terça-feira, 11 de outubro de 2011

Lembranças da tia Augusta

          A primeira lembrança que tenho da tia Augusta data de quando eu tinha 4 ou 5 anos. Na época, o papai levou-me até a casa da tia Alice pra visitar uns parentes que moravam no Paraná (anos depois eu descobriria que Paraná é um estado e não um lugar, e que a cidade em que eles moravam chamava-se Cambira). Dentre minhas lembranças, não tenho nenhuma em que a casa da tia Alice estivesse tão cheia. Já era noite e eu estava morrendo de sono. Quando cheguei na sala, todo mundo estava sentado, olhando para mim. Tímido, sempre acostumado a viver entre os milharais de Quirinópolis-GO, eu me escondi atrás da perna do papai. “Filho, pede bênção pro tio Chiquinho e pra tia Augusta”. Bem, na época eu não fazia idéia de quem eram eles, mas sabia que nunca tinham ido nos visitar lá em Quirinópolis-GO. Tive então a brilhante idéia de me recusar a pedir bênção. Foi a primeira vez que apanhei do papai...
              Embora morasse bem longe da gente, a tia Augusta tinha um carinho muito grande pelo papai e pela mamãe. Pesquisando no álbum de casamento deles, descobri que a tia Augusta e o tio Chiquinho vieram de Cambira para serem padrinhos de casamento de meus pais. Conhecendo hoje as circunstâncias em que o casamento aconteceu, posso afirmar que isso foi uma prova enorme de consideração e de carinho pelos meus pais.

Vasculhando em minha memória, encontrolembranças de ter ido visitar a tia Augusta por volta de 1986, época em que uma de nossas primas se casou. Lembro-me de ter ficado encantado com a casa dela, toda construída em madeira. Uma casa incrivelmente aconchegante. A casa ficava no fundo de um terreno bem extenso, e como o fundo estava em um nível mais elevado que a frente, a casa parecia estar no alto de uma colina. Simplesmente linda! A tia Augusta cuidava de tudo com muito capricho. Nunca me senti em um lugar tão agradável...
            Outras lembranças que tenho da tia Augusta só me aparecem mais de uma década depois. Agora já adulto, guardo com certa riqueza de detalhes minha passagem por lá nos últimos dias de 1998. Munido de meus livros, que eu levara para estudar para a prova de ingresso no mestrado, era difícil resistir aos papos com a tia Augusta. Ela guardava detalhes e histórias de meus bisavós e do tio Eduardo que meu avô havia esquecido. Tão agradável quanto ela era o tio Chiquinho. No fritar dos ovos, acabei engordando uns três quilos e acabei optando por estudar nas madrugadas a perder a oportunidade de falar com ela.

Retornamos à Cambira em 2002. Passados quatro anos, as coisas estavam bem diferentes na “casa da colina”. Tio Chiquinho havia sofrido um derrame nos olhos e perdera a visão. A tia Augusta que conheci naquele ano mostrara-se uma esposa apaixonada e dedicada. Bastava o tio Chiquinho esboçar alguma palavra e lá estava a tia Augusta ao seu lado. Embora pernoitássemos na casa de nossa prima Sueli, que na época era delegada de polícia, era na casa da tia Augusta que fazíamos todas as nossas refeições. Auxiliada pela prima Sônia, que ali também morava com os primos Fontana, Vinicius e Maria Augusta, ela fazia questão de que fôssemos muito bem tratados. Foi nessa ocasião em que tive minhas conversas mais longas com o tio Chiquinho. Já cego, ele me contou que sonhara estar em uma festa flertando com duas damas e foi atacado por dois homens. Um deles foi acertado com um soco e caiu. O outro desviara. “Imagina, Duardo! Ele quase me acertou!”, exclamava a tia Augusta, assustada com o fato do tio Chiquinho ter desferido um soco contra ela enquanto dormia, presumindo que estivesse lutando de verdade.  Foram dias muito bem aproveitados. A viagem de volta, porém, foi dolorosa, pois eu sabia que aquelas tinham sido minhas últimas conversas com ele.


Retornamos à Cambira em 2006. Tia Augusta parecia não ter envelhecido, mas suas pernas começavam a ficar pesadas. Passava a maior parte do tempo na cama ou sentada à mesa da cozinha, conversando comigo, com o papai ou com a mamãe. Sempre atenciosa e procurando garantir que fôssemos bem tratados, ela se apresentava como uma avó doce, atenciosa e carinhosa. Foi nesta ocasião em que tive com ela minhas mais longas conversas, a maioria delas sobre o passado.

Vi a tia Augusta pela última vez em janeiro de 2007. Estava um pouco mais nervosa que antes, talvez por ter perdido parte da força nas pernas, mas continuava doce e atenciosa. Seus olhos claros estavam agora menores e ainda mais cheios de ternura. Quando me olhavam, faziam com que eu tivesse vontade de abraça-la. E como era caloroso o abraço dela...

Tia Augusta nos deixou na madrugada do dia 10 de outubro, após quase um século de vida. Dedicada aos filhos e aos netos, era querida e adorada por todos, que certamente agora estão, assim como eu, com um enorme vazio no peito. Minhas lembranças da tia Augusta são tão doces quanto os aperitivos que ela nos oferecia como sobremesa. Ao lembrar dela, é impossível não sentir saudade. Queria que ela tivesse conhecido meu pequeno Miguel, mas Deus devia estar precisando de pessoas boas ao seu lado e a chamou para ocupar o lugar que ela tanto merece. Mas certamente ele a conhecerá  pelas minhas palavras e pela sua voz italiana das gravações de algumas de nossas conversas. Obrigado, tia Augusta, pelo privilégio de ter vivido momentos tão especiais ao lado da senhora!

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