sábado, 1 de outubro de 2011

De pai para filho, de filho para pai

“Dado, toda noite eu sonho com o pai”. Enquanto pronuncia essas palavras, o papai, deitado na rede, olha para alguma estrela perdida no céu escuro, onde espera encontrar conforto para a sua dor. Meu avô faleceu no final de 2008. Minha avó deixou-nos no início deste ano. Por mais que ele amasse minha avó, é com meu avô que meu pai sonha todas as noites. “Esta noite eu sonhei que a gente estava tocando terra no Goiás”, conta.
É bem possível que os dois estejam se dando melhor nos sonhos que na vida real. O que sei é que meu avô e meu pai tinham sérias diferenças. Meu pai nunca concordou com as “escapadas” de meu avô, mas nunca o desrespeitou. Quando criança, ao ver meu avô agredindo minha avó fisicamente, meu pai limitou-se a deixar de pedir sua bênção. E assim o fez até o último dia de vida de meu avô. Curiosamente, em uma das últimas conversas que tive com meu avô, perguntei-lhe qual de seus 5 filhos era mais parecido com ele. “Seu pai”, respondeu ele. Meu pai ficara surpreso ao saber, já que dele jamais recebera um abraço sequer ao longo de toda a vida.
Nos sonhos de meu pai não há conflitos entre ele e meu avô. Pelo contrário: os dois sempre trabalham juntos e/ou dividem alguma tarefa. São grandes amigos. Talvez meu pai sonhe tanto com ele porque nos sonhos os dois mantêm o tipo de relacionamento mutuamente respeitoso que meu pai sempre quis ter com ele. “Eu nunca faltei ao respeito com ele”, diz o papai. É, aliás, uma frase que o papai vive sempre repetindo.
O papai vem de uma família de italianos. Sempre pregou que a família é tudo na vida de um homem, e que um homem não tem outros amigos que não sejam seus pais. Além disso, sempre procurou fazer com que eu aceitasse que um homem vale o que tem no bolso. É verdade que minhas experiências mostraram que ele estava equivocado em alguns destes conceitos. Por outro lado, é também verdade que esses conceitos foram passados a ele pelos meus avós. Hoje, sem os pais, com pouquíssimos amigos (na verdade, não me lembro de nenhum nome neste momento...), sem forças para trabalhar e vivendo de uma mísera aposentadoria, meu pai continua a olhar para o céu em busca de redenção para suas escolhas equivocadas, por ter tantas vezes colocado seus filhos e sua esposa em segundo plano e dado mais importância a seus pais e a seus irmãos, alguns dos quais sequer falam com ele.
Enquanto isso, sua esposa e sua nora brincam na sala ao lado com seu neto de quatro meses.  De repente, com um sorriso estampado do rosto, ele se levanta da rede. Com os cabelos e os pêlos do peito grisalhos, sem camisa e vestindo apenas uma bermuda feita de calça cortada, ele caminha a passos curtos em direção à sala, mancando por causa do esporão que o incomoda há anos. “Olha que gracinha, bem!”, diz ele pra mamãe, soltando em seguida uma gargalhada. É chegada a hora de deixar um legado melhor que o que ele recebeu. Sentado, olhando para o céu, agora sou eu quem sorri. “Obrigado, meu Deus, pela oportunidade de ser pai”.

Um comentário:

Rodrigo C. S. V. disse...

Amém, meu irmão. Amém!