quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Crônica 6 - Pra que a pressa?

Há dias Afonso não conseguia dormir. Estava preocupado com a papelada que se acumulava sobre sua mesa, com os relatórios a serem entregues, com as metas que precisava atingir na empresa. Era muita cobrança. Não apenas dos outros para com ele, mas dele para consigo mesmo. “Não posso falhar”, pensava ele. Seus amigos precisavam dele. Seus pais cobravam sua atenção. Sua esposa sentia muito a sua ausência. “Você não tem tempo nem para o nosso filho recém-nascido. Se soubesse que ia ser assim, deveríamos ter pensado duas vezes antes de concebê-lo”. Aos poucos um sentimento de frustração ia se abatendo sobre ele. Um sentimento de fracasso e impotência. Mas o que mais o machucava era a sensação de estar falhando com todos.
Enquanto dirigia seu carro em direção ao serviço, mil coisas lhe passavam pela cabeça. Sem esperança de entender como deixou as coisas chegarem onde estavam, procurou concentrar-se no volume de trabalho que teria aquele dia. Sentado no banco de seu carro, mesmo com o ar condicionado ligado, seu coração batia tão rápido e o suor lhe escorria pela testa como se ele estivesse correndo pela avenida. Na verdade, ele estava correndo. E muito. Mas correr não bastava para as poucas 24 horas de um dia. Era preciso co voar. Olhou para seu relógio. Eram 7h45min. Como sempre, saíra de casa atrasado. Aos poucos o pé de Afonso foi se tornando mais e mais pesado, e sem que ele percebesse o ponteiro do velocímetro já atingia os 120 km. Era o dobro da velocidade permitida para aquela avenida. Para aliviar a tensão, Afonso começou a passar as músicas no CD de seu carro uma a uma. Quando o controle sintonizou em “Don’t stop believing”, cuja tradução significava “Não pare de acreditar”, o controle remoto escorregou-lhe de sua mão e lentamente pousou sobre o assoalho. “Merda!”, xingou ele, quase no limite de sua irritação. Olhou para frente, e ao ver que a avenida estava vazia, abaixou-se para pegar o controle remoto. De repente, ouviu um estrondo se chocando com seu carro, como se tivesse atropelado algo ou alguém. Freou bruscamente e, assustado, parou o carro e abriu a porta. Quando olhou para trás, avistou um corpo estirado há quase 100 m de seu carro. Era um senhor de idade, magro e com uma longa barba branca. Desesperado, Afonso levou as mãos ao rosto, e passando-as pela testa, arrastou os cabelos para trás. “Meu Deus do céu, eu matei um homem!”. Em pânico, correu ao encontro daquele senhor, e sem saber bem o que fazer, pegou-o nos braço. “O senhor está bem?”, pergunto-lhe.Foi quando sentiu suas mãos molhadas pelo sangue daquele senhor. Como se fosse um último suspiro, e entre gemidos de dor, uma única frase foi pronunciada: “Meu filho, não tenha tanta pressa. A vida já passa tão rápido...” E dizendo isso tombou o rosto para o lado, já sem vida. Afonso deixou-se cair sobre a guia da calçada e começou a chorar. Mais que a tristeza de ter dado fim à vida de um homem, pensou que naquele ritmo estava caminhando a passos largos para dar fim à sua própria vida. E apoiando as mãos no rosto, chorou como uma criança. Quando suas lágrimas já haviam se esgotado, levantou-se e reuniu forças para ir até o carro ligar para a emergência. Percorreu novamente os 100 metros que afastavam o carro do corpo daquele homem e pegou o celular. Quando a atendente perguntou-lhe qual era a localização exata, Afonso olhou para trás para ver o nome da rua que cruzava a avenida, lugar em que o acidente ocorrera. Quando olhou para trás, seu coração disparou. O corpo do velho senhor não estava mais lá. Afonso ficou sem palavras, e deixando o celular cair no banco do carro, olhou para o céu. Seu relógio marcava 7h45min.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

O poder da música

20h. Estou em companhia de um enorme pacote de provas, que aguarda minhas correções. É uma tarefa terrível de se fazer. Afinal, corrigir uma prova e atribuir uma nota ou conceito é o mesmo que julgar alguém, e isso definitivamente não é algo que eu gosto de fazer. Decido então selecionar uma música para quebrar o silêncio. Abro a pasta Meus Documentos e procuro pela sub-pasta “Músicas”. Dentre as várias categorias que ali estão, a pasta dos Anos 80 parece atrair o mouse. E com um clique aparecem no monitor nomes de músicas que até hoje me deixam tocado de alguma forma.

Com duplo clique, começa a tocar “Lonely is the night”, do Air Supply e eu viajo para a cabine do caminhão do papai. Estou aguardando no estacionamento da cooperativa Carol, em Orlândia. O papai foi pegar a nota e me deixou aqui sozinho. Essa música é linda! Está nas paradas de sucesso, é tema da novela das 19h. Olho ao meu redor. Eucaliptos enormes me cercam, e além da sombra, embelezam a paisagem e me trazem um sentimento de proteção. Sintonizo o rádio do papai em outra música, igualmente linda: “If wishes come true”, do Sweet Sensation. Essa música também toca na novela das 19h. Quando a música acaba, me dou conta de que não tenho mais 13 anos. No último sábado fomos ao lugar a que estas músicas me levam. Da Carol restou apenas uma pequena loja, onde fomos comprar duas mesas para a festa de batizado do Miguel. Dos eucaliptos restaram apenas os caules cortados. Em seus lugares foram plantados ipês, que nesta época do ano estão sem folhas e sem flores. O clima seco e o chão sujo nem de longe lembram a imagem que eu tenho em minhas lembranças. É uma imagem de tristeza e abandono.

Desloco o cursor do mouse à procura de outra música e encontro “Take my breath away”, da Berlin. Vejo então o Tom Cruise passeando de moto pela orla de San Diego, entre altos coqueiros, com óculos e com a jaqueta que eu sempre quis. Puxa vida, como tenho inveja dele! Ele é baixinho, como eu, mas não se intimida diante das provações do Iceman. Ah, e sem falar que a namorada dele é uma loira maravilhosa! Quero ser piloto de avião! Eis que a música termina e eu me dou conta que com minha miopia avançada e com o medo de altura que tenho eu jamais conseguiria ser piloto de avião... Sem contar que a Kelly McGillis assumiu ser lésbica e hoje está irreconhecível.

All I need is you”, do Big Trouble, tema do “Falcão – campeão dos campeões”. Quantas e quantas vezes meu primo Danilo ouviu essa música dentro do meu antigo Gol BX e não chorou pensando em uma namorada que ele nunca me disse quem era... Por coincidência, o papai é caminhoneiro e bmo na queda de braços com o Falcão. Quantas quedas de braço eu tirava com o papai quando era adolescente... Ele me deixava puxar com a outra mão também, mas nem assim eu conseguia ganhar dele. Quanto aos meus colegas, André me chamou pra tirar uma “francesa” e quis passar o dedo sobre minha mão, pra dobrar meu punho e fazer como o Falcão no filme. Eu olho pra ele e digo: “Cê acha mesmo que isso funciona?”, e com um impulso, dobro o braço dele até ele gritar. Hoje o André, que morava vizinho de casa, mudou-se pra Itumbiara. Tornou-se advogado. Quanto ao papai, jamais o desafiarei para uma nova queda de braço. Não por medo de perder, mas sim de ganhar. Quero que ele continue sempre sendo o homem mais forte do mundo.

It’s a heartache”, da Bonnie Taylor. Estou em Goiás, tenho poucos anos de vida. Essa mulher que canta essa música está chorando. Coitada! Fico com dó dela e começo a chorar também...

Everything I own”, do Boy George. A música é muito bonita, mas quando olho na televisão não sei dizer se é homem ou mulher. O papai disse que é um homem vestido de mulher. Por que será que ele se vestiu de mulher?

Eternal flame”, do the Bangles, me leva de volta à novela “Que Rei sou eu?”. Giulia Gam e Edson Celulari formavam um lindo casal! Pena que nunca se casaram na vida real. Ela se casou com Pedro Bial, ele com a Cláudia Raia. Ambos se divorciaram. Para eles ainda existe uma chance.

sábado, 17 de setembro de 2011

A mangueira

1979. Tenho 3 anos. Moramos em Quirinópolis, no Estado de Goiás. Dentre as pessoas que conhecemos por aqui, “seu” Januário e dona Sebastiana estão entre as que eu mais gosto. Sei que eles são bem mais velhos que o papai e a mamãe, mas não sei dizer quantos anos eles têm. Eu adoro ficar brincar na casa deles. Seu Januário trabalha para o papai, mas quando eu vou pra roça com o papai, ele fica cuidando de mim o tempo inteiro. Outro dia ele me mostrou um bodoque. É parecido com um arco, mas ao invés de jogar uma flecha, a gente joga uma pedra com ele. Outro dia o seu Januário tentou me ensinar como usar o bodoque, mas a única coisa que consegui foi acertar a cabeça do dedão. Ele também fez um colar usando broto de mandioca. O papai me disse que ele gosta de mim como se fosse filho dele. Eu sei que ele tem um filho, mas o papai disse que não é dele, que ele foi adotado. A gente só o vê quando vai à cidade. Ele sempre está bebendo em um par próximo à saída. Parece até que ele não dá muita bola para a dona Sebastiana e o seu Januário...
1986. Tenho 10 anos. Estamos indo visitar seu Januário e a dona Sebastiana no sítio onde eles moram, aqui em São Joaquim. Quando viemos de Quirinópolis para cá, eles vieram também. Acho que eles gostavam tanto da gente que não quiseram ficar longe. O sítio não é deles, é do Pedro Jacomin. Lá eles vivem, tomam conta das galinhas, dos porcos e da plantação de mandioca. O sítio fica perto de um riacho. Na última vez que viemos visitá-los, seu Januário nos levou para pescar.
1989. Estou indo visitar a dona Sebastiana. Seu Januário faleceu, e para ela não ficar sozinha no sítio, o papai comprou o terreno aqui ao lado, que era do tio Tim, e construiu uma casa pra ela morar. É uma casa pequena, com quarto, cozinha e banheiro. O papai também fez um cercadinho pra ela poder cuidar de sua horta. Bem perto do muro da divisa com o terreno da dona Cota, ela plantou um caroço de manga. Talvez um dia torne-se uma linda mangueira.
2005. Estamos fazendo um churrasco aqui em casa. Convidamos o vovô Crotti, a vovó Lourdes, o vovô Milla, a vovó Maria, tia Ângela, tio Natal, tia Vânia e meu primo Frederico. Tia Vânia e tio Natal compraram o terreno que era da dona Cota e hoje são nossos vizinhos. O dia está ensolarado, mas não nos preocupamos com isso. Estamos todos sob a sombra do pé de manga que a dona Sebastiana plantou. Ela já não mora mais aqui conosco. Mudou-se, e faleceu alguns anos depois. Infelizmente os anos a levaram, mas trouxeram uma linda e frondosa mangueira. Quando meu pai disse que queria cortá-la, o vovô Crotti intercede: “Tair, eu não quero que você corte essa mangueira. Olha a sombra boa que ela faz!”
2011. “Cuidado aí!”, diz meu pai para o bombeiro enquanto ele corta um enorme galho da mangueira. O barulho ensurdecedor da moto-serra cerra quando sua lâmina atravessa o galho, já parcialmente seco. A mangueira está morrendo. Não pela idade, mas pela maldade de alguém que injetou veneno em suas veias. Vovô Crotti e vovó Lourdes se foram e já não estão mais entre nós. Tia Vânia, tio Natal e Frederico se desentenderam com meus pais enquanto minha avó ainda era viva, e hoje não se falam. Talvez a moto-serra soe como música aos seus ouvidos, que por vezes insistiram para que meu pai cortasse a mangueira, alegando que suas raízes estavam estragando a casa onde moram. Do meu colo, o Miguel vê seu vovô carregando na carriola os restos do que foi um dia a mangueira que a dona Sebastiana plantou. Ele conhecerá a dona Sebastiana, seu Januário, vovô Crotti e vovó Lourdes apenas pelas fotos e pelas histórias que contarmos a ele. Da mangueira, o que ele saberá é que ela foi cortada para dar lugar a uma linda varanda, onde faremos os nossos churrascos daqui em diante. Não contarei sobre o envenenamento da mangueira. Afinal, quero que ele seja alguém que plante mangueiras, e não uma pessoa que saiba como matá-las.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Mais um dia...

  São 22h30min. Passo o cartão de ponto e corro para o carro. Um minuto a mais e eu fico mais de 15min na fila de carros na saída. São poucos minutos até que eu pague a estrada para casa, e mais algumas dezenas até que eu chegue em casa. Quando lá estiver, e assim que abrir a porta da cozinha, sentirei o cheiro de meu lar. Débora estará sentada no sofá com o Miguel no colo, à minha espera pra que eu o pegue no colo para o arroto usual após mamar 210 mL de leite. Após beijá-la, pegarei Miguel em meus braços e o abraçarei. Sentirei o calor e a fofura daquele pequeno corpo. Beijarei sua testinha, molhada por causa do esforço que fez para mamar. Então olharei em seus pequenos olhos e direi a ele o quanto o amo. Idealizarei o seu futuro e exercitarei minha imaginação pensando como ele será quando crescer, se será um bom filho, se será esforçado, se será humilde e se terá respeito pelos outros, principalmente seus pais. Ora, pra que sonhar com o futuro se o presente é um sonho?

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Há muito o que fazer


Terça-feira, 6 de setembro de 2011. São 15h. Cá estou novamente em frente ao monitor do notebook lutando para publicar os artigos de meu projeto de pesquisa. É, é isso que eu faço pra garantir o pão de cada dia. Há um aqui em particular que está me deixando de cabelo em pé. Já o submeti duas vezes para publicação. Na primeira, o editor sugeriu que eu o reescrevesse e o submetesse como artigo de pesquisa. Assim o fim. E adivinha? Agora ele sugeriu que eu submetesse como comunicação rápida. É brincadeira?
Meus olhos já não ardem mais como há semanas atrás. Troquei as lentes de contato pelos óculos, que embora muito leves, sempre me colocam em situações constrangedoras. Ontem, por exemplo, enquanto comia um lanche no jantar, fui espantar um mosquito que me incomodava e acabei tocando nos óculos. Eles foram parar a uns dois metros de distância, nos pés de alguém que passava e, sem querer, quase os pisotearam. De qualquer forma, os óculos aliviaram minha dor de cabeça. A labirintite também foi desapareceu. Pelo menos por enquanto...
20h25min. Estou em sala de aula. Os alunos estão agitados, pois terão que apresentar trabalho para a disciplina de Físico-Química. É difícil mantê-los concentrados quando isso acontece. Alguns vieram me pedir esclarecimentos sobre os trabalhos. Pobres coitados. Mal sabem que quando se é doutor em alguma coisa, sabe-se muita coisa de uma pequena área da ciência... Eis que bate à porta um aluno do 4º. ano. É um dos alunos mais velhos do curso – aliás, é mais velho que eu... Curiosamente, é um dos poucos alunos negros do curso. Pois é, nosso país ainda é um país de oportunidades desiguais... Ele me avista e pergunta se pode falar comigo após a aula. Disse que quer pedir um conselho pessoal. Vejam então vocês: em meio a tantos problemas, alguém me procura e pede minha ajuda. Em meio à complexidade do meio acadêmico e científico, surge alguém que me considera em condições de ajudá-lo. Ora, isso não é uma casualidade. É, sem dúvida, uma grande honra. É, sem dúvida, mais uma das bênçãos que Deus segue derramando em minha vida.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O passado sempre presente


Segunda-feira, 5 de setembro de 2010. Estou trabalhando em minha sala aqui na universidade. É o que eu venho fazendo há seis anos. Poucos são privilegiados de fazerem o que gostam. Bom, é também verdade que eu aprendi a gostar do que eu faço. De qualquer forma, cá estou eu. Aos 35 anos. Lá em casa minha esposa e meu filho me aguardam. Deus comprovou novamente Sua bondade para comigo e trouxe o Miguel à minha imagem e semelhança. Minha mãe chora quando o vê. Meu pai se emociona. Meus avós e minha tia ficam extasiados. Dizem estar vivendo novamente a emoção que sentiam quando eu era bebê.
À minha frente está um monitor repleto de palavras em inglês, que traduzidas significam “puta merda, cara, como você é esforçado!”. Certo, eu não entendo muito de inglês. Após três anos pagando aulas particulares de conversação, confesso que não evoluí muito. Mal tenho tempo pra checar as palavras que aprendo durante as aulas... E é justamente por isso que nem sei como cheguei até aqui...
Meus pensamentos vão divagando, e de repente saio de mim. Vou para bem longe, para uma época que não volta mais. Sou criança, talvez quatro ou cinco anos. Com meu pequeno chapéu de palha e minhas botinas, à semelhança de meu pai, caminho pela plantação de milho perto de onde morei, em Quirinópolis-GO. Os pequenos pés de milho me parecem tão grandes... As palmeiras, então, que meu pai não teve coragem de arrancar, parecem chegar até o céu. Logo avisto a enorme mangueira. Logo ali está a casa da dona Deolinda. Agora me vejo dentro da casa dela, na cozinha. Avisto o fogão de lenha. Da porta da cozinha avisto as enormes mangueiras, cujas sombras trazem um frescor inigualável. Sinto um nó na garganta. Os olhos ficam rasos em lágrimas. Ouço o Outlook avisando que há um novo e-mail pra abrir. Em meio a tantas conquistas, em meio a tantas vitórias, conseguidas em meio a tanto esforço, vejo que há coisas que o tempo leva e não traz de volta. A inocência e a ingenuidade quase se extinguiram de mim. E o pouco do que resta dessas virtudes infantis hoje me fazem sofrer. Ou me deixam vulnerável, susceptível a ser manipulado por colegas que se denominam meus amigos, ou me trazem lembranças de uma época em que eu era feliz com muito pouco.