terça-feira, 8 de novembro de 2011

Fragmentos de minha infância - Parte 17



Quirinópolis-GO, 1981. Tenho 5 anos. Não há muita gente pra brincar comigo. Todo mundo que eu conheço é mais velho que o papai e a mamãe. Só o Adão, filho da dona Dica e do seu Fi Vieira, e o Missim, filho do seu Antônio Baiano é que são mais novos. Eu não sei se o Adão gosta de brincar comigo, porque ele é pequeno, mas é bem mais velho que eu. Mesmo assim, eu adoro brincar com ele. Outro dia, antes de irmos para São Joaquim da Barra visitar o vovô, a vovó e a titia, eu pedi para o papai me levar à casa do Adão pra brincar com ele. A mamãe ficou brava, acho que porque ainda era madrugada. Agora estou na casa da dona Melinha e do seu Antônio Baiano, brincando com o Missim. Ele deve ter uns 12 anos, mais ou menos. Ele está me mostrando uma flor amarela pequena e muito bonita. Eu já tinha visto essa florzinha muitas vezes nascendo no meio da grama, mas não sei o nome dela. “Missim, como é que se chama essa flor?”. Ele ri. “Essa flor, Duardo... se chama bucetinha”. Eu balanço a cabeça pra mostrar que entendi. É um nome bem engraçado, acho que não vou esquecer.

Estou na porta da varanda, tirando minhas pequenas botinas. A mamãe vem me dar um abraço. Parece estar com saudade. Resolvo então contar a ela a minha descoberta. “Mamãe, hoje o Missim me mostrou uma bucetinha”. De repente, a mamãe parece uma estátua. Fica parada, com os olhos arregalados, olhando para mim. Parece pálida. Ela faz força pra engolir o cuspe, que parece ter engrossado de uma hora para outra. “Dado, onde é que vocês foram pra ele te mostrar isso?”. Ela parece preocupada. “Mamãe, nós fomos brincar na grama. Tinha umas flores amarelas pequenininhas que eu achei bonitinhas. Ele colheu uma e me mostrou. Disse que aquela flor se chama bucetinha”. A mamãe respira fundo. Parece aliviada. “Dado, deixa eu te pedir uma coisa: você nunca mais vai repetir essa palavra, entendeu?” Eu não entendi. “Mas por quê, mamãe? A flor é bonitinha e o nome é engraçado...” Ela parece nervosa. “Eu vou te explicar porquê”. Ela aumenta a voz. “Porque esse nome é um nome muito feio, é um nome bobagento! Não fica repetindo esse nome, não, se não Deus te castiga, entendeu?” Meio triste, eu balanço a cabeça e fico olhando para o chão. Mas a mamãe parece não ter terminado. “Ai, ai, ai... Tá vendo? É isso que dá brincar com menino bobagento! Fica te ensinando coisas feias... É pecado ficar falando isso, viu? Eu vou falar pro seu pai não te levar mais lá pra brincar com o Missim”. Ela dá as costas e eu fico ali, chateado, sentado no degrau que separa a sala da cozinha.

São Joaquim da Barra-SP, 1984. Tenho 8 anos. Estou no pátio da Escola Estadual Manuel Gouveia de Lima. É horário de recreio. Eu estava acostumado a brincar sozinho, a passar as tardes na casa do seu Januário ou da dona Deolinda, lá em Goiás. Agora estou no meio de tanta gente... E eu não conheço ninguém! Acho que estou mais sozinho agora que antes. De longe, lá no meio da grama verde, eu avisto uma mancha amarela. Eu me aproximo. Quando avisto as flores, eu logo as reconheço. “Meu Deus do céu!” E faço o sinal da cruz. Há vários meninos por aqui. Estão colhendo as flores e mostrando uns para os outros. “Olha a bucetinha, olha a bucetinha!” Sem saber o que fazer, eu me aproximo deles e começo a gritar, desesperadamente: “Não, pára com isso! Não fala esse nome, é pecado! Deus vai te castigar!” Ao ouvir o que eu disse, todos começam a rir. Eu balanço a cabeça e saio. “Ainda bem que a mamãe me avisou dessa tal de bucetinha. A mãe desses meninos não deve ter avisado eles. Tadinhos...”

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