sábado, 17 de setembro de 2011

A mangueira

1979. Tenho 3 anos. Moramos em Quirinópolis, no Estado de Goiás. Dentre as pessoas que conhecemos por aqui, “seu” Januário e dona Sebastiana estão entre as que eu mais gosto. Sei que eles são bem mais velhos que o papai e a mamãe, mas não sei dizer quantos anos eles têm. Eu adoro ficar brincar na casa deles. Seu Januário trabalha para o papai, mas quando eu vou pra roça com o papai, ele fica cuidando de mim o tempo inteiro. Outro dia ele me mostrou um bodoque. É parecido com um arco, mas ao invés de jogar uma flecha, a gente joga uma pedra com ele. Outro dia o seu Januário tentou me ensinar como usar o bodoque, mas a única coisa que consegui foi acertar a cabeça do dedão. Ele também fez um colar usando broto de mandioca. O papai me disse que ele gosta de mim como se fosse filho dele. Eu sei que ele tem um filho, mas o papai disse que não é dele, que ele foi adotado. A gente só o vê quando vai à cidade. Ele sempre está bebendo em um par próximo à saída. Parece até que ele não dá muita bola para a dona Sebastiana e o seu Januário...
1986. Tenho 10 anos. Estamos indo visitar seu Januário e a dona Sebastiana no sítio onde eles moram, aqui em São Joaquim. Quando viemos de Quirinópolis para cá, eles vieram também. Acho que eles gostavam tanto da gente que não quiseram ficar longe. O sítio não é deles, é do Pedro Jacomin. Lá eles vivem, tomam conta das galinhas, dos porcos e da plantação de mandioca. O sítio fica perto de um riacho. Na última vez que viemos visitá-los, seu Januário nos levou para pescar.
1989. Estou indo visitar a dona Sebastiana. Seu Januário faleceu, e para ela não ficar sozinha no sítio, o papai comprou o terreno aqui ao lado, que era do tio Tim, e construiu uma casa pra ela morar. É uma casa pequena, com quarto, cozinha e banheiro. O papai também fez um cercadinho pra ela poder cuidar de sua horta. Bem perto do muro da divisa com o terreno da dona Cota, ela plantou um caroço de manga. Talvez um dia torne-se uma linda mangueira.
2005. Estamos fazendo um churrasco aqui em casa. Convidamos o vovô Crotti, a vovó Lourdes, o vovô Milla, a vovó Maria, tia Ângela, tio Natal, tia Vânia e meu primo Frederico. Tia Vânia e tio Natal compraram o terreno que era da dona Cota e hoje são nossos vizinhos. O dia está ensolarado, mas não nos preocupamos com isso. Estamos todos sob a sombra do pé de manga que a dona Sebastiana plantou. Ela já não mora mais aqui conosco. Mudou-se, e faleceu alguns anos depois. Infelizmente os anos a levaram, mas trouxeram uma linda e frondosa mangueira. Quando meu pai disse que queria cortá-la, o vovô Crotti intercede: “Tair, eu não quero que você corte essa mangueira. Olha a sombra boa que ela faz!”
2011. “Cuidado aí!”, diz meu pai para o bombeiro enquanto ele corta um enorme galho da mangueira. O barulho ensurdecedor da moto-serra cerra quando sua lâmina atravessa o galho, já parcialmente seco. A mangueira está morrendo. Não pela idade, mas pela maldade de alguém que injetou veneno em suas veias. Vovô Crotti e vovó Lourdes se foram e já não estão mais entre nós. Tia Vânia, tio Natal e Frederico se desentenderam com meus pais enquanto minha avó ainda era viva, e hoje não se falam. Talvez a moto-serra soe como música aos seus ouvidos, que por vezes insistiram para que meu pai cortasse a mangueira, alegando que suas raízes estavam estragando a casa onde moram. Do meu colo, o Miguel vê seu vovô carregando na carriola os restos do que foi um dia a mangueira que a dona Sebastiana plantou. Ele conhecerá a dona Sebastiana, seu Januário, vovô Crotti e vovó Lourdes apenas pelas fotos e pelas histórias que contarmos a ele. Da mangueira, o que ele saberá é que ela foi cortada para dar lugar a uma linda varanda, onde faremos os nossos churrascos daqui em diante. Não contarei sobre o envenenamento da mangueira. Afinal, quero que ele seja alguém que plante mangueiras, e não uma pessoa que saiba como matá-las.

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