quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Adolescência: uma fase de mudanças difícil de mudar

2008. Escola Edda Cardoso de Souza Marcussi. São 21h16min. Estamos no intervalo de aulas. Estou descendo a rampa que separa as salas de aula do bloco onde fica a sala dos professores. Pelo pátio os alunos se deslocam em direção à cantina, em busca de algo para matar a fome que os incomoda. A maioria deles trabalhou o dia todo. Estão cansados. Receberam ordens de seus patrões, alguns não tão educados. Foram subjugados. Trabalharam pesado. Ao final do mês, a recompensa virá na forma de poucas centenas de reais, muito pouco pelo tanto que trabalham. Muitos deles são pais ou mães de família. Após anos afastados da escola, retornaram para terminar o que não conseguiram quando eram mais jovens. A escola, para a maioria destes alunos, sempre foi uma obrigação desagradável e sem sentido. Agora que estão trabalhando, o que lhes interessa é apenas o certificado de conclusão. É o que seus patrões lhes exigem. Para os mais jovens - pelo menos para a parcela mais ambiciosa - o sonho é conseguir um emprego na usina ou na metalúrgica aqui da cidade, para, assim, terem condições de comprar um carro. E pouco importa se em suas casas não haja garagem. Se for um trabalho no turno noturno, melhor ainda. Os poucos centavos do adicional noturno, segundo dizem, compensa as horas de sono perdidas.

      Faz quatro anos que sou professor de ensino médio nesta escola. Conheço o perfil dos alunos, e chamo a maioria deles pelo nome. Apesar da vida difícil que levam, são alegres e cheios de energia. Em troca da forma respeitosa, educada e amigável com que os trato, recebo deles um respeito inestimável e raro. Curiosamente, sou um dos poucos professores que ainda não encontrou mensagens escritas oou desenhadas nas pinturas de seus carros. Na verdade, tenho muito carinho por estes alunos. No entanto, tenho a sensação de fazer mais por eles como pessoa do que como professor. Poucos sonham em cursar uma faculdade, e um número menor ainda quer saber da tal de Química. Não há perspectivas de um futuro melhor. Aliás, eles parecem preocupados apenas em viver o presente, sem acreditar que o amanhã um dia vai se tornar o hoje. Conselhos parecem sementes lançadas em terra árida e infértil. A vida, infelizmente, cobrar-lhes-á um preço alto.

Quando chego ao corredor que dá acesso à sala dos professores, avisto uma aluna que estudava no período da manhã. Recordo-me da feição dela. É uma das poucas alunas loiras da escola e, por isso, sempre chamou a atenção dos rapazes. Tem olhos verdes e a pele bem clara. Há algo nela, no entanto, que me parece diferente. Seu rosto parece mais arredondado. Seu andar também está diferente. Ela me avista, e de longe, grita por mim “Oi, fessor!” Com as mãos nas costas, ela caminha com certa dificuldade em minha direção. Ao aproximar-se, reparo que está grávida. Ela tem apenas 16 anos. Procuro, no entanto, evitar censurá-la. Parabenizo-lhe e desejo uma gravidez tranquila. Pergunto sobre o pai da criança, se é também aluno da escola. “Ah, fessor, nem me fale! Aquele desgraçado não presta!” Ao ver sua reação, decido não entrar em detalhes. Mas ela prossegue por si mesma. “Quando eu falei pra ele que eu estava grávida, ele disse pra eu me virar, que era pra eu tirar. Aí eu disse pra ele se fuder, que se ele não assumisse, eu criaria nossa filha sozinha!” Elogio-a, digo que ela fez a coisa certa, que o bebê não deve pagar por algo que eles fizeram equivocadamente. Então ela me conta que quando nasceu, sua mãe também tinha 16 anos. “Fessor, eu vou criar a minha filha e dar pra ela tudo o que eu não tive. Ela vai ter tudo do bom e do melhor.” Balanço a cabeça, em sinal de apoio, e desejo força nesta nova fase de sua vida.

Ouço então a sirene tocar. Ela se despede e me agradece pela conversa. É hora de voltar para a sala de aula. Por um instante, eu fico ali parado, olhando para o chão, sem ter a menor idéia do que se passa pela cabeça desses jovens. Estudar seria a única oportunidade de mudarem, de maneira honesta, suas condições sociais e econômicas. Para mim, pelo menos, foi assim. Mas estudar, obviamente, requer esforço, dedicação e tempo. Tempo este que eles preferem usar para bater papo no MSN, para postar fotos e comentários no Facebook, Orkut e Twitter, para se divertir com jogos no celular. Os jovens de hoje passam a maior parte do tempo envolvidos com apetrechos tecnológicos diversos, que os fazem pensar que são mais espertos e “descolados” que a geração anterior. Como se isso não bastasse, andam em gangues que constantemente se confrontam, experimentam o sexo muito cedo e, não raramente, as drogas. Em seus vocabulários, palavras como “gostosa” e “bandida” ocupam o lugar que outrora foram eram de elogios para uma mulher,  como “bonita” e “moça de família”. Sem entender como as coisas chegaram a tal ponto, a única coisa em que consigo pensar é que aquela criança que está na barriga daquela jovem certamente seguirá o exemplo de sua mãe, que acabou seguindo o exemplo de sua avó. Uma coisa, no entanto, me parece bastante provável: a família desta jovem dificilmente mudará suas condições financeiras e sociais. A tendência é que a vida difícil vá se transferindo de geração para geração nas famílias de jovens que não estudam ou que se tornam pais e mães muito cedo. Quanto a mim, que na minha adolescência já era considerado velho demais por ser muito "sistemático" e "certinho", a tendência é que eu jamais entenda a adolescência. Isso é algo, no mínimo, assustador, pois quando meus filhos forem adolescentes, eu estarei na casa dos 50 anos...

sábado, 26 de novembro de 2011

O menino de rua do Natal

Quando eu era criança, esperava ansiosamente pelo Natal. Na verdade, eu sequer sabia que o Natal era comemorado em 25 de dezembro. Sabia apenas que era uma época de fim de ano, em que eu estava de férias e em que eu ganhava muitos presentes de meus pais, de meus avós e da tia Ângela. Mas havia alguns indícios de que o Natal estava chegando. A cidade se iluminava e o povo ficava passeando pelas lojas, que permaneciam abertas até à noite. Outro indício era quando o papai voltava para casa. Sendo ele caminhoneiro, chegava a passar até 70 dias longe da gente. Eu percebia que o Natal ia se aproximando quando ele voltava para casa e ficava mais de uma semana. Era bom tê-lo em casa, mesmo sabendo que na maioria das vezes ele ficava triste por não ter ganhado o que precisava durante o ano, e que nos próximos dois meses a gente teria que economizar ao máximo por causa da falta de trabalho. Daquela época, eu guardo uma cena – não sei se de um filme ou de uma propaganda – em que uma família enorme, feliz e com a mesa farta, ceia às vésperas do Natal, enquanto um menino de rua permanece do lado de fora, olhando, encantado, as luzes da árvore, a comida da mesa farta e a família reunida. Era uma imagem que me deixava muito triste.
Os anos foram se passando. Não ganho mais presentes – pelo contrário, hoje sou eu quem os dou. Minha esposa e meu filho é que me aguardam chegar do trabalho ao fim do dia. E ao contrário do que ocorria na casa dos meus pais, temos aqui em casa a tradição de montar uma árvore de Natal e enfeitá-la. Além disso, procuramos reunir nossos pais e alguns parentes mais próximos para a ceia e para o almoço de Natal. É uma forma de celebrar e de respeitar este momento tão especial. Passo o ano inteiro ansioso por esta época, que vai ganhando um significado cada vez mais importante a cada ano. Mas o clima natalino é sempre entrecortado ou interrompido por pequenas discussões, desentendimentos ou mal-entendidos na família, fazendo com que haja sempre um mal-estar entre os poucos que reunimos aqui em casa. Nem todos os presentes parecem estar felizes, deixando de lado, por mais católicos que sejam, o perdão, a tolerância, a aceitação, o amor e o respeito que caracterizam o verdadeiro espírito natalino. Sem querer, estas pessoas tão queridas fazem com que eu me sinta um eterno menino de rua, como aquele que de minha infância. Obviamente, não por causa da mesa farta ou da árvore de Natal...

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Super-Bonder cola tudo

2003. Estou sentado à mesa da cozinha da casa da vovó Maria, minha avó materna. A mesa de aço branco, de formato redondo, encontra-se entre a porta que dá acesso ao jardim de inverno e o acesso à sala de jantar. À minha frente estão o balcão de mármore e portas marrons, que parecem fundir-se ao piso marrom. Vovó está preparando o almoço. Aos poucos os espaços vazios da pia vão sendo preenchidos pelos utensílios de alumínio que ela acabou de usar. Sempre de vestido e avental, ela segue sua rotina caseira em um ritmo frenético. Achando-se magra, ela reclama do pouco peso. “Duardo, eu queria tanto engordar um pouco...”, lamenta ela, alheia aos problemas que alguns quilos poderiam lhe trazer. Aos poucos seus movimentos rápidos vão fazendo com que gotas de suor surjam por todo o seu rosto, conferindo brilho à sua pele quando irradiadas pela luz que penetra pela porta do jardim de inverno. Vez ou outra ela pára, abre a torneira da pia, molha as mãos e as passa pelo rosto. “Fio do céu, que calor!”, diz ela, abanando-se com o avental. Em seguida, ela abre a geladeira, em cuja porta estão pregados inúmeros adesivos e ímãs, cada um deles com uma história pra contar. Ela se posiciona cuidadosamente do lado da geladeira, para não tomar “friagem”, e levando as mãos ao seu interior, pega um dos vários potes de margarina Qualy onde ela guarda os “restinhos” de “mistura” que sobrou de outras refeições. É um costume de quem já sofreu com a falta de comida ao longo das sete décadas de vida. Enquanto isso, o “Louro”, seu papagaio verde de mais de 50 anos, começa a gritar de seu poleiro na varanda. “Ô, Antoim! Cadê o Louro?”, grita ele com uma voz rouca, muito parecida com a da vovó, chamando pelo vovô. “Quieta, louro!”, grita ela, continuando os preparativos para o almoço.
Mesmo estando concentrada nos preparativos para o almoço, a vovó segue prestando atenção nas minhas histórias da semana em Ribeirão Preto. Ela adora que eu venha aqui visitá-la, assim como eu fazia quando era adolescente. Sempre cuidadosa e prestativa, tê-la como avó é um privilégio e tanto. “Vovó, se procurar no dicionário a palavra vovó, eu vou encontrar a foto da senhora lá”, digo a ela quase todas as vezes em que venho aqui. De repente, noto que a vovó está picando almeirão enquanto conversa comigo. Eu me levanto, preocupado. “Vovó, toma cuidado com essa faca, pelo amor de Deus! Ela tá bem afiada!” Ela ri. “Non, fio, eu estou acostumada”, diz ela cheia de confiança. Agora próximo a ela, encostado ao balcão da pia, continuo a contar minhas histórias. Eis que, após uns dois minutos, sou interrompido por um grito da vovó. “Puta merda!”, grita ela, chacoalhando a mão esquerda com o dedo cheio de sangue. “Vovó, a senhora machucou?”, pergunto, afoito, tentando socorrê-la. “Não foi nada, fio. Eu só cortei um ‘tampo’ do dedo”. Quando olho o corte, reparo que o estrago fora tão grande que a ponta de seu dedo está quase reta. “Não tá doendo, mas precisa parar de sangrar”, diz ela, tranqüila e forte como uma pedra, enquanto eu me sento, já enfraquecido diante de tanto sangue. Ela então retira um pote de açúcar do armário da pia e enfia o dedo dentro do açúcar. Da cadeira eu avisto o branco do açúcar aos poucos ganhar tonalidade avermelhada. “É, não tá dando certo...”, diz ela. Ainda com a mão esquerda dentro do pote de açúcar, ela se abaixa e pega, com a mão direita, um pote de café. “Agora vai parar”, diz ela, confiante, enquanto tira o dedo do pote de açúcar e o transfere para o pote com café. O resultado, no entanto, não parece ser o que ela esperava. Ela então me pede ajuda. “Duardo, procura pra mim aí no meio do almeirão a ponta do meu dedo.” Surpreso, eu fico sem saber o que fazer. Então ela mesma, mais que depressa, começa a vasculhar o almeirão em busca da ponta do dedo cortada. “Achei!”, diz ela, levantando com a mão direita, como se fosse um troféu, a ponta do dedo que há pouco foi cortada. “Mas pra que a senhora quer esse pedaço de pele, vovó?”, pergunto-lhe, sem entender o que está acontecendo. “Então... – diz ela, séria, olhando para a ponta do dedo cortada que está em sua mão direita, como se o estivesse analisando – será que se a gente colar com Super-Bonder meu dedo não pára de sangrar?”. Sem saber o que fazer, e emocionado diante de tamanha ingenuidade, sorrio-lhe timidamente dou-lhe um abraço apertado. “Ô, vovó... Como a senhora consegue ser tão fofa?”

domingo, 20 de novembro de 2011

Presente, passado ou futuro?

Quando encosto a mão na maçaneta do portão verde de entrada da casa da vovó Lourdes, percebo que ainda é preciso empurrá-lo com força para abri-lo. Como sempre, a maçaneta parece gelada. Ao abri-lo, avisto o chão pintado com gravite vermelho. À direita, o jardim que a vovó tanto estima. Nele estão plantadas as roseiras que tantos lindos botões já produziram, muitos dos quais eu roubei durante minha adolescência – com a permissão da vovó, é claro. No pequeno alpendre, à esquerda da porta de entrada, um pequeno altar onde repousa uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Como sempre, não entro pela porta de entrada. Sigo pela estreita calçada lateral, cujo piso vermelho parece ter sido encerado. À minha direita, sobre as pedras que recobrem o chão, está o caminhão do vovô Crotti, com o qual ele trabalhou o ano todo. Esta é a época do ano em que ambos precisam descansar e curtir sua família. À frente do caminhão, protegido pela sombra da garagem de madeira, encontra-se o carro do vovô, um Gol de cor vinho, fabricado no final dos anos 80. Dentro dele, ouvindo música no rádio toca-fitas, estão meus primos Danilo e Gustavo.

Chego ao final da calçada lateral, que se separa da parte cimentada do quintal por meio de um pequeno portão de madeira. Fico ali por uma fração de segundos, parado, apenas observando. Tio Tim e meu primo Fernando estão de pé, com uma tesoura nas mãos, colhendo uvas da velha parreira para a vovó Lourdes preparar a salada de frutas, como ela sempre faz todos os fins de ano. No banco, encostado à pequena parede que separa a área cimentada da área coberta por pedras, próximos aos vasos de samambaia tão estimados pela vovó, minha irmã, meu primo Frederico e minha prima Mariana estão conversando e rindo. Na varanda, logo na primeira cadeira, tio Agenor conversa com o vovô Crotti, provavelmente sobre alguma das viagens que fizeram ou sobre algum baile a que foram juntos. Sentado de lado na cadeira de uma das extremidades da enorme mesa, papai ouve o tio Buchudo contar sobre seu novo caminhão. Com um dos pés apoiados sobre a pequena mureta lateral da pia e com o cotovelo sobre o joelho direito, tio Natal presta atenção à conversa deles. Minhas tias Ângela e Flávia preparam a mesa de madeira dos "12 apóstolos" para o almoço. Na pia, mamãe enxagua a poeira de alguns talheres e pratos que há tempos não são usados, com minha afilhada Clara abraçada à sua perna. Ao fogão, tia Vânia e tia Nilce ajudam a vovó Lourdes com a comida. São parte do cardápio o delicioso macarrão furado e a maionese que só a vovó Lourdes sabe fazer. Todos os filhos da vovó e do vovô estão reunidos e parecem felizes por estarem ali, em paz, para celebrar o início de um novo ano.

Quando o pequeno pinscher, até então no colo do vovô Crotti, me avista em frente ao pequeno portão de madeira, ele pula e corre em direção a mim, encosta suas patas dianteiras e, de pé, começa latir. É o aviso de que eu cheguei. Todos então param por um segundo o que estão fazendo e se viram para ver quem está ali. Ao avistar Débora, Miguel e eu, todos sorriem e dizem a mesma coisa: “Olha, o Miguel chegou!”

Sinto, então, a mão da Débora tocando meu ombro. “Amor, o Miguel acordou”. Quando abro os olhos, dou-me conta de que estou em minha casa, em outra época de minha vida. Jogo as pernas para fora da cama, calço os chinelos e corro até o quarto do Miguel. Quando olho para dentro do berço e seus olhos me identificam, ele sorri e começa a bater os pés de alegria. Tomo-o então nos braços e olho para ele com ternura. Um nó enorme se faz em minha garganta e meus olhos se enchem de lágrimas. Percebo então que o sonho do qual eu acabara de acordar foi uma combinação idealizada de algumas boas lembranças isoladas dos finais de ano na casa de meus avós paternos, mas que aquela situação do sonho jamais aconteceu nem nunca acontecerá, principalmente porque o tio Agenor e meus avós já faleceram e a casa deles foi vendida e demolida. Sem condições de reconstruir o passado, enxugo então minhas lágrimas e encaro minha grande responsabilidade: oferecer ao Miguel, no presente, momentos felizes e marcantes para que ele não precise, no futuro, ter que sonhar com situações que nunca existiram.
Se você tiver que escolher entre as lembranças do passado e seus planos para o futuro, escolha viver o presente. Mas não se esqueça que você só será  feliz se tiver os três em sua vida.

domingo, 13 de novembro de 2011

Amigos: não se decepcione com eles

Ao longo da vida, você vai conhecer muitas pessoas. De algumas você terá maior proximidade. De outras, nem tanto. A algumas destas pessoas próximas você chamará de amigos. Talvez pela identificação que tiver com elas, talvez pelo apoio que te oferecerem em momentos difíceis. Você também tachará de amigos aqueles com quem conviver proximamente por muito tempo, por compartilhar de sua vida com eles, da mesma forma que fará com aqueles que o ajudarem em algum ponto de sua jornada.

Amigos serão pessoas muito importantes em sua vida. Ela será vazia se você não os tiver. Encontra-los é, portanto, uma necessidade. No entanto, você falhará muitas vezes na tarefa de identifica-los. Não importa quão velho você esteja nem tampouco quanta experiência você julga ter. Você se equivocará muitas vezes, e por sucessivas vezes você se decepcionará.

Você perceberá que a amizade entre duas pessoas depende do interesse de ambas em mantê-la. Lembrar-se-á de quantas vezes empenhou-se para manter uma amizade com alguém que pouco se importava com ela. Muitas pessoas o querem como amigo, mas são egoístas demais pra se envolverem com você ou se tornarem próximas demais. Da mesma forma, você verá quão equivocado estava quando julgou serem amigos aqueles que te ajudaram. Você sentir-se-á traído quando perceber que as pessoas tinham seus próprios interesses em ajuda-lo, ou que o fizeram para manipulá-lo a terem com elas uma dívida de gratidão.

Você errará várias vezes, caro leitor, na eleição de seus amigos. Equivocadamente, você elegerá pessoas que adoram caminhar de mãos dadas enquanto estão ao seu lado, mas que não te estenderão a mão quando caminharem à sua frente – que é onde a maioria delas realmente quer estar.

Tendo se decepcionado tantas e tantas vezes, você equivocar-se-á uma última na tentativa de eleger o seu “best friend” dentre os poucos a quem ainda classificar como “amigo”. De uma forma tão triste e dolorosa que estas palavras jamais poderão te mostrar, você perceberá que seus amigos também têm amigos. Quando isso acontecer, não se chateie se você for o amigo preterido, e não o preferido. Afinal, meu caro, você pode não ter sido um amigo tão bom ou tão interessante quanto imaginava.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Fragmentos de minha infância - Parte 17



Quirinópolis-GO, 1981. Tenho 5 anos. Não há muita gente pra brincar comigo. Todo mundo que eu conheço é mais velho que o papai e a mamãe. Só o Adão, filho da dona Dica e do seu Fi Vieira, e o Missim, filho do seu Antônio Baiano é que são mais novos. Eu não sei se o Adão gosta de brincar comigo, porque ele é pequeno, mas é bem mais velho que eu. Mesmo assim, eu adoro brincar com ele. Outro dia, antes de irmos para São Joaquim da Barra visitar o vovô, a vovó e a titia, eu pedi para o papai me levar à casa do Adão pra brincar com ele. A mamãe ficou brava, acho que porque ainda era madrugada. Agora estou na casa da dona Melinha e do seu Antônio Baiano, brincando com o Missim. Ele deve ter uns 12 anos, mais ou menos. Ele está me mostrando uma flor amarela pequena e muito bonita. Eu já tinha visto essa florzinha muitas vezes nascendo no meio da grama, mas não sei o nome dela. “Missim, como é que se chama essa flor?”. Ele ri. “Essa flor, Duardo... se chama bucetinha”. Eu balanço a cabeça pra mostrar que entendi. É um nome bem engraçado, acho que não vou esquecer.

Estou na porta da varanda, tirando minhas pequenas botinas. A mamãe vem me dar um abraço. Parece estar com saudade. Resolvo então contar a ela a minha descoberta. “Mamãe, hoje o Missim me mostrou uma bucetinha”. De repente, a mamãe parece uma estátua. Fica parada, com os olhos arregalados, olhando para mim. Parece pálida. Ela faz força pra engolir o cuspe, que parece ter engrossado de uma hora para outra. “Dado, onde é que vocês foram pra ele te mostrar isso?”. Ela parece preocupada. “Mamãe, nós fomos brincar na grama. Tinha umas flores amarelas pequenininhas que eu achei bonitinhas. Ele colheu uma e me mostrou. Disse que aquela flor se chama bucetinha”. A mamãe respira fundo. Parece aliviada. “Dado, deixa eu te pedir uma coisa: você nunca mais vai repetir essa palavra, entendeu?” Eu não entendi. “Mas por quê, mamãe? A flor é bonitinha e o nome é engraçado...” Ela parece nervosa. “Eu vou te explicar porquê”. Ela aumenta a voz. “Porque esse nome é um nome muito feio, é um nome bobagento! Não fica repetindo esse nome, não, se não Deus te castiga, entendeu?” Meio triste, eu balanço a cabeça e fico olhando para o chão. Mas a mamãe parece não ter terminado. “Ai, ai, ai... Tá vendo? É isso que dá brincar com menino bobagento! Fica te ensinando coisas feias... É pecado ficar falando isso, viu? Eu vou falar pro seu pai não te levar mais lá pra brincar com o Missim”. Ela dá as costas e eu fico ali, chateado, sentado no degrau que separa a sala da cozinha.

São Joaquim da Barra-SP, 1984. Tenho 8 anos. Estou no pátio da Escola Estadual Manuel Gouveia de Lima. É horário de recreio. Eu estava acostumado a brincar sozinho, a passar as tardes na casa do seu Januário ou da dona Deolinda, lá em Goiás. Agora estou no meio de tanta gente... E eu não conheço ninguém! Acho que estou mais sozinho agora que antes. De longe, lá no meio da grama verde, eu avisto uma mancha amarela. Eu me aproximo. Quando avisto as flores, eu logo as reconheço. “Meu Deus do céu!” E faço o sinal da cruz. Há vários meninos por aqui. Estão colhendo as flores e mostrando uns para os outros. “Olha a bucetinha, olha a bucetinha!” Sem saber o que fazer, eu me aproximo deles e começo a gritar, desesperadamente: “Não, pára com isso! Não fala esse nome, é pecado! Deus vai te castigar!” Ao ouvir o que eu disse, todos começam a rir. Eu balanço a cabeça e saio. “Ainda bem que a mamãe me avisou dessa tal de bucetinha. A mãe desses meninos não deve ter avisado eles. Tadinhos...”

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Crônica 9 - A dor de quem fica



Quando Aluísio avistou a rua de acesso ao cemitério, percebeu que não seria fácil encontrar uma vaga para estacionar seu carro naquele dia de finados. Preferiu parar o carro a umas duas quadras e enfrentar a íngreme subida. Enquanto caminhava, inúmeras pessoas lhe ofereciam vasos de flores. “Tá baratinho, é só R$5,00!” Aluísio se indignou em silêncio. “Que filhos da mãe! Ganhando dinheiro à custa da tristeza dos outros!” Quando chegou à entrada, parou. Olhou para cima, e catolicamente fez o sinal da cruz. Respirou fundo, enxugou o suor da testa com o punho, projetou o pé direito à frente do esquerdo e iniciou a parte final do trajeto rumo ao túmulo de sua esposa Francisca. Foram quase 60 anos de uma união feliz,  repleta de amor e amizade. Uma vida inteira dedicada a ela. Tanta dedicação, no entanto, não foi suficiente para evitar que o câncer a levasse. Tiveram dois lindos filhos, que se casaram e se esqueceram dele. Há tempos Aluísio não tinha notícia de nenhum deles. Sabia apenas que enriqueceram e que levavam uma boa vida. Já não precisavam mais de seu velho pai.

Enquanto caminhava, Aluísio assistia o vai-e-vem de pessoas. Algumas se ajoelhavam e rezavam em silêncio. Outras lutavam contra o vento para manter suas velas acesas. Outras, ainda, preferiam lavar os túmulos de seus entes queridos antes de rezar ou acender velas. Aluísio desejava apenas acender um maço de velas e ir embora. Não pensava em lavar o túmulo de sua esposa, que fora limpo nos últimos 116 domingos. Resignado em sua caminhada, avistou um casal de jovens chorando em frente a um túmulo de mármore marrom. Pareciam ser namorados. Aluísio lembrou-se de quando  vinha visitar com Francisca, na época sua namorada, os túmulos de seus antepassados. Quando seus filhos eram adolescentes, vinham com eles para ensinar a importância de se preservar a lembrança daqueles que amamos. Em vão. Seus filhos, maravilhados com os prazeres que o dinheiro pode proporcionar, sequer se lembram dele, seu pai, que está vivo. Dirá, então, da mãe falecida.

Aluísio, enfim, avistou o túmulo de Francisca. Percebeu a presença de duas pessoas próximas a ele. Seu coração acelerou-se. Seriam seus filhos? Teria ele a oportunidade de revê-los e de preencher um pouco do grande vazio e solidão que consumiam seu espírito? Aproximou-se. Aqueles rostos não lhe eram familiares. Notou, então, que o rapaz estava com um dos pés sobre o túmulo de Francisca, e que deixara seus pertences sobre ele enquanto conversava. Aluísio pensou em pedir que o rapaz se retirasse dali e que respeitasse sua dor. Apenas pensou. Os tempos eram outros. Já não tinha mais razão para brigar. Aliás, mal tinha razões para continuar vivo. Entendeu, então, que para aquele jovem o túmulo de Francisca era apenas um retângulo revestido de azulejos que nada significava para ele. Percebeu que todos sentem falta de seus entes falecidos, mas pouco se importam ou respeitam os de outras pessoas. Aluísio para o céu ensolarado, e protegendo seus olhos cansados com a mão direita, disse em voz baixa: “Francisca, minha lindinha, a vida sem você é tão difícil... Quando é que você vem me buscar, meu anjo?”, disse em voz baixa. E dando meia volta, levou consigo o maço de velas, as inúmeras lembranças de quem partiu e a imensa dor de quem ficou.