domingo, 9 de outubro de 2011

Crônica 7 - Lealdade moderna

Houve uma época, em um país bem distante, em que os empregos de uma grande empresa eram selecionados através de rígidos processos seletivos. Havia pouquíssimas vagas e os salários oferecidos eram altíssimos. Quando abria uma vaga, surgiam candidatos de todos os cantos do país e do mundo. Os processos seletivos eram longos e muito disputados, pois o nível dos candidatos e das provas estavam à altura dos salários oferecidos. A seleção era feita em três etapas: uma prova escrita, de conhecimentos específicos, que era eliminatória, uma entrevista e avaliação do currículo do candidato.
Álvaro sempre sonhara em trabalhar naquela grande empresa, onde havia estagiado na época de graduação. Foi durante seu estágio que conheceu Nelson, um dos gerentes da empresa. Álvaro admirava Nelson pela sua forma informal de lidar com os funcionários da empresa e pela dinâmica com que gerenciava seu setor. Por outro lado, Nelson enxergou em Álvaro um potencial que o próprio desconhecia. Seus incentivos foram indispensáveis para que Álvaro tivesse um desempenho excepcional durante seu estágio, aumentando inclusive a produtividade do setor de Nelson, o que lhe rendeu não apenas elogios do diretor, mas também um bom aumento de salário. Os dois acabaram se ajudando mutuamente, e após o final do estágio, mantiveram um laço de amizade.
Na formatura, Álvaro graduou-se com todas as honras que um bom aluno podia conseguir, e logo conseguiu um excelente emprego. Aos poucos conseguiu economizar dinheiro e comprar seu carro, construir sua casa, casar-se e constituir uma linda família. Embora Álvaro estivesse feliz, o sonho de trabalhar naquela grande empresa nunca o abandonara.
Eis que um dia Álvaro recebeu um telefone de Nelson. “Vamos abrir uma vaga aqui na nossa empresa, e eu gostaria que você se candidatasse. Precisamos de alguém com o seu perfil: ético, dedicado, responsável e que saiba trabalhar em equipe”. Imediatamente um frio percorrera a espinha de Álvaro, deixando-o paralisado. “Temos vários currículos aqui, mas conhecendo o seu currículo, posso dizer que você só perde pra você mesmo”. Álvaro não sabia o que dizer. Era a oportunidade por que ele tanto esperava. Além disso, a idéia de trabalhar ao lado de Nelson em muito o agradava, principalmente pela amizade e respeito que tinha por ele.
A partir daquele dia, Álvaro passou a dedicar suas madrugadas para estudar para o tal concurso. “Você só perde pra você”. A frase pronunciada por Nelson ao telefone funcionava como um combustível para ele. “Se eu não fizer merda, a vaga é minha. Não dá nem pra acreditar!”, pensava. Os meses se passaram e o dia do concurso enfim chegou. Álvaro obteve a melhor nota na prova escrita. Seu desempenho deixou-o aliviado e confiante. Nelson, que acompanhara a correção das provas, ligou para parabenizar-lhe pelo resultado parcial. “Você mandou bem! Até agora, pelo seu desempenho, a vaga é sua!”
Vieram então a entrevista e a avaliação de currículo. O processo seletivo durara praticamente uma semana. Ao final do quinto dia, Álvaro, que fez o seu melhor, estava exausto, porém ainda mantinha suas esperanças. Afinal, seu desempenho tinha sido excelente na prova escrita. Por outro lado, era impossível prever o resultado das provas de entrevistas e avaliação de currículo, que se baseavam em critérios subjetivos. No entanto, as palavras de Nelson não lhe saíam da cabeça. “Precisamos de alguém com o seu perfil: ético, dedicado, responsável e que saiba trabalhar em equipe”.
Quatro anos se passaram. Álvaro continuou trabalhando na mesma empresa desde o término da graduação. Para a vaga que ele tanto sonhava foi escolhido um candidato que tivera um rendimento na prova escrita muito abaixo do seu. Sem saber os critérios que foram utilizados para a seleção, nem tampouco quais erros ele havia cometido durante a entrevista, Álvaro continuou trabalhando com afinco para aumentar a produtividade da empresa. Certo dia, decidiu sair mais cedo do trabalho e decidiu passar na empresa de Nelson para visitá-lo. Quando chegou à sala de Nelson, ouviu a voz de alguém conversando com ele. Álvaro ficou prostrado, sem saber o que fazer. Foi quando identificou a voz da outra pessoa como sendo aquele que fora aprovado no concurso que ele prestou há quatro anos. Em outras palavras, era a pessoa que ocupava a vaga que ele tanto quis um dia. Conteve o ímpeto de girar a maçaneta, e ao mesmo tempo conteve-se, evitando girar os calcanhares e ir embora. Foi então que conseguiu ouvir com clareza a voz de Nelson. “Você é a melhor contratação que nós poderíamos ter feito. Álvaro era bom, mas não tinha iniciativa e era pouco criativo”. Embora soubesse reconhecer os méritos do rapaz que ocupava a vaga que ele quis, Álvaro sentiu-se ferido e traído com aquelas palavras. Afinal, teria Nelson sido sincero com ele durante aquela ligação? Teria Nelson mudado de idéia ou será que aquele que se escondia atrás da porta era o verdadeiro Nelson que jamais se revelou a Álvaro? Ou, ainda, será que a admiração que Álvaro tinha por ele o impediu todos aqueles anos de enxergar o verdadeiro Nelson? Enfim, um sem número de interrogações sobre a amizade e a lealdade de Nelson lhe surgiu à mente.
Álvaro manteve contato com Nelson, porém nunca lhe contou o que ouvira por trás da porta naquele dia em que fora visitá-lo na empresa. Um ano depois de ter ouvido a conversa por trás da porta, Álvaro recebeu uma ligação de Nelson. “Álvaro, abriu uma vaga aqui na empresa e eu gostaria que você se candidatasse. Precisamos de alguém com o seu perfil: ético, dedicado, responsável e...”. Sem deixar que Nelson terminasse, Álvaro deu-lhe como resposta o “tu-tu-tu” do telefone desligado.
Seja leal, mas não espere lealdade de quem você a dedica.

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei td que li, sobre vc ...por coeicidencia..professor...como eu.Estava lendo outro assunto e te achei interessante...resolvi comentar...bj mais uma amiga NEUZA