segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Minhas professoras - parte 1


Quando venci os portões da escola “Manoel Gouveia de Lima” pela primeira vez, em fevereiro de 1983, fiquei fascinado. Afinal, eu era uma criança que vivera, desde o meu nascimento, em uma casa à beira de uma estrada de terra batida, a 30 km da cidade de Quirinópolis-GO, e que estava acostumada a conviver com o verde das plantações de milho e de soja, que meu pai cultivava para a nossa sobrevivência, e a passar manhãs e tardes a admirar os coqueirais e os cerrados. Ainda me lembro daquela alegria que senti ao me deparar com tantas outras crianças que tinham a mesma idade que eu. Hoje, olhando com outros olhos, percebo que foi naquele momento que eu decidi jamais me afastar de um ambiente escolar. Entretanto, ao entrar em sala de aula pela primeira vez, a alegria deu lugar ao espanto. As palavras que a professora Nadir escrevia no quadro negro pareciam-me rabiscos ou, talvez, alguma espécie de código que só os outros alunos conseguiam decifrar. Foi então que percebi que eu era o único aluno daquela sala que não havia cursado a pré-escola e, portanto, era o único que não sabia ler nem escrever... Em outras palavras, eu acabava de ser apresentado ao primeiro dos grandes desafios que me seriam impostos na vida.
Em pouco mais de seis meses, graças a muito esforço e dedicação, e principalmente ao apoio de minha mãe, eu já era capaz de entender as palavras e a construir frases inteiras. Depois das letras vieram os números. Percebi que eles queriam dizer algo, e que para entendê-los eu precisava parar e pensar. Desde o início eu achava este “diálogo” com os números muito prazeroso, embora eu percebesse que muitos dos meus colegas de classe não sentiam o mesmo. Acostumado com a vida na zona rural, onde todos se ajudavam, eu me acostumei a fazer tarefa em companhia de meus colegas e a discutir em grupo as operações básicas da Matemática. Sem que eu soubesse, brotava ali não apenas a minha vocação pelas Ciências Exatas, mas também o imenso prazer de aprender e ensinar.
A despeito das dificuldades enfrentadas naqueles duros primeiros meses de minha vida escolar, meu pai estipulou que ao final de cada bimestre eu deveria apresentar-lhe o boletim escolar para que ele próprio pudesse analisar minhas notas. Entretanto, por melhores que elas fossem, a resposta que eu ouvia era sempre a mesma: “Tá bom, filho, mas pode melhorar”. Estas palavras ecoaram em minha mente durante toda a minha adolescência, e ainda hoje são a mola propulsora que me impulsiona à superação nos momentos de fraqueza.
As lembranças que tenho da Dona Nadir, minha primeira professora, são raras porém marcantes. Foi com ela que aprendi a desenhar as palavras e a entender o seu significado. Sua paciência para comigo foi indispensável para que eu conseguisse escrever este post. Talvez mais por ter acalmado minha mãe diante da incapacidade inicial. Afinal, eu era o único analfabeto da turma.
Minha professora de segunda série foi a dona Neide. Pra minha sorte – ou diria azar? – a ela havia sido também professora de minha mãe. Não era de se esperar, portanto, que fosse uma mulher jovem. Sisuda, não me lembro de um sorriso sequer, embora tivesse uma enorme marca de expressão descendo do nariz até o queixo. Minha mãe dizia que ela morava no prédio – na época, só havia um aqui em São Joaquim – razão pela qual eu procurava passar correndo por ele quando minha mãe e eu passávamos em frente ao tal edifício. Sentada em sua cadeira, de pernas cruzadas e trajando jeans, dona Neide acendia seu cigarro e ficava aguardando a turma terminar de copiar ou de fazer os exercícios que ela havia passado na lousa. Não raramente, um ou outro aluno começava a tossir por causa da fumaça.
“Cala a boca e faz o exercício!’, dizia ela.
É, meus amigos, pedagogia é tudo!

Nenhum comentário: