domingo, 30 de outubro de 2011

Crônica 8 - A morte revela os hipócritas

Padilha era um homem elegante. Magro, andava sempre alinhado. Não era rico, mas possuía bens materiais suficientes para dar-se o luxo de freqüentar bailes e festas. A dança era sua paixão. Era, como costumam dizer, um verdadeiro pé de valsa. Em um desses bailes conheceu Eleonora. A atração foi imediata. Após poucos encontros, os dois se apaixonaram. Mas havia um pequeno detalhe: Padilha era casado havia mais de 30 anos. Seus filhos jamais aprovariam aquele relacionamento. Nem sua mulher, obviamente.
Em pouco tempo o namoro entre Padilha e Eleonora tornou-se um caso. A esposa de Padilha tomou conhecimento, porém, eternamente apaixonada pelo esposo, fingiu que nada acontecia. Os filhos, todavia, revoltaram-se. “Se eu encontrar aquela desgraçada na rua, vou dar um pau nela”, dizia um dos filhos. “Se ele não largar de pouca vergonha, vamos cortar o plano de saúde dele”, ameaçava uma das filhas. “Esse velho desgraçado podia tomar veneno e morrer!”, esbravejava um outro.
Os anos se passaram. Padilha aos poucos foi perdendo sua saúde, adoeceu e acabou falecendo. No velório, os filhos reuniram-se em torno do caixão. Choraram juntos e lamentaram a partida de seu patriarca. “O pai era um homem tão bom...”, dizia a filha que queria cortar seu plano de saúde. “Coitado, sofreu tanto pra morrer...”, lamentava o filho que desejou que ele se envenenasse”. Um dos netos, emocionado, decidiu descrever a tristeza daquele momento em seu site. Quase foi crucificado. “Quem ele está pensando que é? Que falta de respeito com nosso pai!” A morte de Padilha tornara sagrado o seu nome entre os filhos que deixou.
Dois anos depois, no velório da esposa de Padilha, uma cena familiar. “Coitada, sofreu tanto pra morrer...”. “Ela era uma mulher tão boa...” Os filhos novamente se reuniram em torno do caixão e choraram mais uma perda. Era a imagem de uma família unida. Padilha e sua esposa, agora nos céus, viraram santos. Seus filhos, ainda na terra, tornaram-se anjos. Dias depois estavam em pé de guerra no tribunal. Cada um dizia ter sido um filho melhor que os irmãos e que, por isso, defendia uma fatia maior dos bens que Padilha deixou. Alguns irmãos tornaram-se inimigos. E ninguém mais se lembra de Padilha, de sua esposa ou de Eleonora. Nem tampouco que um dia foram uma família.
A morte gera os mártires e revela os hipócritas.

Um comentário:

Carla disse...

A morte gera os mártires e revela os hipócritas

Bem isso