quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Crônica 9 - A dor de quem fica



Quando Aluísio avistou a rua de acesso ao cemitério, percebeu que não seria fácil encontrar uma vaga para estacionar seu carro naquele dia de finados. Preferiu parar o carro a umas duas quadras e enfrentar a íngreme subida. Enquanto caminhava, inúmeras pessoas lhe ofereciam vasos de flores. “Tá baratinho, é só R$5,00!” Aluísio se indignou em silêncio. “Que filhos da mãe! Ganhando dinheiro à custa da tristeza dos outros!” Quando chegou à entrada, parou. Olhou para cima, e catolicamente fez o sinal da cruz. Respirou fundo, enxugou o suor da testa com o punho, projetou o pé direito à frente do esquerdo e iniciou a parte final do trajeto rumo ao túmulo de sua esposa Francisca. Foram quase 60 anos de uma união feliz,  repleta de amor e amizade. Uma vida inteira dedicada a ela. Tanta dedicação, no entanto, não foi suficiente para evitar que o câncer a levasse. Tiveram dois lindos filhos, que se casaram e se esqueceram dele. Há tempos Aluísio não tinha notícia de nenhum deles. Sabia apenas que enriqueceram e que levavam uma boa vida. Já não precisavam mais de seu velho pai.

Enquanto caminhava, Aluísio assistia o vai-e-vem de pessoas. Algumas se ajoelhavam e rezavam em silêncio. Outras lutavam contra o vento para manter suas velas acesas. Outras, ainda, preferiam lavar os túmulos de seus entes queridos antes de rezar ou acender velas. Aluísio desejava apenas acender um maço de velas e ir embora. Não pensava em lavar o túmulo de sua esposa, que fora limpo nos últimos 116 domingos. Resignado em sua caminhada, avistou um casal de jovens chorando em frente a um túmulo de mármore marrom. Pareciam ser namorados. Aluísio lembrou-se de quando  vinha visitar com Francisca, na época sua namorada, os túmulos de seus antepassados. Quando seus filhos eram adolescentes, vinham com eles para ensinar a importância de se preservar a lembrança daqueles que amamos. Em vão. Seus filhos, maravilhados com os prazeres que o dinheiro pode proporcionar, sequer se lembram dele, seu pai, que está vivo. Dirá, então, da mãe falecida.

Aluísio, enfim, avistou o túmulo de Francisca. Percebeu a presença de duas pessoas próximas a ele. Seu coração acelerou-se. Seriam seus filhos? Teria ele a oportunidade de revê-los e de preencher um pouco do grande vazio e solidão que consumiam seu espírito? Aproximou-se. Aqueles rostos não lhe eram familiares. Notou, então, que o rapaz estava com um dos pés sobre o túmulo de Francisca, e que deixara seus pertences sobre ele enquanto conversava. Aluísio pensou em pedir que o rapaz se retirasse dali e que respeitasse sua dor. Apenas pensou. Os tempos eram outros. Já não tinha mais razão para brigar. Aliás, mal tinha razões para continuar vivo. Entendeu, então, que para aquele jovem o túmulo de Francisca era apenas um retângulo revestido de azulejos que nada significava para ele. Percebeu que todos sentem falta de seus entes falecidos, mas pouco se importam ou respeitam os de outras pessoas. Aluísio para o céu ensolarado, e protegendo seus olhos cansados com a mão direita, disse em voz baixa: “Francisca, minha lindinha, a vida sem você é tão difícil... Quando é que você vem me buscar, meu anjo?”, disse em voz baixa. E dando meia volta, levou consigo o maço de velas, as inúmeras lembranças de quem partiu e a imensa dor de quem ficou.

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