quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Adolescência: uma fase de mudanças difícil de mudar

2008. Escola Edda Cardoso de Souza Marcussi. São 21h16min. Estamos no intervalo de aulas. Estou descendo a rampa que separa as salas de aula do bloco onde fica a sala dos professores. Pelo pátio os alunos se deslocam em direção à cantina, em busca de algo para matar a fome que os incomoda. A maioria deles trabalhou o dia todo. Estão cansados. Receberam ordens de seus patrões, alguns não tão educados. Foram subjugados. Trabalharam pesado. Ao final do mês, a recompensa virá na forma de poucas centenas de reais, muito pouco pelo tanto que trabalham. Muitos deles são pais ou mães de família. Após anos afastados da escola, retornaram para terminar o que não conseguiram quando eram mais jovens. A escola, para a maioria destes alunos, sempre foi uma obrigação desagradável e sem sentido. Agora que estão trabalhando, o que lhes interessa é apenas o certificado de conclusão. É o que seus patrões lhes exigem. Para os mais jovens - pelo menos para a parcela mais ambiciosa - o sonho é conseguir um emprego na usina ou na metalúrgica aqui da cidade, para, assim, terem condições de comprar um carro. E pouco importa se em suas casas não haja garagem. Se for um trabalho no turno noturno, melhor ainda. Os poucos centavos do adicional noturno, segundo dizem, compensa as horas de sono perdidas.

      Faz quatro anos que sou professor de ensino médio nesta escola. Conheço o perfil dos alunos, e chamo a maioria deles pelo nome. Apesar da vida difícil que levam, são alegres e cheios de energia. Em troca da forma respeitosa, educada e amigável com que os trato, recebo deles um respeito inestimável e raro. Curiosamente, sou um dos poucos professores que ainda não encontrou mensagens escritas oou desenhadas nas pinturas de seus carros. Na verdade, tenho muito carinho por estes alunos. No entanto, tenho a sensação de fazer mais por eles como pessoa do que como professor. Poucos sonham em cursar uma faculdade, e um número menor ainda quer saber da tal de Química. Não há perspectivas de um futuro melhor. Aliás, eles parecem preocupados apenas em viver o presente, sem acreditar que o amanhã um dia vai se tornar o hoje. Conselhos parecem sementes lançadas em terra árida e infértil. A vida, infelizmente, cobrar-lhes-á um preço alto.

Quando chego ao corredor que dá acesso à sala dos professores, avisto uma aluna que estudava no período da manhã. Recordo-me da feição dela. É uma das poucas alunas loiras da escola e, por isso, sempre chamou a atenção dos rapazes. Tem olhos verdes e a pele bem clara. Há algo nela, no entanto, que me parece diferente. Seu rosto parece mais arredondado. Seu andar também está diferente. Ela me avista, e de longe, grita por mim “Oi, fessor!” Com as mãos nas costas, ela caminha com certa dificuldade em minha direção. Ao aproximar-se, reparo que está grávida. Ela tem apenas 16 anos. Procuro, no entanto, evitar censurá-la. Parabenizo-lhe e desejo uma gravidez tranquila. Pergunto sobre o pai da criança, se é também aluno da escola. “Ah, fessor, nem me fale! Aquele desgraçado não presta!” Ao ver sua reação, decido não entrar em detalhes. Mas ela prossegue por si mesma. “Quando eu falei pra ele que eu estava grávida, ele disse pra eu me virar, que era pra eu tirar. Aí eu disse pra ele se fuder, que se ele não assumisse, eu criaria nossa filha sozinha!” Elogio-a, digo que ela fez a coisa certa, que o bebê não deve pagar por algo que eles fizeram equivocadamente. Então ela me conta que quando nasceu, sua mãe também tinha 16 anos. “Fessor, eu vou criar a minha filha e dar pra ela tudo o que eu não tive. Ela vai ter tudo do bom e do melhor.” Balanço a cabeça, em sinal de apoio, e desejo força nesta nova fase de sua vida.

Ouço então a sirene tocar. Ela se despede e me agradece pela conversa. É hora de voltar para a sala de aula. Por um instante, eu fico ali parado, olhando para o chão, sem ter a menor idéia do que se passa pela cabeça desses jovens. Estudar seria a única oportunidade de mudarem, de maneira honesta, suas condições sociais e econômicas. Para mim, pelo menos, foi assim. Mas estudar, obviamente, requer esforço, dedicação e tempo. Tempo este que eles preferem usar para bater papo no MSN, para postar fotos e comentários no Facebook, Orkut e Twitter, para se divertir com jogos no celular. Os jovens de hoje passam a maior parte do tempo envolvidos com apetrechos tecnológicos diversos, que os fazem pensar que são mais espertos e “descolados” que a geração anterior. Como se isso não bastasse, andam em gangues que constantemente se confrontam, experimentam o sexo muito cedo e, não raramente, as drogas. Em seus vocabulários, palavras como “gostosa” e “bandida” ocupam o lugar que outrora foram eram de elogios para uma mulher,  como “bonita” e “moça de família”. Sem entender como as coisas chegaram a tal ponto, a única coisa em que consigo pensar é que aquela criança que está na barriga daquela jovem certamente seguirá o exemplo de sua mãe, que acabou seguindo o exemplo de sua avó. Uma coisa, no entanto, me parece bastante provável: a família desta jovem dificilmente mudará suas condições financeiras e sociais. A tendência é que a vida difícil vá se transferindo de geração para geração nas famílias de jovens que não estudam ou que se tornam pais e mães muito cedo. Quanto a mim, que na minha adolescência já era considerado velho demais por ser muito "sistemático" e "certinho", a tendência é que eu jamais entenda a adolescência. Isso é algo, no mínimo, assustador, pois quando meus filhos forem adolescentes, eu estarei na casa dos 50 anos...

Um comentário:

Pricess Tita disse...

Olá adorei a narativa