quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Um dia você vai me agradecer

Querido papai,
     Sei que estas palavras dificilmente chegarão ao senhor, que é avesso a internet e a computador. Na verdade, inúmeras outras pessoas as lerão ao invés do senhor, muitas das quais nós jamais chegaremos a conhecer. De qualquer forma, sinto que elas precisam ser escritas, pois carregá-las comigo tem se tornado um peso que eu não posso suportar.
    Gostaria, então, de iniciar esta carta "virtual" agradecendo-lhe por ser meu pai. Conhecendo hoje as condições em que vim ao mundo, sou capaz de reconhecer quão importante foi a sua presença ao meu lado e da mamãe durante minha criação. Nos últimos 6 meses tenho acordado todas as manhãs para buscar o Miguel em seu berço, e sempre sou recebido com um lindo sorriso inocente, um verdadeiro presente por eu estar ali. Pois bem, papai: sei que devo, quando bebê, ter distribuído vários destes sorrisos para o senhor, mas agora, 35 anos depois, quem lhe sorri é um homem maduro e com qualidades que o senhor ajudou diretamente a desenvolver. Meu sorriso é uma forma de reconhecimento e de gratidão por ter estado sempre conosco todos estes anos, mesmo que tenha estado boa parte do tempo pelas estradas deste Brasil afora lutando para ganhar o nosso sustento.
     Em segundo lugar, gostaria de agradecer-lhe pelo seu imenso amor. Há diversas formas de manifestar o amor, e eu me lembro do senhor manifestando-o de pelo menos uma dúzia delas. Cronologicamente, a primeira manifestação de amor de que tenho lembrança data daquela grande enchente que inundou o rio que passava em frente à nossa casa, lá em Quirinópolis-GO, no final da década de 70. Sei que a chuva danificou uma ponte, que acabou cedendo enquanto a gente passava por ela de trator. O senhor abraçou-me como um grande urso e deixou que suas costas amortecessem a queda, impedindo assim que eu me machucasse, provavelmente de maneira fatal. Além de ser meu protetor, o senhor foi o meu grande amigo durante meus seis primeiros anos de vida. Era com o senhor que eu passava o dia inteiro desde as primeiras horas, seja no seu colo enquanto ia buscar leite no sítio de trator, ou mesmo na roça enquanto o senhor plantava milho, arroz ou soja. Certo dia, porém, o senhor ficou nervoso por eu quase ter estragado a venda daquele trator Valmet que a gente tinha e acabou me aplicando uma surra que eu não merecia. A partir de então eu passei a vê-lo com olhos de medo. Mesmo assim, o senhor insistiu durante toda a minha adolescência que a gente não tem amigos, e que o senhor era o meu único amigo de verdade. Aquela era uma forma muito triste de ver a vida, da qual eu me recusava a compartilhá-la. Hoje eu consigo entender que o senhor só queria me proteger de todas as decepções que viriam daqueles em quem tanto confiei, mas minha tristeza de reconhecer que o senhor tinha razão não é tão grande quanto minha gratidão de saber que sempre pude contar contigo quando precisasse.
     Além de amigo e protetor, o senhor foi - e graças a Deus ainda é - o meu grande mestre. "Você precisa aprender a fazer de tudo, mesmo que nunca vá fazê-lo". Com esta frase aparentemente contraditória o senhor procurava convencer-me de que eu precisava lavar e encerar seu caminhão, lavar a sua lona, limpar o quintal de casa e a passar as férias escolares de janeiro pintando as chapas da carroceria, o chassis e os pára-barros do seu caminhão. Enquanto meus colegas passavam os sábados e os domingos jogando e se divertindo no clube, a uma esquina de casa, lá estava eu colocando a mão na massa, sob o sol quente, sem entender o porquê. "Um homem não pode ter preguiça", "Faça bem feito e fará uma única vez" e "O  nome de um homem vale mais que o seu dinheiro" são algumas das frases chatas, porém sábias que o senhor sempre disse, e que tão importantes foram para a moldagem do meu caráter e para que eu me tornasse um homem de bem.
     Por mais estranho que isso possa parecer, eu tenho que agradecê-lo por ter sido tantas e tantas vezes meu maior inimigo. Ao invés de motivar-me, o senhor sempre dizia que eu era mole e que nunca ia ser ninguém. Ao invés de paparicar-me com elogios - mesmo que, de fato, eu realmente os merecesse... - o senhor limitava-se a elogiar-me para os outros, sem que eu jamais soubesse o que realmente achava de mim. Isso fez com que eu me tornasse uma pessoa humilde, sempre disposta a melhorar. "Está bom, mas pode melhorar", era o que o senhor dizia quando assinava as minhas provas de Matemática e de Português, ignorando quando eu lhe dizia que elas eram as maiores notas da turma. Eu bem me lembro de suas palavras quando fui selecionado para servir o tiro-de-guerra: "Lerdo do jeito que você é, você não vai conseguir arranjar emprego nunca! No tiro-de-guerra o sargento vai te chutar todos os dias, quem sabe você não vira homem?". O senhor não se importava com o fato de eu ter sido o melhor aluno da turma de formandos no colégio, em 1990, ou de ter sido o orador da turma, nem tampouco de ter sido o melhor aluno dentre os formandos em contabilidade de 1993. E o fato de o senhor não se importar também fez com que eu não me importasse e procurasse sempre alcançar algo que lhe chamasse a atenção... Se não fosse pelo senhor, eu poderia ter me tornado uma criatura arrogante e cheia de si diante de tantas vitórias. Papai, as palavras do senhor, e também a falta delas, sempre mexiam comigo. Quando isso acontecia, eu dizia pra mim mesmo: "Eu vou provar para ele que eu consigo." Graças a estes desafios, eu acabei me tornando forte e determinado. E contrariando o que o senhor previu, fui homenageado na formatura do tiro-de-guerra com honra ao mérito por ser o atirador mais disciplinado, dedicado e, ainda, o mais rápido para desmontar o fuzil. Isso tudo, papai, graças ao fato do senhor ser o meu melhor (e talvez único...) inimigo.
     É claro que, como todo ser humano, o senhor demonstrou também ser imperfeito e muitas vezes me deixou muito triste. Além da surra injusta que me aplicou, o senhor deu-me uma resposta aos 8 anos que acabou mudando minha personalidade pelo resto da vida. Quando perguntei-lhe por que meus amigos de classe estavam namorando e eu não, o senhor respondeu-me, entre risos: "Uai, porque você é feio, ora!" Hoje eu entendo que aquilo foi dito em tom de brincadeira, mas eu não tinha idade suficiente para entender que se tratava de uma. Outro dia assisti na internet a uma palestra que o fundador da Apple, Stevie Jobbs, proferiu para formandos da Universidade de Stanford. Em um dos pontos mais belos da palestra, ele menciona que a gente só entende a vida olhando para trás e conectando os pontos. Pois bem. Vendo hoje o rumo que minha vida seguiu e "conectando os pontos", eu lhe sou grato também por ter dito aquilo. Sem querer, aquelas palavras me tornaram um jovem diferente e introspectivo, cuja baixa auto-estima não deixou outra alternativa que não fosse dedicar-se aos livros. Dez anos depois eu recuperaria minha auto-estima através de um tratamento em um renomado psicólogo, em sessões caríssimas que o senhor pagou com o suor de seu trabalho. Foi a redenção para qualquer exagero que o senhor tenha cometido em minha educação. Antes disso, aos 12 anos, o senhor também desembolsara um bom dinheiro pra que eu me tratasse de meu problema na coluna, pagando aulas de natação e sessões de fisioterapia.
     Devo confessar ao senhor que algumas de nossas melhores conversas têm acontecido desde que me casei. Em uma delas, o senhor disse algo que me deixou pensativo. "Você é o que eu devia ter sido". Talvez o senhor tivesse chegado mais longe se tivesse um pai tão bom e dedicado quanto o que eu tive. Por outro lado, aquelas palavras tristes, ditas enquanto o senhor olhava para o chão, serviram como elogio. A única conclusão a que chego é que se eu fosse um filho do qual o senhor não se orgulhasse, o senhor jamais teria dito aquelas palavras.
     Se algum dia o senhor ler essas palavras, vai se lembrar que eu só aprendi a escrevê-las porque o senhor decidiu mudar-se da roça para a cidade. Caso contrário, eu teria crescido entre vacas e cavalos, ordenhando vacas e as apartando, ou mesmo teria me tornado um excelente tratorista. Contrariando o que muitos pais pensam em relação a seus filhos, o senhor nunca quis que eu seguisse a mesma profissão que a sua. E foi justamente por isso que o senhor me mostrava o lado duro de ser motorista de caminhão.  "Um orgulho eu tenho: meu filho não virou motorista", diz sempre o senhor a todo mundo. Mais uma vez o senhor tem razão: não fosse pela sua insistência, eu não teria sequer prestado vestibular para Química em uma universidade privada. Eu, que tanto queria estudar em uma universidade pública, poderia ter sequer ido para uma universidade não fosse por aquela conversa em janeiro de 1995, na oficina do tio "Bichim", enquanto pintávamos as chapas da carroceria do seu caminhão.
     Dentre todas as coisas que o senhor dizia quando eu era adolescente, uma das que mais me irritava era: "Um dia você vai me agradecer." Pois é, papai, esse dia chegou. Mas ao invés de ficar irritado ou contrariado pelo fato de o senhor ter novamente razão, preferi escrever estas palavras para manifestar não apenas a minha gratidão ou o quanto sou agradecido pelo senhor, mas também para demonstrar o quanto eu o amo. Tê-lo como pai é um privilégio, é uma dádiva de Deus. O Miguel, com certeza, tem no senhor um grande avô.
     Ao escrever estas palavras, na esperança de que eu fosse eliminar um peso dos ombros como filho, dou-me conta de que, como pai, tenho um outro ainda maior: ser para o Miguel um pai tão bom quanto o senhor foi para mim...

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