segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Quem precisa de um blue ray?

     Quinta-feira, 13 de outubro. 16h. Estamos caminhando em direção à saída do Novo Shopping Ribeirão Preto. Débora e eu estamos exaustos. Apesar de seus ombros empinados, percebo que ela não vê a hora de deitar no banco do carro e tirar um cochilo durante a viagem de volta. Quanto a mim, são minhas pernas que estão me matando. Penso então em quão equivocado eu estava ao escolher um sapato de sola baixa ao invés de um tênis confortável pra vir passear aqui. Apesar do cansaço, tenho um súbito ataque de consumismo. “Amor, vou entrar aqui na Ricardo Eletro pra comprar um Blue Ray rapidinho, tá?”. A reação dela já era esperada. “Como é que é? Mas você vai comprar um Blue Ray pra quê?” A uma pergunta esperada, dou uma resposta preparada: “Quando a gente assiste a um Blue Ray, a resolução da imagem fica perfeita.” Infelizmente para mim, ela não parece estar convencida. “Mas esse aparelho de Blue Ray é caro, não é? A gente está precisando disso agora?” Embora ela esteja com a razão, é tarde demais: o consumismo tomou conta deste pobre mortal ao ponto de me conformar em ter que utilizar o crédito para comprar o maldito/bendito aparelho. “Por favor, meu anjo, sente-se aqui neste banco e espere um minutinho. Eu não demoro É rapidinho!.” A tática de usar os diminutivos enquanto se conversa com uma mulher é infalível! E dizendo isso, sigo a passos largos em direção à loja. De longe avisto o lugar na prateleira onde ficam os reprodutores de DVD e de Blue Ray e sigo em direção a eles. No caminho, entretanto, sou abordado por um dos vendedores. “Boa tarde. Posso ajudar o senhor?”. O vendedor é extremamente solítico e atencioso. Quando digo que quero um aparelho de blue ray, ele me convida para ver no sistema os modelos disponíveis. “Vem cá um minuto, por favor.” Sento-me então à sua frente, e ele à frente de um monitor. “Nós temos modelos da LG e da Phillips. O senhor tem alguma preferência?”, pergunta o vendedor com a segurança de quem sabe o que está realmente me falando. “Eu quero um Phillips. Tem no estoque?’ Ele balança a cabeça e me pede, mais uma vez, para acompanha-lo. Sigo então por entre as mercadorias e chego até a porta do estoque. Enquanto o rapaz vai buscar o aparelho, faço-lhe a pergunta que todo mundo gostaria de saber: “Por que a loja da Ricardo Eletro lá em São Joaquim da Barra fechou?” Meio sem jeito, o vendedor diz algo que não deveria: “Bom, eu ouvi falar que é porque lá não vendia bem, que os vendedores de lá eram meio fracos...” Esboço uma cara de quem entendeu. Lembro-me então das duas ocasiões em que entrei em lojas desta rede. Na primeira delas, nesta mesma unidade, fiquei mais de 50 min em frente ao caixa aguardando o sistema voltar. Na segunda, na referida loja em São Joaquim da Barra, quando a Débora quis comprar uma sanduicheira, a vendedora não quis negociar o preço da concorrência. “Ah, se o Ricardo ficar sabendo disso...”, disse eu em alusão às propagandas que o dono da rede faz na televisão.
Em menos de um minuto o rapaz volta com uma embalagem nas mãos contendo o aparelho de Blue Ray que está próximo de ser meu. “Amigo, você divide o preço em duas vezes? Eu te pago uma à vista e a outra você coloca no crédito, pode ser?” Ele concorda. Seguimos então para o computador, onde ele precisa fechar a compra. “Bom, o preço dele é R$499,00. Dá pra te fazer R$400,00”. Assustado com o preço, peço licença, e ali mesmo em sua frente faço uma ligação para o meu amigo Necrão pedindo informações sobre um aparelho de Blue Ray que ele comprara tempos atrás. Direciono então minha conversa com ele para que o vendedor perceba que seu produto está acima do preço. Após algumas tentativas, o preço fica fechado em R$360,00.
Enquanto o vendedor segue preenchendo um sem número de campos, o celular toca. “Amor, você já está terminando?” Respondo-lhe que estou terminando. A batalha que se segue entre o vendedor e o sistema é desleal. São várias páginas que se fecham, outras que travam e, por fim, algumas que não aceitam o preço que ele colocou. Mais de 30min depois, levanto-me e dirijo-me até a Débora, que se levanta quando me vê. “Ué, cadê o aparelho?” Explico-lhe que o sistema está dando problemas, peço-lhe para esperar um pouco mais e volto para fechar o negócio com o vendedor. O que presencio, no entanto, é uma cena constrangedora: o vendedor, após mais de 20min de tentativas, chama o gerente, que tem uma explicação clássica para a situação: “O sistema travou”. O vendedor respira fundo, e na esperança de efetuar sua primeira venda da semana, reinicia o preenchimento de todos campos que havia preenchido até aquele momento. Eis que após tentar confirmar a venda, o sistema não aceita novamente os dados. Paciente, assisto à mesma cena umas quatro vezes. Após uma hora e dez minutos, levanto-me da cadeira e, desapontado, coloco a mão no ombro daquele vendedor desesperado, vítima do(s) sistema(s) e me despeço. “Meu amigo, desculpe-me, mas eu tenho que ir. Meu tempo se esgotou”. Ele balança a cabeça, derrotado, sem conseguir pronunciar nenhuma palavra. Quando a Débora me vê chegando de mãos abanando, fica curiosa. “Cadê o aparelho? Esperei tanto tempo e você não comprou?” De ombros caídos, só há uma resposta a dar-lhe: “Você tinha razão: eu não preciso de um aparelho de Blue Ray...”

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