quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Fragmentos de minha infância - parte 16


(Este post é continuação das partes 14 e 15)

        Ao me ver caído, jogado entre timbetes e cacos-de-vidro, a mamãe começa a chorar. "Tair, pelo amor de Deus, não faz isso!" Mas o papai está dominado pela raiva e não dá ouvidos às suas súplicas. Enquanto ele dá mais alguns nós na corda e a ajeita na mão direita, eu tento me levantar. Meu bumbum está doendo, deve ter se machucado quando eu caí. Minhas mãos estão sujas, minhas costas estão molhadas pelo sereno que ainda resta sobre o mato rasteiro. Tomo coragem e olho para o rosto do papai. O meu herói, o meu grande amigo parece ter desaparecido e dado lugar a um homem raivoso e vingativo, que me empurra novamente para a relva e começa a desferir golpes certeiros com a corda em minhas pernas. "Isso é pra você aprender a deixar de fazer gracinha quando eu estiver fazendo negócio, seu fidumaputa!" O primeiro golpe pega nas pernas. A força daquele golpe parece trazer consigo todo o peso do braço do papai. A calça não é suficiente para amortecer o golpe. Dói muito... "Não, papai!" O segundo golpe pega na coxa. O choque da corda levanta um enorme vergão vermelho. "Pára, papai, por favor!" Pode ser que o papai não seja tão forte como o Hulk, mas assim como ele, sua força parece ser maior quando está com raiva. E ele está com muita raiva de mim. Eu só não sei por quê. O terceiro golpe vem longo em seguida, acompanhado por um gemido do papai. Neste ele deve ter colocado toda a sua força. "Papai, papai!" Não adianta chamar pelo papai. Não é ele quem está com a corda na mão, a me suurrar com todo o seu ódio por um motivo que eu ainda não sei qual é. Meu Deus, a quem devo pedir ajuda? "Toma, fidumaputa! Vai, me passa vergonha de novo agora!" Em seguida vem o quarto golpe, o quinto, o sexto... Não há naquele rosto de sobrancelhas arqueadas, agora já suado de tantos golpes, nenhum vestígio do amor que o papai tanto disse que tem por mim. "Toma!" Deixo então de gritar pelo papai. Meus gritos não são apenas gritos de dor, porque eu já não consigo sentir minhas pernas. São também gritos de medo. Como eu queria que o papai pudesse me defender desse que agora me espanca... Será que ele vai voltar algum dia?
        Já não sei há quanto tempo estou apanhando. Rolando sobre o mato rasteiro, em meio a lixo e a cacos de vidro, sinto minhas mãos machucadas. Minhas pernas devem estar cheias de sangue, mas eu não as vejo por causa dos restos de calça que ainda resistem aos golpes do papai. Já quase não tenho voz de tanto chorar e de pedir para ele parar. Minhas lágrimas já estão secas sobre minhas bochechas rosadas. Não sei se vou sobreviver. Resolvo, então, tentar escapar. Enquanto o papai levanta o braço para desferir mais outro golpe, eu me projeto para trás empurrando o chão com minhas botinas e com minhas mãos. Reúno então as poucas forças que me restam e ando uns dois metros gatinhando, até colocar-me de pé e correr para o meio do mato. O papai, ofegante e raivoso, parece cansado e nem tenta correr atrás de mim. "Volta aqui, fidumaputa!" Chorando e amedrontado, eu não tenho como obedecê-lo. "Não, papai. Eu sei que se eu voltar, o senhor vai continuar me batendo". Mas o papai parece não se dar conta de que está batendo em seu próprio filho, e ao invés de acalmar-se, parece ter ficado ainda mais nervoso. "Eu não vou te bater mais. Mas não me irrite! Se você não voltar aqui, aí sim você vai ver o que é bom pra tosse!". Eu confio nas palavras dele. Na verdade, eu sempre confiei. Caminho então em sua direção, meio desconfiado, e paro a alguns passos dele. Ele me olha. Ainda está com as sobrancelhas arqueadas. Levanto então os olhos e lanço-lhe um olhar de quem está triste e com dor, precisando muito de seu abraço, mas o que recebo é um forte empurrão no peito, que me faz perder o equilíbrio e ganhar o chão novamente. Olho para o papai. Seu rosto agora é uma grande sombra, a sombra de um gigante atrás do qual o sol se esconde. Enxergo apenas a sombra de seu braço armado com a corda roçar o ar mais uma vez, dando início a uma nova sequência interminável de golpes sobre meu pequeno corpo. 
     Por mais que a corda traga dor às minhas pernas, meu maior sofrimento vem do fato de eu não entender até agora por que o papai está me batendo. Opa, espera aí! Eu acho que eu sei porque o papai está me batendo! Ele me disse uma vez que um homem tem que ser forte, que homem que é homem não chora. Deve ser isso! Ele deve estar fazendo um teste! Só pode ser isso! Se eu parar de chorar, ele vai parar de me bater. Prendo então a respiração e paro de me mexer. De repente, o papai pára de bater. Tá vendo? Era um teste mesmo! Solto então o ar e volto a respirar ofegante. O papai então arqueia novamente as sobrancelhas, o ódio se estampa novamente eu seu rosto. Então ele levanta novamente a corda e parte pra cima de mim...
        Já não sei há quantos dias eu estou na salmoura. Os vergões em minhas pernas e no meu bumbum ainda estão muito altos. Dá pra sentir com a ponta dos dedos. Depois que a raiva do papai passou, a mamãe teve uma conversa muito séria com ele. "Tair, cê tá doido? Você podia ter matado o Dado", disse ela. Por mais estranho que isso possa parecer, no dia seguinte à surra ele veio me abraçar. Eu me encolhi, ameacei chorar pra que ele ficasse longe de mim. Agora tenho medo do papai, muito medo.
        De repente, ouço alguém chamando pelo papai. É o homem que estava negociando a compra do trator com o papai no dia em que eu apanhei. Mais que depressa eu corro para debaixo da cama. "Meu Deus do céu! O papai vai bater em mim de novo!" A mamãe, então, começa a rir, com os olhos cheios de lágrimas. "Não, Dado. O homem só veio comprar o trator..."

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