domingo, 30 de outubro de 2011

Crônica 8 - A morte revela os hipócritas

Padilha era um homem elegante. Magro, andava sempre alinhado. Não era rico, mas possuía bens materiais suficientes para dar-se o luxo de freqüentar bailes e festas. A dança era sua paixão. Era, como costumam dizer, um verdadeiro pé de valsa. Em um desses bailes conheceu Eleonora. A atração foi imediata. Após poucos encontros, os dois se apaixonaram. Mas havia um pequeno detalhe: Padilha era casado havia mais de 30 anos. Seus filhos jamais aprovariam aquele relacionamento. Nem sua mulher, obviamente.
Em pouco tempo o namoro entre Padilha e Eleonora tornou-se um caso. A esposa de Padilha tomou conhecimento, porém, eternamente apaixonada pelo esposo, fingiu que nada acontecia. Os filhos, todavia, revoltaram-se. “Se eu encontrar aquela desgraçada na rua, vou dar um pau nela”, dizia um dos filhos. “Se ele não largar de pouca vergonha, vamos cortar o plano de saúde dele”, ameaçava uma das filhas. “Esse velho desgraçado podia tomar veneno e morrer!”, esbravejava um outro.
Os anos se passaram. Padilha aos poucos foi perdendo sua saúde, adoeceu e acabou falecendo. No velório, os filhos reuniram-se em torno do caixão. Choraram juntos e lamentaram a partida de seu patriarca. “O pai era um homem tão bom...”, dizia a filha que queria cortar seu plano de saúde. “Coitado, sofreu tanto pra morrer...”, lamentava o filho que desejou que ele se envenenasse”. Um dos netos, emocionado, decidiu descrever a tristeza daquele momento em seu site. Quase foi crucificado. “Quem ele está pensando que é? Que falta de respeito com nosso pai!” A morte de Padilha tornara sagrado o seu nome entre os filhos que deixou.
Dois anos depois, no velório da esposa de Padilha, uma cena familiar. “Coitada, sofreu tanto pra morrer...”. “Ela era uma mulher tão boa...” Os filhos novamente se reuniram em torno do caixão e choraram mais uma perda. Era a imagem de uma família unida. Padilha e sua esposa, agora nos céus, viraram santos. Seus filhos, ainda na terra, tornaram-se anjos. Dias depois estavam em pé de guerra no tribunal. Cada um dizia ter sido um filho melhor que os irmãos e que, por isso, defendia uma fatia maior dos bens que Padilha deixou. Alguns irmãos tornaram-se inimigos. E ninguém mais se lembra de Padilha, de sua esposa ou de Eleonora. Nem tampouco que um dia foram uma família.
A morte gera os mártires e revela os hipócritas.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Fragmentos de minha infância - parte 16


(Este post é continuação das partes 14 e 15)

        Ao me ver caído, jogado entre timbetes e cacos-de-vidro, a mamãe começa a chorar. "Tair, pelo amor de Deus, não faz isso!" Mas o papai está dominado pela raiva e não dá ouvidos às suas súplicas. Enquanto ele dá mais alguns nós na corda e a ajeita na mão direita, eu tento me levantar. Meu bumbum está doendo, deve ter se machucado quando eu caí. Minhas mãos estão sujas, minhas costas estão molhadas pelo sereno que ainda resta sobre o mato rasteiro. Tomo coragem e olho para o rosto do papai. O meu herói, o meu grande amigo parece ter desaparecido e dado lugar a um homem raivoso e vingativo, que me empurra novamente para a relva e começa a desferir golpes certeiros com a corda em minhas pernas. "Isso é pra você aprender a deixar de fazer gracinha quando eu estiver fazendo negócio, seu fidumaputa!" O primeiro golpe pega nas pernas. A força daquele golpe parece trazer consigo todo o peso do braço do papai. A calça não é suficiente para amortecer o golpe. Dói muito... "Não, papai!" O segundo golpe pega na coxa. O choque da corda levanta um enorme vergão vermelho. "Pára, papai, por favor!" Pode ser que o papai não seja tão forte como o Hulk, mas assim como ele, sua força parece ser maior quando está com raiva. E ele está com muita raiva de mim. Eu só não sei por quê. O terceiro golpe vem longo em seguida, acompanhado por um gemido do papai. Neste ele deve ter colocado toda a sua força. "Papai, papai!" Não adianta chamar pelo papai. Não é ele quem está com a corda na mão, a me suurrar com todo o seu ódio por um motivo que eu ainda não sei qual é. Meu Deus, a quem devo pedir ajuda? "Toma, fidumaputa! Vai, me passa vergonha de novo agora!" Em seguida vem o quarto golpe, o quinto, o sexto... Não há naquele rosto de sobrancelhas arqueadas, agora já suado de tantos golpes, nenhum vestígio do amor que o papai tanto disse que tem por mim. "Toma!" Deixo então de gritar pelo papai. Meus gritos não são apenas gritos de dor, porque eu já não consigo sentir minhas pernas. São também gritos de medo. Como eu queria que o papai pudesse me defender desse que agora me espanca... Será que ele vai voltar algum dia?
        Já não sei há quanto tempo estou apanhando. Rolando sobre o mato rasteiro, em meio a lixo e a cacos de vidro, sinto minhas mãos machucadas. Minhas pernas devem estar cheias de sangue, mas eu não as vejo por causa dos restos de calça que ainda resistem aos golpes do papai. Já quase não tenho voz de tanto chorar e de pedir para ele parar. Minhas lágrimas já estão secas sobre minhas bochechas rosadas. Não sei se vou sobreviver. Resolvo, então, tentar escapar. Enquanto o papai levanta o braço para desferir mais outro golpe, eu me projeto para trás empurrando o chão com minhas botinas e com minhas mãos. Reúno então as poucas forças que me restam e ando uns dois metros gatinhando, até colocar-me de pé e correr para o meio do mato. O papai, ofegante e raivoso, parece cansado e nem tenta correr atrás de mim. "Volta aqui, fidumaputa!" Chorando e amedrontado, eu não tenho como obedecê-lo. "Não, papai. Eu sei que se eu voltar, o senhor vai continuar me batendo". Mas o papai parece não se dar conta de que está batendo em seu próprio filho, e ao invés de acalmar-se, parece ter ficado ainda mais nervoso. "Eu não vou te bater mais. Mas não me irrite! Se você não voltar aqui, aí sim você vai ver o que é bom pra tosse!". Eu confio nas palavras dele. Na verdade, eu sempre confiei. Caminho então em sua direção, meio desconfiado, e paro a alguns passos dele. Ele me olha. Ainda está com as sobrancelhas arqueadas. Levanto então os olhos e lanço-lhe um olhar de quem está triste e com dor, precisando muito de seu abraço, mas o que recebo é um forte empurrão no peito, que me faz perder o equilíbrio e ganhar o chão novamente. Olho para o papai. Seu rosto agora é uma grande sombra, a sombra de um gigante atrás do qual o sol se esconde. Enxergo apenas a sombra de seu braço armado com a corda roçar o ar mais uma vez, dando início a uma nova sequência interminável de golpes sobre meu pequeno corpo. 
     Por mais que a corda traga dor às minhas pernas, meu maior sofrimento vem do fato de eu não entender até agora por que o papai está me batendo. Opa, espera aí! Eu acho que eu sei porque o papai está me batendo! Ele me disse uma vez que um homem tem que ser forte, que homem que é homem não chora. Deve ser isso! Ele deve estar fazendo um teste! Só pode ser isso! Se eu parar de chorar, ele vai parar de me bater. Prendo então a respiração e paro de me mexer. De repente, o papai pára de bater. Tá vendo? Era um teste mesmo! Solto então o ar e volto a respirar ofegante. O papai então arqueia novamente as sobrancelhas, o ódio se estampa novamente eu seu rosto. Então ele levanta novamente a corda e parte pra cima de mim...
        Já não sei há quantos dias eu estou na salmoura. Os vergões em minhas pernas e no meu bumbum ainda estão muito altos. Dá pra sentir com a ponta dos dedos. Depois que a raiva do papai passou, a mamãe teve uma conversa muito séria com ele. "Tair, cê tá doido? Você podia ter matado o Dado", disse ela. Por mais estranho que isso possa parecer, no dia seguinte à surra ele veio me abraçar. Eu me encolhi, ameacei chorar pra que ele ficasse longe de mim. Agora tenho medo do papai, muito medo.
        De repente, ouço alguém chamando pelo papai. É o homem que estava negociando a compra do trator com o papai no dia em que eu apanhei. Mais que depressa eu corro para debaixo da cama. "Meu Deus do céu! O papai vai bater em mim de novo!" A mamãe, então, começa a rir, com os olhos cheios de lágrimas. "Não, Dado. O homem só veio comprar o trator..."

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O som que me desperta

Todos os dias, quando os raios de sol ainda não penetraram pelas frestas da janela, eu ouço um barulho forte, como se alguém estivesse batendo contra alguma coisa. O som penetra em meu sono, fazendo com que meus batimentos se acelerem até que eu acorde, assustado. Ofegante, olho para o lado e vejo que minha esposa Débora ainda dorme, como um anjo. Vasculho o quarto com os olhos e vejo que o som não se trata de um batido na porta. Norteio-me então pela fonte de luz mais próxima, projeto as pernas para fora da cama e me coloco de pé. Rapidamente, e com a devida cautela, caminho sem o chinelo em direção à porta do quarto. Posiciono-me ao lado da porta e consigo identificar que o som vem do corredor. Ao ver que não há ninguém no corredor, começo a caminhar por ele, vagarosamente. Abro a porta do corredor, mas imediatamente identifico que o barulho não vem daquela parte da casa, e sim de um dos quartos. “Meu Deus, o Miguel!” Subitamente, meu coração se acelera novamente, e a cautela dá lugar ao desespero. Corro então em direção ao berço do Miguel. Lá está ele, de olhos abertos, olhando para os ursinhos de seu mobile. Quando me vê, abre um enorme sorriso, projeta as duas pernas para cima e as deixa cair sobre o colchão repetidas vezes. Retribuo o sorriso, emocionado com tanta ternura e inocência. Agora eu sei de onde veio o tal barulho...

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Um dia você vai me agradecer

Querido papai,
     Sei que estas palavras dificilmente chegarão ao senhor, que é avesso a internet e a computador. Na verdade, inúmeras outras pessoas as lerão ao invés do senhor, muitas das quais nós jamais chegaremos a conhecer. De qualquer forma, sinto que elas precisam ser escritas, pois carregá-las comigo tem se tornado um peso que eu não posso suportar.
    Gostaria, então, de iniciar esta carta "virtual" agradecendo-lhe por ser meu pai. Conhecendo hoje as condições em que vim ao mundo, sou capaz de reconhecer quão importante foi a sua presença ao meu lado e da mamãe durante minha criação. Nos últimos 6 meses tenho acordado todas as manhãs para buscar o Miguel em seu berço, e sempre sou recebido com um lindo sorriso inocente, um verdadeiro presente por eu estar ali. Pois bem, papai: sei que devo, quando bebê, ter distribuído vários destes sorrisos para o senhor, mas agora, 35 anos depois, quem lhe sorri é um homem maduro e com qualidades que o senhor ajudou diretamente a desenvolver. Meu sorriso é uma forma de reconhecimento e de gratidão por ter estado sempre conosco todos estes anos, mesmo que tenha estado boa parte do tempo pelas estradas deste Brasil afora lutando para ganhar o nosso sustento.
     Em segundo lugar, gostaria de agradecer-lhe pelo seu imenso amor. Há diversas formas de manifestar o amor, e eu me lembro do senhor manifestando-o de pelo menos uma dúzia delas. Cronologicamente, a primeira manifestação de amor de que tenho lembrança data daquela grande enchente que inundou o rio que passava em frente à nossa casa, lá em Quirinópolis-GO, no final da década de 70. Sei que a chuva danificou uma ponte, que acabou cedendo enquanto a gente passava por ela de trator. O senhor abraçou-me como um grande urso e deixou que suas costas amortecessem a queda, impedindo assim que eu me machucasse, provavelmente de maneira fatal. Além de ser meu protetor, o senhor foi o meu grande amigo durante meus seis primeiros anos de vida. Era com o senhor que eu passava o dia inteiro desde as primeiras horas, seja no seu colo enquanto ia buscar leite no sítio de trator, ou mesmo na roça enquanto o senhor plantava milho, arroz ou soja. Certo dia, porém, o senhor ficou nervoso por eu quase ter estragado a venda daquele trator Valmet que a gente tinha e acabou me aplicando uma surra que eu não merecia. A partir de então eu passei a vê-lo com olhos de medo. Mesmo assim, o senhor insistiu durante toda a minha adolescência que a gente não tem amigos, e que o senhor era o meu único amigo de verdade. Aquela era uma forma muito triste de ver a vida, da qual eu me recusava a compartilhá-la. Hoje eu consigo entender que o senhor só queria me proteger de todas as decepções que viriam daqueles em quem tanto confiei, mas minha tristeza de reconhecer que o senhor tinha razão não é tão grande quanto minha gratidão de saber que sempre pude contar contigo quando precisasse.
     Além de amigo e protetor, o senhor foi - e graças a Deus ainda é - o meu grande mestre. "Você precisa aprender a fazer de tudo, mesmo que nunca vá fazê-lo". Com esta frase aparentemente contraditória o senhor procurava convencer-me de que eu precisava lavar e encerar seu caminhão, lavar a sua lona, limpar o quintal de casa e a passar as férias escolares de janeiro pintando as chapas da carroceria, o chassis e os pára-barros do seu caminhão. Enquanto meus colegas passavam os sábados e os domingos jogando e se divertindo no clube, a uma esquina de casa, lá estava eu colocando a mão na massa, sob o sol quente, sem entender o porquê. "Um homem não pode ter preguiça", "Faça bem feito e fará uma única vez" e "O  nome de um homem vale mais que o seu dinheiro" são algumas das frases chatas, porém sábias que o senhor sempre disse, e que tão importantes foram para a moldagem do meu caráter e para que eu me tornasse um homem de bem.
     Por mais estranho que isso possa parecer, eu tenho que agradecê-lo por ter sido tantas e tantas vezes meu maior inimigo. Ao invés de motivar-me, o senhor sempre dizia que eu era mole e que nunca ia ser ninguém. Ao invés de paparicar-me com elogios - mesmo que, de fato, eu realmente os merecesse... - o senhor limitava-se a elogiar-me para os outros, sem que eu jamais soubesse o que realmente achava de mim. Isso fez com que eu me tornasse uma pessoa humilde, sempre disposta a melhorar. "Está bom, mas pode melhorar", era o que o senhor dizia quando assinava as minhas provas de Matemática e de Português, ignorando quando eu lhe dizia que elas eram as maiores notas da turma. Eu bem me lembro de suas palavras quando fui selecionado para servir o tiro-de-guerra: "Lerdo do jeito que você é, você não vai conseguir arranjar emprego nunca! No tiro-de-guerra o sargento vai te chutar todos os dias, quem sabe você não vira homem?". O senhor não se importava com o fato de eu ter sido o melhor aluno da turma de formandos no colégio, em 1990, ou de ter sido o orador da turma, nem tampouco de ter sido o melhor aluno dentre os formandos em contabilidade de 1993. E o fato de o senhor não se importar também fez com que eu não me importasse e procurasse sempre alcançar algo que lhe chamasse a atenção... Se não fosse pelo senhor, eu poderia ter me tornado uma criatura arrogante e cheia de si diante de tantas vitórias. Papai, as palavras do senhor, e também a falta delas, sempre mexiam comigo. Quando isso acontecia, eu dizia pra mim mesmo: "Eu vou provar para ele que eu consigo." Graças a estes desafios, eu acabei me tornando forte e determinado. E contrariando o que o senhor previu, fui homenageado na formatura do tiro-de-guerra com honra ao mérito por ser o atirador mais disciplinado, dedicado e, ainda, o mais rápido para desmontar o fuzil. Isso tudo, papai, graças ao fato do senhor ser o meu melhor (e talvez único...) inimigo.
     É claro que, como todo ser humano, o senhor demonstrou também ser imperfeito e muitas vezes me deixou muito triste. Além da surra injusta que me aplicou, o senhor deu-me uma resposta aos 8 anos que acabou mudando minha personalidade pelo resto da vida. Quando perguntei-lhe por que meus amigos de classe estavam namorando e eu não, o senhor respondeu-me, entre risos: "Uai, porque você é feio, ora!" Hoje eu entendo que aquilo foi dito em tom de brincadeira, mas eu não tinha idade suficiente para entender que se tratava de uma. Outro dia assisti na internet a uma palestra que o fundador da Apple, Stevie Jobbs, proferiu para formandos da Universidade de Stanford. Em um dos pontos mais belos da palestra, ele menciona que a gente só entende a vida olhando para trás e conectando os pontos. Pois bem. Vendo hoje o rumo que minha vida seguiu e "conectando os pontos", eu lhe sou grato também por ter dito aquilo. Sem querer, aquelas palavras me tornaram um jovem diferente e introspectivo, cuja baixa auto-estima não deixou outra alternativa que não fosse dedicar-se aos livros. Dez anos depois eu recuperaria minha auto-estima através de um tratamento em um renomado psicólogo, em sessões caríssimas que o senhor pagou com o suor de seu trabalho. Foi a redenção para qualquer exagero que o senhor tenha cometido em minha educação. Antes disso, aos 12 anos, o senhor também desembolsara um bom dinheiro pra que eu me tratasse de meu problema na coluna, pagando aulas de natação e sessões de fisioterapia.
     Devo confessar ao senhor que algumas de nossas melhores conversas têm acontecido desde que me casei. Em uma delas, o senhor disse algo que me deixou pensativo. "Você é o que eu devia ter sido". Talvez o senhor tivesse chegado mais longe se tivesse um pai tão bom e dedicado quanto o que eu tive. Por outro lado, aquelas palavras tristes, ditas enquanto o senhor olhava para o chão, serviram como elogio. A única conclusão a que chego é que se eu fosse um filho do qual o senhor não se orgulhasse, o senhor jamais teria dito aquelas palavras.
     Se algum dia o senhor ler essas palavras, vai se lembrar que eu só aprendi a escrevê-las porque o senhor decidiu mudar-se da roça para a cidade. Caso contrário, eu teria crescido entre vacas e cavalos, ordenhando vacas e as apartando, ou mesmo teria me tornado um excelente tratorista. Contrariando o que muitos pais pensam em relação a seus filhos, o senhor nunca quis que eu seguisse a mesma profissão que a sua. E foi justamente por isso que o senhor me mostrava o lado duro de ser motorista de caminhão.  "Um orgulho eu tenho: meu filho não virou motorista", diz sempre o senhor a todo mundo. Mais uma vez o senhor tem razão: não fosse pela sua insistência, eu não teria sequer prestado vestibular para Química em uma universidade privada. Eu, que tanto queria estudar em uma universidade pública, poderia ter sequer ido para uma universidade não fosse por aquela conversa em janeiro de 1995, na oficina do tio "Bichim", enquanto pintávamos as chapas da carroceria do seu caminhão.
     Dentre todas as coisas que o senhor dizia quando eu era adolescente, uma das que mais me irritava era: "Um dia você vai me agradecer." Pois é, papai, esse dia chegou. Mas ao invés de ficar irritado ou contrariado pelo fato de o senhor ter novamente razão, preferi escrever estas palavras para manifestar não apenas a minha gratidão ou o quanto sou agradecido pelo senhor, mas também para demonstrar o quanto eu o amo. Tê-lo como pai é um privilégio, é uma dádiva de Deus. O Miguel, com certeza, tem no senhor um grande avô.
     Ao escrever estas palavras, na esperança de que eu fosse eliminar um peso dos ombros como filho, dou-me conta de que, como pai, tenho um outro ainda maior: ser para o Miguel um pai tão bom quanto o senhor foi para mim...

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Quem precisa de um blue ray?

     Quinta-feira, 13 de outubro. 16h. Estamos caminhando em direção à saída do Novo Shopping Ribeirão Preto. Débora e eu estamos exaustos. Apesar de seus ombros empinados, percebo que ela não vê a hora de deitar no banco do carro e tirar um cochilo durante a viagem de volta. Quanto a mim, são minhas pernas que estão me matando. Penso então em quão equivocado eu estava ao escolher um sapato de sola baixa ao invés de um tênis confortável pra vir passear aqui. Apesar do cansaço, tenho um súbito ataque de consumismo. “Amor, vou entrar aqui na Ricardo Eletro pra comprar um Blue Ray rapidinho, tá?”. A reação dela já era esperada. “Como é que é? Mas você vai comprar um Blue Ray pra quê?” A uma pergunta esperada, dou uma resposta preparada: “Quando a gente assiste a um Blue Ray, a resolução da imagem fica perfeita.” Infelizmente para mim, ela não parece estar convencida. “Mas esse aparelho de Blue Ray é caro, não é? A gente está precisando disso agora?” Embora ela esteja com a razão, é tarde demais: o consumismo tomou conta deste pobre mortal ao ponto de me conformar em ter que utilizar o crédito para comprar o maldito/bendito aparelho. “Por favor, meu anjo, sente-se aqui neste banco e espere um minutinho. Eu não demoro É rapidinho!.” A tática de usar os diminutivos enquanto se conversa com uma mulher é infalível! E dizendo isso, sigo a passos largos em direção à loja. De longe avisto o lugar na prateleira onde ficam os reprodutores de DVD e de Blue Ray e sigo em direção a eles. No caminho, entretanto, sou abordado por um dos vendedores. “Boa tarde. Posso ajudar o senhor?”. O vendedor é extremamente solítico e atencioso. Quando digo que quero um aparelho de blue ray, ele me convida para ver no sistema os modelos disponíveis. “Vem cá um minuto, por favor.” Sento-me então à sua frente, e ele à frente de um monitor. “Nós temos modelos da LG e da Phillips. O senhor tem alguma preferência?”, pergunta o vendedor com a segurança de quem sabe o que está realmente me falando. “Eu quero um Phillips. Tem no estoque?’ Ele balança a cabeça e me pede, mais uma vez, para acompanha-lo. Sigo então por entre as mercadorias e chego até a porta do estoque. Enquanto o rapaz vai buscar o aparelho, faço-lhe a pergunta que todo mundo gostaria de saber: “Por que a loja da Ricardo Eletro lá em São Joaquim da Barra fechou?” Meio sem jeito, o vendedor diz algo que não deveria: “Bom, eu ouvi falar que é porque lá não vendia bem, que os vendedores de lá eram meio fracos...” Esboço uma cara de quem entendeu. Lembro-me então das duas ocasiões em que entrei em lojas desta rede. Na primeira delas, nesta mesma unidade, fiquei mais de 50 min em frente ao caixa aguardando o sistema voltar. Na segunda, na referida loja em São Joaquim da Barra, quando a Débora quis comprar uma sanduicheira, a vendedora não quis negociar o preço da concorrência. “Ah, se o Ricardo ficar sabendo disso...”, disse eu em alusão às propagandas que o dono da rede faz na televisão.
Em menos de um minuto o rapaz volta com uma embalagem nas mãos contendo o aparelho de Blue Ray que está próximo de ser meu. “Amigo, você divide o preço em duas vezes? Eu te pago uma à vista e a outra você coloca no crédito, pode ser?” Ele concorda. Seguimos então para o computador, onde ele precisa fechar a compra. “Bom, o preço dele é R$499,00. Dá pra te fazer R$400,00”. Assustado com o preço, peço licença, e ali mesmo em sua frente faço uma ligação para o meu amigo Necrão pedindo informações sobre um aparelho de Blue Ray que ele comprara tempos atrás. Direciono então minha conversa com ele para que o vendedor perceba que seu produto está acima do preço. Após algumas tentativas, o preço fica fechado em R$360,00.
Enquanto o vendedor segue preenchendo um sem número de campos, o celular toca. “Amor, você já está terminando?” Respondo-lhe que estou terminando. A batalha que se segue entre o vendedor e o sistema é desleal. São várias páginas que se fecham, outras que travam e, por fim, algumas que não aceitam o preço que ele colocou. Mais de 30min depois, levanto-me e dirijo-me até a Débora, que se levanta quando me vê. “Ué, cadê o aparelho?” Explico-lhe que o sistema está dando problemas, peço-lhe para esperar um pouco mais e volto para fechar o negócio com o vendedor. O que presencio, no entanto, é uma cena constrangedora: o vendedor, após mais de 20min de tentativas, chama o gerente, que tem uma explicação clássica para a situação: “O sistema travou”. O vendedor respira fundo, e na esperança de efetuar sua primeira venda da semana, reinicia o preenchimento de todos campos que havia preenchido até aquele momento. Eis que após tentar confirmar a venda, o sistema não aceita novamente os dados. Paciente, assisto à mesma cena umas quatro vezes. Após uma hora e dez minutos, levanto-me da cadeira e, desapontado, coloco a mão no ombro daquele vendedor desesperado, vítima do(s) sistema(s) e me despeço. “Meu amigo, desculpe-me, mas eu tenho que ir. Meu tempo se esgotou”. Ele balança a cabeça, derrotado, sem conseguir pronunciar nenhuma palavra. Quando a Débora me vê chegando de mãos abanando, fica curiosa. “Cadê o aparelho? Esperei tanto tempo e você não comprou?” De ombros caídos, só há uma resposta a dar-lhe: “Você tinha razão: eu não preciso de um aparelho de Blue Ray...”

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O dia em que doei meu carro


Domingo, 21 de agosto. 9h. Estamos em casa quebrando o desjejum. Débora à minha frente, Miguel ao nosso lado, acomodado em seu carrinho de bebê. Olha-nos o tempo inteiro, às vezes para mim, às vezes para a Débora. Parece encantado por estar vivo. Fixo o olhar nele e me emociono. Pego-o então no colo e o abraço fortemente contra o peito, beijando-lhe várias vezes o rostinho, cuja pele ainda não experimentou os danos causados pelos raios ultravioleta. Subitamente nosso momento pai-filho é quebrado pelo toque do telefone. É minha mãe dizendo que há um homem interessado em comprar o carro, que está lá vendo o carro mas que está com pressa. “Desce aqui, depressa!”, pede ela, com o velho tom de mãe que acha que sempre vai mandar no seu filho. Contrariado, devolvo o Miguel ao carrinho, corro para o banheiro, escovo os dentes, pego a chave do carro e parto.
Enquanto vou vencendo as esquinas em direção à casa de meus pais, vou me lembrando de minhas experiências com carro que coloquei à venda. Trata-se de um Gol CL 1.6, ano 1989, à álcool. Comprei-o do Agnaldo, um vendedor de carros amigo do papai, em 1998, meu último ano na faculdade e no almoxarifado da Usina Alta Mogiana. Como sempre, o papai fez a maior força pra eu comprá-lo, chegando inclusive a colocar a mobilete de minha irmã no negócio pra completar o dinheiro. Minha irmã, na época com 18 anos, ficou irritadíssima com ele, e de nada adiantou devolver-lhe o dinheiro naquele ano. Assim que o adquiri, fiz um baita sacrifício para comprar umas rodas de liga leve para deixá-lo com uma aparência mais arrojada. Se por um lado eu fazia de tudo para deixá-lo como eu queria, por outro o universo parecia conspirar para que as coisas sempre dessem errado. Por exemplo: em 2001 um rapaz embriagado bateu na traseira dele enquanto estava estacionado em frente à casa da vovó Maria. Ao ouvirmos um forte barulho enquanto almoçávamos, corremos em direção ao portão. Ao abri-lo, avistamos um rapaz aparentando entre 30 e 40 anos, com a testa sangrando, completamente embriagado, conduzindo uma criança no banco traseiro de um Fusca. A colisão projetara meu carro cerca de 2m à frente... O prejuízo, na época em torno de R$200,00, acabou ficando por minha conta. Quinze dias depois algum malandro arrombou-o enquanto estava estacionado em frente à casa da Débora, arrancou o tampão traseiro com os auto-falantes e os levou. A partir daquele dia eu fiquei desiludido e passei a preocupar-me apenas com a manutenção mecânica. Em 2003 eu derreti a junta do cabeçote do motor pela primeira vez em uma de minhas viagens para Franca. Na época, convidei meu primo Frederico para ir comigo. Enquanto falava com ele, que estava do outro lado do muro, fui completando a água do radiador. O fato é que eu acabei me esquecendo de colocar a tampa do reservatório quando terminei... Acabei ficando na estrada, e pra não perder a aula, deixei o carro no acostamento e cheguei ao destino de carona com um ônibus de estudante. No mês seguinte, novamente indo para Franca com a Débora, o cabeçote do radiador estourou, fazendo com que eu quase “fundisse” o motor novamente. Foi também com ele que viajamos para nossa lua-de-mel, em Poços de Caldas. Era ele que eu dirigia quando atropelei um motoqueiro a quatro esquinas de casa há 3 anos. E foi também com ele que viajei para Franca durante seis anos e no qual Débora e eu dávamos voltas e mais voltas pela cidade na época em que éramos namorados. Foram 13 anos de história e mais de 300 mil quilômetros rodados.
Quando finalmente chego à casa de meus pais, avisto um homem negro sentado no banco de madeira em frente ao meu carro. Ele sorri e me cumprimenta. Parece ser boa pessoa. Aos poucos vou sabendo sua história: assim como meu pai, é motorista e já teve um carro parecido com o que estou vendendo, mas que precisou desfazer-se dele para comprar seu caminhão. Ao que parece, sua esposa recebeu uma herança e agora quer comprar um carro para sua filha. “Vamos fazer o seguinte: eu te dou R$5.000,00 e você deixa o som e as rodas”, diz ele para começarmos a conversa. Esboço um sorriso, indignado. “Eu estava pensando em pedir R$7.000,00 e deixar só as rodas.” Agora é ele quem ri. Começo então a argumentar: “Veja só: é um carro muito conservado. Os bancos são do Gol moderno e o alternador é de 105 ampéres”, explico-lhe, tentando valorizar o produto. “É... mas a pintura do teto ta um pouco judiada...”, retruca ele. Após pensar, ele faz uma proposta: “Vamos fazer o seguinte: eu pago R$6.000,00 à vista e você deixa a fiação para o som e coloca uma bateria nova”. Fixo o olhar para um ponto qualquer do chão, procurando uma resposta. É um valor muito abaixo do que eu queria... Eis que o bom senso me abandona e eu sou tomado pela emoção. Dou-me conta de que estou vendendo um carro que não estou mais usando, que está parado debaixo da mangueira da casa de meus pais, sem bateria, e que sou privilegiado por ter dois carros. O homem que se candidatou a comprá-lo é um homem trabalhador, que provavelmente está passando pelas mesmas dificuldades que meu pai. Por um instante sinto-me o pior dos homens, como se quisesse tirar vantagem de um pai de família. Meu coração então amolece e eu aceito vender o carro por R$6.000,00.
Sábado, 27 de agosto. 9h30min. Estou saindo da casa da mamãe quando avisto o meu antigo carro, agora com seu novo proprietário ao volante. Está com sua esposa, que se dirige a mim pedindo gentilmente o xerox do documento para poderem pagar o seguro obrigatório. “Claro! Por favor, me sigam até o Xerox. Vou providenciar isso já!” Cinco minutos depois eu entrego a cópia do IPVA nas mãos do novo proprietário, com um sorriso no rosto. No entanto, o homem naquele carro parece ser outro. A expressão de homem bom parece ter desaparecido e dado lugar a um homem com humor ácido. “Se eu soubesse que o seguro venceria agora, não seria eu quem iria pagar”. Por uma fração de segundos meu sangue ferve. Ora, eu abri mão das rodas de liga leve que tanto gostava e ainda coloquei uma bateria novinha! O carro está com a mecânica impecável, com bancos novos e lataria praticamente sem podres! E eu entreguei o carro a ele por um preço muito abaixo do que eu queria, para uma pessoa que agora demonstra não apenas ingratidão, mas também um tom de quem quis realmente levar vantagem. “Pois se eu soubesse que você era assim, você não estaria sentado nesta banco, meu chapa!”, é o que meus pensamentos me impulsionam a dizer-lhe. Mas o bom senso, aquele mesmo que me abandonou quando vendi o carro, me aparece novamente. Dou então um tapa em seus ombros, ofereço-lhe um sorriso falso e dou-lhe as costas. “Boa sorte com seu carro novo.”

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Lembranças da tia Augusta

          A primeira lembrança que tenho da tia Augusta data de quando eu tinha 4 ou 5 anos. Na época, o papai levou-me até a casa da tia Alice pra visitar uns parentes que moravam no Paraná (anos depois eu descobriria que Paraná é um estado e não um lugar, e que a cidade em que eles moravam chamava-se Cambira). Dentre minhas lembranças, não tenho nenhuma em que a casa da tia Alice estivesse tão cheia. Já era noite e eu estava morrendo de sono. Quando cheguei na sala, todo mundo estava sentado, olhando para mim. Tímido, sempre acostumado a viver entre os milharais de Quirinópolis-GO, eu me escondi atrás da perna do papai. “Filho, pede bênção pro tio Chiquinho e pra tia Augusta”. Bem, na época eu não fazia idéia de quem eram eles, mas sabia que nunca tinham ido nos visitar lá em Quirinópolis-GO. Tive então a brilhante idéia de me recusar a pedir bênção. Foi a primeira vez que apanhei do papai...
              Embora morasse bem longe da gente, a tia Augusta tinha um carinho muito grande pelo papai e pela mamãe. Pesquisando no álbum de casamento deles, descobri que a tia Augusta e o tio Chiquinho vieram de Cambira para serem padrinhos de casamento de meus pais. Conhecendo hoje as circunstâncias em que o casamento aconteceu, posso afirmar que isso foi uma prova enorme de consideração e de carinho pelos meus pais.

Vasculhando em minha memória, encontrolembranças de ter ido visitar a tia Augusta por volta de 1986, época em que uma de nossas primas se casou. Lembro-me de ter ficado encantado com a casa dela, toda construída em madeira. Uma casa incrivelmente aconchegante. A casa ficava no fundo de um terreno bem extenso, e como o fundo estava em um nível mais elevado que a frente, a casa parecia estar no alto de uma colina. Simplesmente linda! A tia Augusta cuidava de tudo com muito capricho. Nunca me senti em um lugar tão agradável...
            Outras lembranças que tenho da tia Augusta só me aparecem mais de uma década depois. Agora já adulto, guardo com certa riqueza de detalhes minha passagem por lá nos últimos dias de 1998. Munido de meus livros, que eu levara para estudar para a prova de ingresso no mestrado, era difícil resistir aos papos com a tia Augusta. Ela guardava detalhes e histórias de meus bisavós e do tio Eduardo que meu avô havia esquecido. Tão agradável quanto ela era o tio Chiquinho. No fritar dos ovos, acabei engordando uns três quilos e acabei optando por estudar nas madrugadas a perder a oportunidade de falar com ela.

Retornamos à Cambira em 2002. Passados quatro anos, as coisas estavam bem diferentes na “casa da colina”. Tio Chiquinho havia sofrido um derrame nos olhos e perdera a visão. A tia Augusta que conheci naquele ano mostrara-se uma esposa apaixonada e dedicada. Bastava o tio Chiquinho esboçar alguma palavra e lá estava a tia Augusta ao seu lado. Embora pernoitássemos na casa de nossa prima Sueli, que na época era delegada de polícia, era na casa da tia Augusta que fazíamos todas as nossas refeições. Auxiliada pela prima Sônia, que ali também morava com os primos Fontana, Vinicius e Maria Augusta, ela fazia questão de que fôssemos muito bem tratados. Foi nessa ocasião em que tive minhas conversas mais longas com o tio Chiquinho. Já cego, ele me contou que sonhara estar em uma festa flertando com duas damas e foi atacado por dois homens. Um deles foi acertado com um soco e caiu. O outro desviara. “Imagina, Duardo! Ele quase me acertou!”, exclamava a tia Augusta, assustada com o fato do tio Chiquinho ter desferido um soco contra ela enquanto dormia, presumindo que estivesse lutando de verdade.  Foram dias muito bem aproveitados. A viagem de volta, porém, foi dolorosa, pois eu sabia que aquelas tinham sido minhas últimas conversas com ele.


Retornamos à Cambira em 2006. Tia Augusta parecia não ter envelhecido, mas suas pernas começavam a ficar pesadas. Passava a maior parte do tempo na cama ou sentada à mesa da cozinha, conversando comigo, com o papai ou com a mamãe. Sempre atenciosa e procurando garantir que fôssemos bem tratados, ela se apresentava como uma avó doce, atenciosa e carinhosa. Foi nesta ocasião em que tive com ela minhas mais longas conversas, a maioria delas sobre o passado.

Vi a tia Augusta pela última vez em janeiro de 2007. Estava um pouco mais nervosa que antes, talvez por ter perdido parte da força nas pernas, mas continuava doce e atenciosa. Seus olhos claros estavam agora menores e ainda mais cheios de ternura. Quando me olhavam, faziam com que eu tivesse vontade de abraça-la. E como era caloroso o abraço dela...

Tia Augusta nos deixou na madrugada do dia 10 de outubro, após quase um século de vida. Dedicada aos filhos e aos netos, era querida e adorada por todos, que certamente agora estão, assim como eu, com um enorme vazio no peito. Minhas lembranças da tia Augusta são tão doces quanto os aperitivos que ela nos oferecia como sobremesa. Ao lembrar dela, é impossível não sentir saudade. Queria que ela tivesse conhecido meu pequeno Miguel, mas Deus devia estar precisando de pessoas boas ao seu lado e a chamou para ocupar o lugar que ela tanto merece. Mas certamente ele a conhecerá  pelas minhas palavras e pela sua voz italiana das gravações de algumas de nossas conversas. Obrigado, tia Augusta, pelo privilégio de ter vivido momentos tão especiais ao lado da senhora!

domingo, 9 de outubro de 2011

Crônica 7 - Lealdade moderna

Houve uma época, em um país bem distante, em que os empregos de uma grande empresa eram selecionados através de rígidos processos seletivos. Havia pouquíssimas vagas e os salários oferecidos eram altíssimos. Quando abria uma vaga, surgiam candidatos de todos os cantos do país e do mundo. Os processos seletivos eram longos e muito disputados, pois o nível dos candidatos e das provas estavam à altura dos salários oferecidos. A seleção era feita em três etapas: uma prova escrita, de conhecimentos específicos, que era eliminatória, uma entrevista e avaliação do currículo do candidato.
Álvaro sempre sonhara em trabalhar naquela grande empresa, onde havia estagiado na época de graduação. Foi durante seu estágio que conheceu Nelson, um dos gerentes da empresa. Álvaro admirava Nelson pela sua forma informal de lidar com os funcionários da empresa e pela dinâmica com que gerenciava seu setor. Por outro lado, Nelson enxergou em Álvaro um potencial que o próprio desconhecia. Seus incentivos foram indispensáveis para que Álvaro tivesse um desempenho excepcional durante seu estágio, aumentando inclusive a produtividade do setor de Nelson, o que lhe rendeu não apenas elogios do diretor, mas também um bom aumento de salário. Os dois acabaram se ajudando mutuamente, e após o final do estágio, mantiveram um laço de amizade.
Na formatura, Álvaro graduou-se com todas as honras que um bom aluno podia conseguir, e logo conseguiu um excelente emprego. Aos poucos conseguiu economizar dinheiro e comprar seu carro, construir sua casa, casar-se e constituir uma linda família. Embora Álvaro estivesse feliz, o sonho de trabalhar naquela grande empresa nunca o abandonara.
Eis que um dia Álvaro recebeu um telefone de Nelson. “Vamos abrir uma vaga aqui na nossa empresa, e eu gostaria que você se candidatasse. Precisamos de alguém com o seu perfil: ético, dedicado, responsável e que saiba trabalhar em equipe”. Imediatamente um frio percorrera a espinha de Álvaro, deixando-o paralisado. “Temos vários currículos aqui, mas conhecendo o seu currículo, posso dizer que você só perde pra você mesmo”. Álvaro não sabia o que dizer. Era a oportunidade por que ele tanto esperava. Além disso, a idéia de trabalhar ao lado de Nelson em muito o agradava, principalmente pela amizade e respeito que tinha por ele.
A partir daquele dia, Álvaro passou a dedicar suas madrugadas para estudar para o tal concurso. “Você só perde pra você”. A frase pronunciada por Nelson ao telefone funcionava como um combustível para ele. “Se eu não fizer merda, a vaga é minha. Não dá nem pra acreditar!”, pensava. Os meses se passaram e o dia do concurso enfim chegou. Álvaro obteve a melhor nota na prova escrita. Seu desempenho deixou-o aliviado e confiante. Nelson, que acompanhara a correção das provas, ligou para parabenizar-lhe pelo resultado parcial. “Você mandou bem! Até agora, pelo seu desempenho, a vaga é sua!”
Vieram então a entrevista e a avaliação de currículo. O processo seletivo durara praticamente uma semana. Ao final do quinto dia, Álvaro, que fez o seu melhor, estava exausto, porém ainda mantinha suas esperanças. Afinal, seu desempenho tinha sido excelente na prova escrita. Por outro lado, era impossível prever o resultado das provas de entrevistas e avaliação de currículo, que se baseavam em critérios subjetivos. No entanto, as palavras de Nelson não lhe saíam da cabeça. “Precisamos de alguém com o seu perfil: ético, dedicado, responsável e que saiba trabalhar em equipe”.
Quatro anos se passaram. Álvaro continuou trabalhando na mesma empresa desde o término da graduação. Para a vaga que ele tanto sonhava foi escolhido um candidato que tivera um rendimento na prova escrita muito abaixo do seu. Sem saber os critérios que foram utilizados para a seleção, nem tampouco quais erros ele havia cometido durante a entrevista, Álvaro continuou trabalhando com afinco para aumentar a produtividade da empresa. Certo dia, decidiu sair mais cedo do trabalho e decidiu passar na empresa de Nelson para visitá-lo. Quando chegou à sala de Nelson, ouviu a voz de alguém conversando com ele. Álvaro ficou prostrado, sem saber o que fazer. Foi quando identificou a voz da outra pessoa como sendo aquele que fora aprovado no concurso que ele prestou há quatro anos. Em outras palavras, era a pessoa que ocupava a vaga que ele tanto quis um dia. Conteve o ímpeto de girar a maçaneta, e ao mesmo tempo conteve-se, evitando girar os calcanhares e ir embora. Foi então que conseguiu ouvir com clareza a voz de Nelson. “Você é a melhor contratação que nós poderíamos ter feito. Álvaro era bom, mas não tinha iniciativa e era pouco criativo”. Embora soubesse reconhecer os méritos do rapaz que ocupava a vaga que ele quis, Álvaro sentiu-se ferido e traído com aquelas palavras. Afinal, teria Nelson sido sincero com ele durante aquela ligação? Teria Nelson mudado de idéia ou será que aquele que se escondia atrás da porta era o verdadeiro Nelson que jamais se revelou a Álvaro? Ou, ainda, será que a admiração que Álvaro tinha por ele o impediu todos aqueles anos de enxergar o verdadeiro Nelson? Enfim, um sem número de interrogações sobre a amizade e a lealdade de Nelson lhe surgiu à mente.
Álvaro manteve contato com Nelson, porém nunca lhe contou o que ouvira por trás da porta naquele dia em que fora visitá-lo na empresa. Um ano depois de ter ouvido a conversa por trás da porta, Álvaro recebeu uma ligação de Nelson. “Álvaro, abriu uma vaga aqui na empresa e eu gostaria que você se candidatasse. Precisamos de alguém com o seu perfil: ético, dedicado, responsável e...”. Sem deixar que Nelson terminasse, Álvaro deu-lhe como resposta o “tu-tu-tu” do telefone desligado.
Seja leal, mas não espere lealdade de quem você a dedica.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

De joelhos

           30 de janeiro de 2011. São 15h. Estamos na festa de casamento de meu amigo Carlos, que eu conheço há quase 20 anos. Seus pais são pessoas de bem e sempre me trataram como se fosse filho deles. Estamos sentados à mesa com eles, contando lorotas e nos divertindo. Acabamos de "passar a gravata". O dinheiro arrecadado foi excelente! Mas... está chegando a hora de ir embora. Às 17 horas jogarei minha primeira partida de futebol do ano. Foi uma das promessas que fiz no início do ano: vou cuidar de minha saúde e voltar a jogar futebol.
          17h43min. Estou na quadra de grama sintética do Renato Requi, a três esquinas da casa de meus pais. Nossa turma é constituída por rapazes muito mais jovens que eu, mas eu não passo vergonha. Ainda dou meus chutes “de bico” para o gol e consigo ser eficiente na marcação. Esta é minha última partida do dia. Aliás, a última deveria ter sido a anterior. Já estou cansado e satisfeito com meu desempenho após tanto tempo sem jogar. Eis que a bola sobra para mim. Respiro fundo, corto para a direita e ensaio uma arrancada para o ataque. Um passo, dois passos... e meu pé se prende na grama e meu joelho se desloca, fazendo um barulho enorme. “Puta que pariu, o joelho dele fudeu!”, grita um colega que está assistindo ao jogo do alambrado. Já no chão, levo a mão ao joelho direito. Acho que nunca senti tanta dor em minha vida. “Não fui eu!”, diz um que estava próximo. Não, a culpa não foi de ninguém. Eu caí sozinho! Apóio-me no ombro de dois colegas, que me ajudam a pular na perna esquerda até chegar ao alambrado. Ali permaneço até o final do horário, com as proteções para o joelho, que nada adiantaram, nas mãos. Mal consigo colocar o pé no chão...
18h15min. Com dificuldade, consigo subir as escadas da garagem e chegar à porta da cozinha. Quando ouve meus gemidos, Débora leva as mãos ao rosto, assustada. “Meu Deus, o que aconteceu?”, pergunta ela, preocupada. “Nada, não, amor. Acho que não irei andar nunca mais. Estourei todos os ligamentos do joelho!”
15 de fevereiro. 13h50min. Estou sendo avaliado pelo fisioterapeuta aqui da faculdade. Ele faz inúmeros testes e não encontra nada de grave. “Talvez tenha sido algum ligamento lateral, mas não é nada pra se preocupar.” Serão dois meses de fisioterapia intensos. Pelo menos vou ficar bem. Ele disse que, de qualquer forma, devo procurar um médico e fazer uma ressonância, pois não dá pra dar um diagnóstico confiável sem a ressonância.
5 de outubro. Enfim tomei coragem e procurei o médico especialista em joelhos. Conto a ele o meu caso. Ele pede pra eu subir na maca, pega minhas pernas pelas panturrilhas e as gira. “Viu só? Seu joelho direito está solto! Seu joelho está estalando por causa dos ligamentos. Você rompeu o ligamento cruzado anterior”. Preocupado, lanço a pergunta inevitável: “Tem cura?”. A resposta é a que eu mais temia: “Tem: cirurgia”. Ao notar meu pânico, ele continua: “Como não está inchando nem doendo, você poderá levar uma vida normal, mas não poderá jogar futebol, vôlei ou qualquer outro esporte em que você pule, gire o joelho ou precise dar arranques. Ah, um detalhe: se você quiser fazer a cirurgia, é melhor que seja antes dos 40 anos." Depois de finalizar dizendo que posso ter futuramente uma artrose por causa de minhas pernas arqueadas como as do Garrincha, o médico senta-se e escreve uma carta de recomendação ao professor de educação física e prescreve uma lista caríssima de medicamentos para eu tomar nos próximos seis meses. Agradeço-lhe e me despeço, não apenas dele, mas também do futebol. A partir de agora, se eu tiver juízo, futebol só pela televisão e em minhas lembranças da adolescência, quando cheguei a jogar pelo time do clube da Baixada aos 14 anos. Diante de tudo isso, devo me ajoelhar diante de um fato irrefutável: estou realmente ficando velho...

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Minhas professoras - parte 2

Dona Dalva foi minha professora en 1985 e 1986, na 3ª e na 4ª séries do ensino fundamental. Assim como a dona Neide, ela também havia sido professora de minha mãe. Embora eu guarde grande respeito e consideração pela dona Nadir e pela dona Neide, tenho dona Dalva como uma verdadeira "mãezona". Além de ser uma ótima professora, era rígida como tinha que ser e sabia ser gentil quando precisava. Foi ela quem me salvou das brigas com o Paçoca e com o Betinho. Basta fechar de olhos para eu voltar à última sala do lado direito do segundo andar do bloco esquerdo da escola Manoel Gouveia de Lima, onde eu me sentava na última carteira. Na época, obviamente, eu ainda conseguia enxergar tudo o que ela escrevia na lousa sem precisar de óculos ou de lentes de contato. Quanta saudade...
No ano seguinte, em 1987, conheci as duas professoras que mais me marcaram, e que tiveram a maior importância na minha formação escolar. As professoras Maria Auxiliadora da Rocha Corradini e a professora Ana Maria de Carvalho Perez foram as grandes responsáveis pela minha formação em Língua Portuguesa e Matemática, respectivamente. Sempre elegante, a dona Auxiliadora, como era conhecida, andava com as unhas feitas e com o cabelo sempre arrumado, na altura dos ombros. Já na quinta-série indicava livros pra gente ler e marcava um dia para o discutirmos na forma de seminário. Ensinava-nos as regras de pontuação, concordância, acentuação e tudo o que eu sei sobre Gramática da Língua Portuguesa. Aliás, devo ressaltar que é melhor utilizar o verbo saber no passado, pois com as mudanças nas regras, hoje estou totalmente desorientado. Ela sempre dizia que ninguém tirava A na prova dela. Acostumado a lidar com os desafios que o papai sempre me impôs, lembro-me de sempre levar as provas dela para ele assinar. Eram sempre as melhores da turma. Pois é, um dos únicos alunos analfabetos da 1ª. série viera a tornar-se o melhor aluno da turma. Bons tempos... Como a dona Auxiliadora morava há uma esquina de casa, minha mãe a via sempre indo pra escola. Mais um bom motivo pra eu ter andado na linha nos quatro anos em que ela foi minha professora. Não sei se terei oportunidade de dizer isso a ela pessoalmente, mas minha gratidão para com ela é imensa.
Quanto à dona Ana, fica difícil expressar a grandeza do sentimento e do respeito que tenho por ela. Seus dois filhos, os gêmeos Fábio e a Fabiana, e seus dois sobrinhos, Anderson Perez e Fábio Turazza, estudavam na mesma sala que eu. Considero que isso foi um privilégio, pois ela ofereceu pra gente uma Matemática de altíssimo nível - afinal, estava ensinando aos seus próprios filhos. Ao término da 8ª. série, alguns alunos foram prestar Vestibulinho no Anglo pra conseguir descontos no colegial. Eu fiquei em 13º dentre os 250 que prestaram. Pena que eram apenas 5 bolsas... A dona Ana exigia que a gente fizesse um livrinho com fórmulas – ela dizia que iríamos usá-lo pela vida toda – e deixava um dia da semana pra gente estudar Geometria. Devo o que sei sobre Matemática a ela. Apesar de tudo, foi sua atitude na 8ª. série que mais me marcou. Precisavam de um aluno pra ser o orador da turma. Mesmo com seus filhos e sobrinhos, ela acabou me escolhendo. Justamente eu, o mais tímido de todos... “Mas dona Ana, eu...”, ia eu desistindo quando ela me interceptou com um sonoro  “Não quero saber. Vai ser você mesmo. Te vira!” No dia da formatura, acabei fazendo um discurso que fez muitos pais chorarem (Ainda falarei deste assunto em uma outra oportunidade). A ela, minha eterna gratidão!
Finalmente, merecem ser lembradas a dona Lisete e a dona Ednéia, ambas professoras de Educação Artística. A dona Lisete, minha professora na 5ª. série, deixava nos cadernos de desenho comentários do tipo “Lindo! Parabéns! Muito bom! Continue assim”. O Fábio, filho da dona Ana, sempre foi muito bom nos desenhos e, por isso, recebia mil elogios dela por causa de seus desenhos. "Não é possível esse cara desenhar tão bem assim. Será que ele não cola?" Pelo sim, pelo não, eu passei inúmeras tardes copiando desenhos pra treinar meu traço. Acabamos nos tornando os melhores desenhistas da sala. Quase 4 anos depois, ao final da 8ª. série, quando fomos até a casa dele fazer um trabalho de Ciências, achamos sem querer uns papéis de seda com uns desenhos. Descobri então que ele recebia elogios por desenhos que ele colava. De qualquer forma, graças aos incentivos da dona Lisete, aprendi a desenhar razoavelmente bem, chegando inclusive a desenhar alguns rostos (mostrarei os desenhos aqui também em ocasião oportuna). Quanto à dona Ednéia, ela convidou-me na 8ª. série para participar de um teatro, onde eu interpretaria um palhaço que havia esquecido como sorrir. Eu seria o protagonista – ou seja, o palhaço! Eu me lembro de ensaiar em várias outras classes. Foi a primeira vez em que eu protagonizei algo, e a primeira vez que eu me senti feliz fazendo os outros rirem. Meu pai, no entanto, ficou puto da vida. “Você já é meio bobo e ainda vai fazer papel de palhaço? Mas nem pensar!”. O teatro acabou não vingando por outras razões, mas minha gratidão e respeito pela dona Ednéia sempre existirão. Sem dúvida foi uma professora que fez a diferença!
Dentre essas professoras que mencionei, sei que a dona Auxiliadora, dona Ana e dona Ednéia estão vivas e com saúde. Mamãe diz que as vê de vez em quando, e ainda hoje elas se lembram de mim e me elogiam para ela, deixando-a cheia de orgulho. Quanto às outras, não sei por onde andam. Talvez a dona Nadir, dona Neide e dona Dalva tenham falecido ou estejam velhinhas demais pra se lembrar de mim. Em minhas lembranças, no entanto, todas elas serão eternas. Que este post seja uma homenagem e uma forma de gratidão a tudo o que elas fizeram por mim e por tantos outros alunos. Sem dúvida elas me influenciaram desde cedo, talvez sem querer, a seguir a mesma profissão que elas...

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Minhas professoras - parte 1


Quando venci os portões da escola “Manoel Gouveia de Lima” pela primeira vez, em fevereiro de 1983, fiquei fascinado. Afinal, eu era uma criança que vivera, desde o meu nascimento, em uma casa à beira de uma estrada de terra batida, a 30 km da cidade de Quirinópolis-GO, e que estava acostumada a conviver com o verde das plantações de milho e de soja, que meu pai cultivava para a nossa sobrevivência, e a passar manhãs e tardes a admirar os coqueirais e os cerrados. Ainda me lembro daquela alegria que senti ao me deparar com tantas outras crianças que tinham a mesma idade que eu. Hoje, olhando com outros olhos, percebo que foi naquele momento que eu decidi jamais me afastar de um ambiente escolar. Entretanto, ao entrar em sala de aula pela primeira vez, a alegria deu lugar ao espanto. As palavras que a professora Nadir escrevia no quadro negro pareciam-me rabiscos ou, talvez, alguma espécie de código que só os outros alunos conseguiam decifrar. Foi então que percebi que eu era o único aluno daquela sala que não havia cursado a pré-escola e, portanto, era o único que não sabia ler nem escrever... Em outras palavras, eu acabava de ser apresentado ao primeiro dos grandes desafios que me seriam impostos na vida.
Em pouco mais de seis meses, graças a muito esforço e dedicação, e principalmente ao apoio de minha mãe, eu já era capaz de entender as palavras e a construir frases inteiras. Depois das letras vieram os números. Percebi que eles queriam dizer algo, e que para entendê-los eu precisava parar e pensar. Desde o início eu achava este “diálogo” com os números muito prazeroso, embora eu percebesse que muitos dos meus colegas de classe não sentiam o mesmo. Acostumado com a vida na zona rural, onde todos se ajudavam, eu me acostumei a fazer tarefa em companhia de meus colegas e a discutir em grupo as operações básicas da Matemática. Sem que eu soubesse, brotava ali não apenas a minha vocação pelas Ciências Exatas, mas também o imenso prazer de aprender e ensinar.
A despeito das dificuldades enfrentadas naqueles duros primeiros meses de minha vida escolar, meu pai estipulou que ao final de cada bimestre eu deveria apresentar-lhe o boletim escolar para que ele próprio pudesse analisar minhas notas. Entretanto, por melhores que elas fossem, a resposta que eu ouvia era sempre a mesma: “Tá bom, filho, mas pode melhorar”. Estas palavras ecoaram em minha mente durante toda a minha adolescência, e ainda hoje são a mola propulsora que me impulsiona à superação nos momentos de fraqueza.
As lembranças que tenho da Dona Nadir, minha primeira professora, são raras porém marcantes. Foi com ela que aprendi a desenhar as palavras e a entender o seu significado. Sua paciência para comigo foi indispensável para que eu conseguisse escrever este post. Talvez mais por ter acalmado minha mãe diante da incapacidade inicial. Afinal, eu era o único analfabeto da turma.
Minha professora de segunda série foi a dona Neide. Pra minha sorte – ou diria azar? – a ela havia sido também professora de minha mãe. Não era de se esperar, portanto, que fosse uma mulher jovem. Sisuda, não me lembro de um sorriso sequer, embora tivesse uma enorme marca de expressão descendo do nariz até o queixo. Minha mãe dizia que ela morava no prédio – na época, só havia um aqui em São Joaquim – razão pela qual eu procurava passar correndo por ele quando minha mãe e eu passávamos em frente ao tal edifício. Sentada em sua cadeira, de pernas cruzadas e trajando jeans, dona Neide acendia seu cigarro e ficava aguardando a turma terminar de copiar ou de fazer os exercícios que ela havia passado na lousa. Não raramente, um ou outro aluno começava a tossir por causa da fumaça.
“Cala a boca e faz o exercício!’, dizia ela.
É, meus amigos, pedagogia é tudo!

sábado, 1 de outubro de 2011

De pai para filho, de filho para pai

“Dado, toda noite eu sonho com o pai”. Enquanto pronuncia essas palavras, o papai, deitado na rede, olha para alguma estrela perdida no céu escuro, onde espera encontrar conforto para a sua dor. Meu avô faleceu no final de 2008. Minha avó deixou-nos no início deste ano. Por mais que ele amasse minha avó, é com meu avô que meu pai sonha todas as noites. “Esta noite eu sonhei que a gente estava tocando terra no Goiás”, conta.
É bem possível que os dois estejam se dando melhor nos sonhos que na vida real. O que sei é que meu avô e meu pai tinham sérias diferenças. Meu pai nunca concordou com as “escapadas” de meu avô, mas nunca o desrespeitou. Quando criança, ao ver meu avô agredindo minha avó fisicamente, meu pai limitou-se a deixar de pedir sua bênção. E assim o fez até o último dia de vida de meu avô. Curiosamente, em uma das últimas conversas que tive com meu avô, perguntei-lhe qual de seus 5 filhos era mais parecido com ele. “Seu pai”, respondeu ele. Meu pai ficara surpreso ao saber, já que dele jamais recebera um abraço sequer ao longo de toda a vida.
Nos sonhos de meu pai não há conflitos entre ele e meu avô. Pelo contrário: os dois sempre trabalham juntos e/ou dividem alguma tarefa. São grandes amigos. Talvez meu pai sonhe tanto com ele porque nos sonhos os dois mantêm o tipo de relacionamento mutuamente respeitoso que meu pai sempre quis ter com ele. “Eu nunca faltei ao respeito com ele”, diz o papai. É, aliás, uma frase que o papai vive sempre repetindo.
O papai vem de uma família de italianos. Sempre pregou que a família é tudo na vida de um homem, e que um homem não tem outros amigos que não sejam seus pais. Além disso, sempre procurou fazer com que eu aceitasse que um homem vale o que tem no bolso. É verdade que minhas experiências mostraram que ele estava equivocado em alguns destes conceitos. Por outro lado, é também verdade que esses conceitos foram passados a ele pelos meus avós. Hoje, sem os pais, com pouquíssimos amigos (na verdade, não me lembro de nenhum nome neste momento...), sem forças para trabalhar e vivendo de uma mísera aposentadoria, meu pai continua a olhar para o céu em busca de redenção para suas escolhas equivocadas, por ter tantas vezes colocado seus filhos e sua esposa em segundo plano e dado mais importância a seus pais e a seus irmãos, alguns dos quais sequer falam com ele.
Enquanto isso, sua esposa e sua nora brincam na sala ao lado com seu neto de quatro meses.  De repente, com um sorriso estampado do rosto, ele se levanta da rede. Com os cabelos e os pêlos do peito grisalhos, sem camisa e vestindo apenas uma bermuda feita de calça cortada, ele caminha a passos curtos em direção à sala, mancando por causa do esporão que o incomoda há anos. “Olha que gracinha, bem!”, diz ele pra mamãe, soltando em seguida uma gargalhada. É chegada a hora de deixar um legado melhor que o que ele recebeu. Sentado, olhando para o céu, agora sou eu quem sorri. “Obrigado, meu Deus, pela oportunidade de ser pai”.