quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O dia em que doei meu carro


Domingo, 21 de agosto. 9h. Estamos em casa quebrando o desjejum. Débora à minha frente, Miguel ao nosso lado, acomodado em seu carrinho de bebê. Olha-nos o tempo inteiro, às vezes para mim, às vezes para a Débora. Parece encantado por estar vivo. Fixo o olhar nele e me emociono. Pego-o então no colo e o abraço fortemente contra o peito, beijando-lhe várias vezes o rostinho, cuja pele ainda não experimentou os danos causados pelos raios ultravioleta. Subitamente nosso momento pai-filho é quebrado pelo toque do telefone. É minha mãe dizendo que há um homem interessado em comprar o carro, que está lá vendo o carro mas que está com pressa. “Desce aqui, depressa!”, pede ela, com o velho tom de mãe que acha que sempre vai mandar no seu filho. Contrariado, devolvo o Miguel ao carrinho, corro para o banheiro, escovo os dentes, pego a chave do carro e parto.
Enquanto vou vencendo as esquinas em direção à casa de meus pais, vou me lembrando de minhas experiências com carro que coloquei à venda. Trata-se de um Gol CL 1.6, ano 1989, à álcool. Comprei-o do Agnaldo, um vendedor de carros amigo do papai, em 1998, meu último ano na faculdade e no almoxarifado da Usina Alta Mogiana. Como sempre, o papai fez a maior força pra eu comprá-lo, chegando inclusive a colocar a mobilete de minha irmã no negócio pra completar o dinheiro. Minha irmã, na época com 18 anos, ficou irritadíssima com ele, e de nada adiantou devolver-lhe o dinheiro naquele ano. Assim que o adquiri, fiz um baita sacrifício para comprar umas rodas de liga leve para deixá-lo com uma aparência mais arrojada. Se por um lado eu fazia de tudo para deixá-lo como eu queria, por outro o universo parecia conspirar para que as coisas sempre dessem errado. Por exemplo: em 2001 um rapaz embriagado bateu na traseira dele enquanto estava estacionado em frente à casa da vovó Maria. Ao ouvirmos um forte barulho enquanto almoçávamos, corremos em direção ao portão. Ao abri-lo, avistamos um rapaz aparentando entre 30 e 40 anos, com a testa sangrando, completamente embriagado, conduzindo uma criança no banco traseiro de um Fusca. A colisão projetara meu carro cerca de 2m à frente... O prejuízo, na época em torno de R$200,00, acabou ficando por minha conta. Quinze dias depois algum malandro arrombou-o enquanto estava estacionado em frente à casa da Débora, arrancou o tampão traseiro com os auto-falantes e os levou. A partir daquele dia eu fiquei desiludido e passei a preocupar-me apenas com a manutenção mecânica. Em 2003 eu derreti a junta do cabeçote do motor pela primeira vez em uma de minhas viagens para Franca. Na época, convidei meu primo Frederico para ir comigo. Enquanto falava com ele, que estava do outro lado do muro, fui completando a água do radiador. O fato é que eu acabei me esquecendo de colocar a tampa do reservatório quando terminei... Acabei ficando na estrada, e pra não perder a aula, deixei o carro no acostamento e cheguei ao destino de carona com um ônibus de estudante. No mês seguinte, novamente indo para Franca com a Débora, o cabeçote do radiador estourou, fazendo com que eu quase “fundisse” o motor novamente. Foi também com ele que viajamos para nossa lua-de-mel, em Poços de Caldas. Era ele que eu dirigia quando atropelei um motoqueiro a quatro esquinas de casa há 3 anos. E foi também com ele que viajei para Franca durante seis anos e no qual Débora e eu dávamos voltas e mais voltas pela cidade na época em que éramos namorados. Foram 13 anos de história e mais de 300 mil quilômetros rodados.
Quando finalmente chego à casa de meus pais, avisto um homem negro sentado no banco de madeira em frente ao meu carro. Ele sorri e me cumprimenta. Parece ser boa pessoa. Aos poucos vou sabendo sua história: assim como meu pai, é motorista e já teve um carro parecido com o que estou vendendo, mas que precisou desfazer-se dele para comprar seu caminhão. Ao que parece, sua esposa recebeu uma herança e agora quer comprar um carro para sua filha. “Vamos fazer o seguinte: eu te dou R$5.000,00 e você deixa o som e as rodas”, diz ele para começarmos a conversa. Esboço um sorriso, indignado. “Eu estava pensando em pedir R$7.000,00 e deixar só as rodas.” Agora é ele quem ri. Começo então a argumentar: “Veja só: é um carro muito conservado. Os bancos são do Gol moderno e o alternador é de 105 ampéres”, explico-lhe, tentando valorizar o produto. “É... mas a pintura do teto ta um pouco judiada...”, retruca ele. Após pensar, ele faz uma proposta: “Vamos fazer o seguinte: eu pago R$6.000,00 à vista e você deixa a fiação para o som e coloca uma bateria nova”. Fixo o olhar para um ponto qualquer do chão, procurando uma resposta. É um valor muito abaixo do que eu queria... Eis que o bom senso me abandona e eu sou tomado pela emoção. Dou-me conta de que estou vendendo um carro que não estou mais usando, que está parado debaixo da mangueira da casa de meus pais, sem bateria, e que sou privilegiado por ter dois carros. O homem que se candidatou a comprá-lo é um homem trabalhador, que provavelmente está passando pelas mesmas dificuldades que meu pai. Por um instante sinto-me o pior dos homens, como se quisesse tirar vantagem de um pai de família. Meu coração então amolece e eu aceito vender o carro por R$6.000,00.
Sábado, 27 de agosto. 9h30min. Estou saindo da casa da mamãe quando avisto o meu antigo carro, agora com seu novo proprietário ao volante. Está com sua esposa, que se dirige a mim pedindo gentilmente o xerox do documento para poderem pagar o seguro obrigatório. “Claro! Por favor, me sigam até o Xerox. Vou providenciar isso já!” Cinco minutos depois eu entrego a cópia do IPVA nas mãos do novo proprietário, com um sorriso no rosto. No entanto, o homem naquele carro parece ser outro. A expressão de homem bom parece ter desaparecido e dado lugar a um homem com humor ácido. “Se eu soubesse que o seguro venceria agora, não seria eu quem iria pagar”. Por uma fração de segundos meu sangue ferve. Ora, eu abri mão das rodas de liga leve que tanto gostava e ainda coloquei uma bateria novinha! O carro está com a mecânica impecável, com bancos novos e lataria praticamente sem podres! E eu entreguei o carro a ele por um preço muito abaixo do que eu queria, para uma pessoa que agora demonstra não apenas ingratidão, mas também um tom de quem quis realmente levar vantagem. “Pois se eu soubesse que você era assim, você não estaria sentado nesta banco, meu chapa!”, é o que meus pensamentos me impulsionam a dizer-lhe. Mas o bom senso, aquele mesmo que me abandonou quando vendi o carro, me aparece novamente. Dou então um tapa em seus ombros, ofereço-lhe um sorriso falso e dou-lhe as costas. “Boa sorte com seu carro novo.”

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