ele não tem vergonha de conversar com as mulheres como eu tenho. Espero um dia ser como ele.
1992. Faltam poucos minutos para a sirene do Segato apitar. Trata-se de uma grande empresa que fabrica e comercializa cozinhas planejadas. O tio Tim trabalha lá. Além de ser motorista, ele também ajuda a montar as cozinhas que são vendidas para outras cidades. Vou para a calçada e avisto o tio Tim, caminhando apressadamente. Estendo a mão e peço sua bênção. Ele pega em minha mão, e pra não perder o costume a aperta até eu gritar e pedir que pare. “Aperta que nem homem, Duardo!” Ele sorri e segue em direção ao seu trabalho, que anos atrás lhe custou as pontas de alguns dedos.
2004. Estamos em um churrasco aqui em casa. O papai está pilotando a churrasqueira. Hoje temos uma turma com bastante apetite, encabeçada pelo tio Tim e pelo tio Buchudo. O tio Tim disse que a carne está gostosa. Ele não deixa perder sequer o caldo que resta na ponta dos dedos. O papai pede pra que ele não exagere. Afinal, ele geralmente passa mal todas as vezes que ele come muito, por causa da diabetes. O vovô Crotti e a vovó Lourdes estão aqui também. Muito feliz, o papai pede para guardar uma foto para guardar de recordação. Falta só a tia Vânia pra que todos os filhos saíssem juntos na foto. 
2008. Estamos no velório do vovô Crotti. Mesmo sabendo o quanto ele sofreu antes de nos deixar, a tristeza é bem grande. O mais desesperado é o tio Tim, que, debruçado sobre o caixão, parece rezar pedindo pela volta do vovô. Arrasado, ele coloca o rosto entre as mãos e pergunta, enxugando as lágrimas que vão caindo: “Por que? Por que? Volta, pai...”
2010. Paro o carro em frente à casa do tio Tim, para comprar um cachorro quente. Ele me recebeu com um aperto de mão, já não tão forte como antes, puxa um tamborete e pede que eu me sente. Assim o faço, e ele começa a falar. Ele me mostra o carro que comprou – uma linda Parati cor vinho. Enquanto elogio o carro, ele estende a mão com as chaves. “Dá uma volta pra você ver o que é um carrão.” Após dar a volta ao quarteirão e pegar o cachorro quente que a Ângela, sua esposa, acabara de preparar, ele insiste pra que eu leve uma kafta ou um espeto de carne.
Janeiro de 2011. Estamos no velório da vovó Lourdes. Após muito sofrer, a vovó parte agora descansar em paz ao lado do vovô. O tio Tim parece desnorteado. “O que eu vou fazer sem a minha mãezinha?” Ao me ver abraçando  minha mãe, ele diz: “Aproveita sua mãe, Duardo, porque a minha já foi...” E desaba novamente em pranto.
27 de Julho de 2011. Ando pelo corredor que dá acesso à porta da cozinha da casa do tio Tim. Logo que entro na cozinha avisto-o com o cabelo curto e a barba por fazer. Ele está deitado, com os pés para cima. Há cerca de quatro meses ele pisou em um caco de vidro enquanto andava descalço em seu quintal. Por causa da diabetes o maldito caco lá permaneceu sem que ele o sentisse. Desde então a coisa complicou. Seu pé está com dificuldades de irrigação sanguínea. Quando ele me vê, ele me puxa e me abraça. “Dos meus sobrinhos só faltava você pra vir me visitar” Peço desculpas a ele e tento explicar o que não tem explicação. Enquanto conversamos ele sente fortes fisgadas nas pernas. A dor fica estampada em seu rosto. No entanto, vejo-o mais animado do que o papai havia dito. “Tio, faça tudo o que o médico disser, se Deus quiser vai dar certo.”
28 de julho de 2011. Ligo para a mamãe e aviso que cheguei do trabalho. Com voz abatida, ela me passa a notícia bomba: “Os médicos disseram que o pé do tio Tim está friozinho de tudo. Ele terá que cortar sua perna para cima do joelho...” Meu tio acabara de perder uma grande batalha contra a diabetes.