sexta-feira, 7 de outubro de 2011

De joelhos

           30 de janeiro de 2011. São 15h. Estamos na festa de casamento de meu amigo Carlos, que eu conheço há quase 20 anos. Seus pais são pessoas de bem e sempre me trataram como se fosse filho deles. Estamos sentados à mesa com eles, contando lorotas e nos divertindo. Acabamos de "passar a gravata". O dinheiro arrecadado foi excelente! Mas... está chegando a hora de ir embora. Às 17 horas jogarei minha primeira partida de futebol do ano. Foi uma das promessas que fiz no início do ano: vou cuidar de minha saúde e voltar a jogar futebol.
          17h43min. Estou na quadra de grama sintética do Renato Requi, a três esquinas da casa de meus pais. Nossa turma é constituída por rapazes muito mais jovens que eu, mas eu não passo vergonha. Ainda dou meus chutes “de bico” para o gol e consigo ser eficiente na marcação. Esta é minha última partida do dia. Aliás, a última deveria ter sido a anterior. Já estou cansado e satisfeito com meu desempenho após tanto tempo sem jogar. Eis que a bola sobra para mim. Respiro fundo, corto para a direita e ensaio uma arrancada para o ataque. Um passo, dois passos... e meu pé se prende na grama e meu joelho se desloca, fazendo um barulho enorme. “Puta que pariu, o joelho dele fudeu!”, grita um colega que está assistindo ao jogo do alambrado. Já no chão, levo a mão ao joelho direito. Acho que nunca senti tanta dor em minha vida. “Não fui eu!”, diz um que estava próximo. Não, a culpa não foi de ninguém. Eu caí sozinho! Apóio-me no ombro de dois colegas, que me ajudam a pular na perna esquerda até chegar ao alambrado. Ali permaneço até o final do horário, com as proteções para o joelho, que nada adiantaram, nas mãos. Mal consigo colocar o pé no chão...
18h15min. Com dificuldade, consigo subir as escadas da garagem e chegar à porta da cozinha. Quando ouve meus gemidos, Débora leva as mãos ao rosto, assustada. “Meu Deus, o que aconteceu?”, pergunta ela, preocupada. “Nada, não, amor. Acho que não irei andar nunca mais. Estourei todos os ligamentos do joelho!”
15 de fevereiro. 13h50min. Estou sendo avaliado pelo fisioterapeuta aqui da faculdade. Ele faz inúmeros testes e não encontra nada de grave. “Talvez tenha sido algum ligamento lateral, mas não é nada pra se preocupar.” Serão dois meses de fisioterapia intensos. Pelo menos vou ficar bem. Ele disse que, de qualquer forma, devo procurar um médico e fazer uma ressonância, pois não dá pra dar um diagnóstico confiável sem a ressonância.
5 de outubro. Enfim tomei coragem e procurei o médico especialista em joelhos. Conto a ele o meu caso. Ele pede pra eu subir na maca, pega minhas pernas pelas panturrilhas e as gira. “Viu só? Seu joelho direito está solto! Seu joelho está estalando por causa dos ligamentos. Você rompeu o ligamento cruzado anterior”. Preocupado, lanço a pergunta inevitável: “Tem cura?”. A resposta é a que eu mais temia: “Tem: cirurgia”. Ao notar meu pânico, ele continua: “Como não está inchando nem doendo, você poderá levar uma vida normal, mas não poderá jogar futebol, vôlei ou qualquer outro esporte em que você pule, gire o joelho ou precise dar arranques. Ah, um detalhe: se você quiser fazer a cirurgia, é melhor que seja antes dos 40 anos." Depois de finalizar dizendo que posso ter futuramente uma artrose por causa de minhas pernas arqueadas como as do Garrincha, o médico senta-se e escreve uma carta de recomendação ao professor de educação física e prescreve uma lista caríssima de medicamentos para eu tomar nos próximos seis meses. Agradeço-lhe e me despeço, não apenas dele, mas também do futebol. A partir de agora, se eu tiver juízo, futebol só pela televisão e em minhas lembranças da adolescência, quando cheguei a jogar pelo time do clube da Baixada aos 14 anos. Diante de tudo isso, devo me ajoelhar diante de um fato irrefutável: estou realmente ficando velho...

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